Bioenergética Focada: uma experiência em Diagnóstico Corporal

Alzira (Zoca) Freire

Esta ferramenta, o somagrama,  é utilizada na Clínica Social para atendimentos individuais ou grupais. É uma proposta para trabalhar a conscientização corporal, através da técnica do desenho do corpo.  Nessa abordagem a pessoa será sensibilizada para a percepção de pontos e estados de tensão na camada externa e interna do corpo, nos movimentos impedidos e/ou inibidos e seus padrões de bloqueio. Todos estes aspectos configuram focos de trabalho na psicoterapia focada breve, com duração de um ano.

O SAPS (Serviço de Atendimento Psicoterapêutico Social) funciona como Clínica Social, desde 1998, no Instituto de Análise Bioenergética/SP.  O atendimento social se fez necessário em função nos últimos 10 anos aplicamos uma ferramenta que ajudou a focalizar o diagnóstico, que é a técnica do desenho do corpo, descrito como somagrama, não é um teste projetivo. A técnica do desenho (somagrama) não é um teste do Desenho, não é uma técnica projetiva. O uso do Desenho como Técnica Projetiva, foi publicado no Jornal de Técnicas Projetivas nos Estados Unidos, em 1952, como avaliação da arte gráfica. “Estas investigações assistemáticas do simbolismo do desenho, os “insights” da psicanálise levaram os clínicos tornarem conscientes do fenômeno de que o inconsciente se revela através de aspectos simbólicos do desenho.

“…  as indicações sobre a dinâmica da personalidade projetada no desenho foram descobertas graças ao emprego de várias fontes de evidência, tais como: informações a respeito do paciente; associação livre; interpretação dos símbolos pela análise funcional e comparação de um desenho com outro desenho de uma série ou por comparação com os dados do Rorschach ou TAT. 

 

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

 

Utilizamos esta ferramenta como um dos recursos diagnósticos na Psicoterapia Corporal Focada (Análise Bioenergética Focada), ao lado da leitura corporal e energética dos padrões corporais.

É uma representação emocional, sensória e subjetiva da experiência do sujeito descrita graficamente. Descreve no desenho do corpo as impressões que consegue registrar sobre suas percepções corpóreas. O que é somagrama?

 

SOMAGRAMA

 

O termo Somagrama foi descrito por Stanley Keleman a partir de sua visão da anatomia emocional, para descrever os estados tensionais da musculatura e as sensações experimentadas em sua superfície e no interior do corpo.  Meu contato com essa ferramenta se deu através de meus estudos com Regina Favre, que desenvolve uma abordagem de Biodiversidade Subjetiva a partir do pensamento do Processo Formativo.

Somagrama é uma representação gráfica da anatomia pessoal e da experiência de habitar e viver seu próprio corpo. É um mapa vivencial e descritivo desses estados experimentados no interior e na forma corporal. 

É um desenho subjetivo e emocional da experiência existencial. É a expressão gráfica da história corporificada da pessoa. São configurações de si em uma nova situação (como se ver moldando), um processo contínuo de presença e pulsação. É a organização anatômica presente naquele momento, mas que também expressa o corpo genético e a anatomia herdada.

 

Para David Boadella, o corpo é o lugar onde se passa a vida e é “instrumento” que se faz necessário afinar (apurar, aperfeiçoar; harmonizar e em Música – por no devido tom).  E para afinarmos o corpo vivo, faz-se necessário entrar em contato com o que se passa conosco, nos fluxos emocionais, mentais e nos movimentos. Dessa forma, revela-se no somagrama uma ferramenta bastante útil nesse processo, na medida em que nos retrata e revela a nós mesmos.

As questões existenciais aplicadas ao desenho foram desenvolvidas em Biossíntese por David Boadella (2001, Brasil), que também utiliza este recurso como expressão gráfica da vida emocional da pessoa. Descrever-se através destas reflexões permite a pessoa perceber as qualidades deste estado pesquisado neste momento.

 

Utilizamos esta ferramenta para ajudar na definição de um foco de trabalho na psicodinâmica do paciente.

A Existência estabelece um impulso para a produção de corpos continuamente, ao longo da vida.  Representamos a nós mesmos através do desenho desde quando éramos crianças e o Somagrama se apropria desse impulso de retratar-se, de produzir um back-up da forma que retrata uma tessitura de comportamentos que compõe a atitude pessoal, um jeito de funcionar, um resumo de si.

Da mesma forma, é possível corpar o somagrama, ou seja, construir corporalmente a atitude expressa na representação gráfica do corpo e, dessa forma, compreender mais profundamente a economia pulsátil, nossa forma particular de pulsar. Quando fazemos uma seqüência de somagramas, podemos perceber um trajeto de formas pessoais. “”A forma é um design, desígnio, um desejo”, segundo um artigo de Regina Favre, no Laboratório do Processo Formativo, em 2011.

 “O bebê ao desenhar um círculo, minimamente ele define um dentro e um fora quando desenha. As crianças naturalmente se desenham, portanto somagrama é uma linguagem de volta consigo mesmo” (citação de Regina Favre num seminário de Biodiversidade Subjetiva).

 

Como utilizamos o Somagrama na Clínica Social?

 

Utilizamos esse desenho no momento inicial da terapia, durante o momento de estabelecimento do foco do trabalho e da construção do vínculo com o paciente. A aplicação do somagrama permite ao paciente e ao terapeuta compreender e acompanhar o processo terapêutico somático.  Utilizamos essa ferramenta na finalização da terapia, para que o paciente possa visualizar no desenho, os recursos alcançados nesse processo focado e as condições corporais reconhecidas na trajetória da psicoterapia focada breve.

 

Como na Clínica Social trabalhamos com os sistemas de defesa no corpo como: couraças. Nas palavras de Reich: “O caráter consiste em uma alteração crônica do ego que poderíamos qualificar como rigidez. É a base da cronicidade do modo de reação característico de uma pessoa. Sua função é a proteção do ego contra perigos exteriores e interiores. Como mecanismo de proteção que se tornou crônico, podemos denomina-la com todo o direito, de couraça.; as posturas desenvolvidas nos vários tipos de caráter, segundo Alexander Lowen, “… A palavra caráter está relacionada a característica e implica que uma pessoa se comporta de modo típico ou predizível, seja este bom ou mau. A diferença entre caráter e estrutura de caráter denota que o padrão de comportamento não é determinado conscientemente e sim tornou-se inconcscientemente fixado e enrijecido a nível do corpo. Segundo a  Bioenergética, são classificados em cinco tipos básicos de estrutura de caráter. Cada um deles tem um padrão peculiar de defesas tanto a nível psicológico quanto muscular, são: esquizóide, oral, psicopático, masoquista e rígido.”

O estabelecimento de um foco, para Hector Fiorini e trabalhar com conceitos de psicoterapias mais ampliadas, usamos o desenho(somagrama) como ferramenta de reconhecimento desses bloqueios e de suas formas de expressão no corpo. 

No momento que a pessoa traz a imagem do desenho para a experiência somática, tem a oportunidade de corporificar este modo ou comportamento, que pode ajudar a pessoa a se definir nesta experiência, como se expressa a organização dos tecidos e como se pode fazer uma intensificação deste estado para esclarecer a intencionalidade, na muscularidade da forma (David Boadella)

Num terceiro momento, a pessoa é levada a experimentar os gestos a partir da expressão da postura percebida, como um passo em direção ao futuro, uma nova experiência.

Com este passo, estaremos trabalhando com a intencionalidade na muscularidade, diretamente sobre as configurações motoras permitindo dessa maneira, revelar e expressar a postura da sua própria subjetividade (este conceito podemos encontrar na teoria dos Campos Motores descrito por David Boadella).

A tarefa do cliente é descrever todas estas percepções num desenho da forma do corpo humano. Depois, vai preencher as linhas de forças percebidas na musculatura e os fluxos energéticos na cabeça, peito e quadril do corpo. O cliente pode representar graficamente com flechas, com descrição de volumes, com grossura das linhas, etc.



APLICAÇÃO

 

Será proposto uma vivência para tornar presente um estado percebido no corpo e descrito no desenho.

 

Caminhe e busque perceber como você está neste momento.

Como percebe seu corpo como um todo? 

Quais as sensações presentes neste momento? 

O que essas sensações expressam de você?

Essas sensações são familiares? (Exemplo: aperto na garganta, barriga estufada, pressão no peito, tensões musculares, expansão peitoral, etc)?

Como você percebe os espaços interiores nas bolsas da cabeça, peito e abdômen?

Que sensações e/ou qualidades você percebe nesses espaços? 

Quais as sensações nas mãos, pés, braços e pernas?

Essas sensações são compatíveis com o meu estado de espírito neste momento?

Essas sensações e percepções o remetem a momentos da sua história de vida?

Em que postura ou forma de estar no mundo, eu me percebo? Qual ou quais padrões de ação eu posso reconhecer nessas sensações ou qualidades corporais?

Exemplos:  vitalizado, animado (padrão rígido); amortecido, confuso (padrão esquizo); contraído, comprimido (padrão masoquista); esvaziado e deprimido      (padrão oral); poderoso e distante (padrão psicopata).

 

Você irá esboçar uma figura humana, desenhando esta anatomia (a forma do seu corpo humano), na vivência que você teve hoje. Desenhe neste corpo a imagem percebida de dentro e fora do corpo. Faça um desenho da forma do corpo humano, numa silhueta que você vai descrever suas percepções e sensações no corpo. 

Não fique preocupado em fazer um desenho elaborado, isso não é importante, procure superar isso e tente passar para o papel as impressões, nos traços, na espessura das linhas, indicando as tensões nas várias partes do corpo, etc.

Indique a direção das forças percebidas na musculatura e espaços internos, com flechas e outros tipos de riscos, com cores…

Contemple o que saiu. Deixe o desenho falar para você. Ao lado do desenho acrescente respostas curtas para essas questões:

 

  1. Tente ver no desenho um comportamento, qual é o nome desse comportamento?
  2. Como esta pessoa se sente?
  3. O que você precisa?
  4. Que qualidades tem?
  5. O que está disposto a desistir?
  6. E o que acredita a respeito de si mesmo?
  7. O que este desenho reflete sobre sua existência?

 

Contemple seu desenho e deixe vir às impressões para você. Organize esta forma no seu corpo e intensifique esta atitude. 

O que esta intensificação da atitude te diz? Corporifique esta atitude e torne ela mais presente para você e registre o significado desta experiência. 

Depois deste momento, intensifique esta atitude e desintensifique, faça de forma lenta e gradual.

Experimente um gesto que possa surgir a partir desta experiência. Isto pode ser um início de uma nova forma, um passo para o futuro. Intensifique novamente, registre esta expressão e capte este novo momento.



Alzira (Zoca) Freire – psicóloga, CRP 06/18439, Local Trainer em Análise Bioenergética/IABSP, Trainer Sênior International em Biossíntese/IBB, supervisora e professora em Biossíntese, pesquisadora e Terapeuta em Psicologia Formativa com Regina Favre.



Referências Bibliográficas:



Boadella, David.  Seminários no Brasil no ano de 2001, São Paulo/SP. Fonte: www.biossintese.com.br 

Campos, Dinah Martins de Souza. O Teste do Desenho, como instrumento de diagnóstico da personalidade, Petrópolis/RJ, Editora Vozes Limitada.

 

Favre, Regina. Artigos escritos dos Seminários de Biodiversidade Subjetiva em

      São Paulo/SP. Fonte: http://www.laboratoriodoprocessoformativo.com.br

Fiorini, Hector Juan. Teoria e Técnica de Psicoterapias. São Paulo, Martins

      Fontes, 2004, p.89.   

Instituto de Análise Bioenergética de São Paulo – IABSP www.bioenergetica.com.br (Serviços de Atendimento Psicoterapêutico Social – SAPS).

 

Keleman, Stanley. Anatomia Emocional. São Paulo, Summus, 1992.

Keleman, Stanley. Corporificando a experiência: construindo uma vida pessoal

     São Paulo, Summus, 1995.

Lapassade, Georges. La Bio-energia – Ensayo sobre la obra de W.Reich. Barcelona, 1978.

Lowen, Alexander. Bioenergética. São Paulo Summus, 1982, p.294.

Reich, William. Analisis del Caracter. Buenos Aires, Paidós, 1975.