Ecoísmo e Narcisismo numa visão bioenergética

Luiza Revoredo

Psicoterapeuta Reichiana, trainer local do IABSP. E-mail: luizarevoredo@uol.com.br

Trabalho apresentado no XIII Encontro de Psicoterapias Corporais, Curitiba/PR, maio de 2008

   Texto publicado na Revista Reichiana nº 17, publicação do Departamento Reichiano do Instituto Sedes Sapientiae, SP, setembro de 2008

 

Resumo: 

Este artigo se propõe a uma breve revisão do uso do termo narcisismo na teoria da Análise Bioenergética e aborda a dinâmica ecoísta, descrita por Byington (2003) e Montellano (1996 e 2006), referência à Eco, outra personagem central no mito de Narciso.  

Sustento o duplo olhar para Eco e Narciso, personagens complementares ao se fecharem no outro ou no eu. Foco as possibilidades defensivas e também criativas de Eco ao ressoar os espaços vazios onde há vida a ser des-coberta, e em Narciso o valor da introspecção na medida boa o bastante para a transformação que o mundo e a vida insistem em nos exigir, a acolhida do estranho dentro e fora de nós.

 

Palavras-chave:

Ecoísmo, narcisismo, caráter narcisista, cultura narcisista.

 

                  O mundo contemporâneo ainda e mais, nos diria Reich, favorece a construção de tipos narcisistas em graus e formas variadas para a sua manutenção. Como Narcisos, continuamos a nos apaixonar pelas nossas imagens e semelhanças, temendo, evitando, atacando e excluindo outros, mas o mundo e a Vida também insistem em nos exigir abertura para o outro, para a aceitação e convívio com o diferente e diverso.

                   Alexander Lowen discorre brilhantemente sobre este tema no seu livro Narcisismo – a negação do verdadeiro Self (1983), onde aborda o narcisismo como uma condição psicológica individual e cultural. Individualmente, o caráter narcisista é definido por um investimento exagerado na imagem, às custas do Self. São indivíduos que se vêem como especiais, egos inflados, exibicionistas, têm a necessidade de serem perfeitos, sempre auto-referenciados, suas relações afetivas são superficiais, só conferem um lugar ao outro em função de realizar algo para si e seduzem. Sua sexualidade tem a função de conquista, sem envolvimento, negam qualquer sentimento que contradiga a imagem idealizada que criaram para si. Em suas histórias eles conheceram o horror da traição e do uso. O horror promove aquela sensação de “eu não acredito no que estou vendo”, atordoamento, a cena que se repete mil vezes na cabeça em busca de uma compreensão que não encontram. O que é visto é inacreditável, torna-se a base da descrença nos próprios sentimentos, leva à desconexão cabeça-corpo e por isso se constroem como imagens e reproduzem a manipulação, a sedução e os jogos de poder. Encontram-se num vazio e paradoxalmente buscam a sensação que se dá pelo movimento nos corpos, através da busca frenética de excitação e suposto prazer, circunstâncias tão ostensivamente oferecidas e criadas na cultura contemporânea, os excessos de toda ordem, mas aí se embotam e anestesiam novamente com outras drogas, medicação e práticas corporais compulsivas, porque não dão conta de sentir, e assim ficam aprisionados neste círculo vicioso. 

                   Culturalmente, Lowen nos diz que a negação dos sentimentos levou à precariedade dos vínculos e à promoção de um estilo de vida cada vez mais privado. O narcisismo aparece na perda dos valores que nos permitem dizer humanos, como ternura, compaixão e solidariedade, na ausência de interesse pelo outro e pelo meio ambiente. Lowen identifica um grau de irrealidade e até mesmo de insanidade nesta estrutura e cultura, pois se coloca a ambição e o êxito pessoal acima da necessidade de amar e ser amado, e altera-se todo um equilíbrio ecológico em nome do prazer e de um dito padrão de vida. Isto, segundo ele, só é possível pela ausência de contato com o corpo e suas sensações e sentimentos.

                 Ao se referir à psicoterapia destes pacientes, diz: “Se a abordagem for psicológica, eles usarão a racionalidade para bloquear uma apreciação de seu problema. Se for física, isto é, trabalho corporal, eles passarão pelo movimento como se tivessem sentimentos e depois negarão qualquer sentimento ou sentido à experiência corporal…O terapeuta deve usar as duas abordagens com sua melhor habilidade. Na verdade, nenhuma terapia depende da abordagem do problema. O agente importante de toda a terapia é o terapeuta…A irrealidade do paciente precisa ser confrontada pela realidade do sentimento humano do terapeuta, e essa confrontação pode pôr em movimento as forças pela saúde do paciente…O paciente precisa ser na realidade um humano real, isto é, alguém que tem sentimento pela vida.” (Lowen,1972)

                Na teoria da Análise Bioenergética Lowen define um espectro do distúrbio narcisista, uma gradação de cinco tipos em função do nível de identificação do indivíduo com seus sentimentos, base do Self. Quanto mais narcisista, menos identificado está com seus próprios sentimentos, criando uma imagem discrepante do que é de fato. Então, temos em ordem crescente: caráter fálico-narcisista, caráter narcisista, personalidade de fronteira, personalidade psicopática e personalidade paranóide. 

                   Até aqui temos o termo narcisismo utilizado para definir estruturas de caráter e personalidade, mas encontramos também sua utilização em pelo menos estes outros contextos na teoria da análise bioenergética:

  1. referido ao aparato defensivo, como sendo um sistema de proteção narcísico;
  2. ligado à concentração de energia para dentro de si;
  3. como adjetivo, por ex. estar mais ou menos narcisado;
  4. ligado à auto-estima, desde sentimentos de inferioridade até a grandiosidade;
  5. como ferida narcísica, uma marca deixada por relações e fatos significativos;
  6. ligado à escolha de objeto.

                    Contemplando estes sentidos, temos elementos narcisistas em todas as estruturas de personalidade, por isso continuamos as tessituras neste tema.

                   O termo narcisismo faz referência ao mito grego Narciso. Narciso é filho da violência, sua mãe, a ninfa Liríope, foi tomada à força pelo rio Céfiso. Sua gestação foi penosa, mas nasceu em parto jubiloso e ao mesmo tempo motivo de apreensão, pois não era concebível um menino tão belo. Na cultura grega a beleza fora do comum sempre assustava, porque facilmente arrastava o mortal a cometer a hybris, o descomedimento. Competir com os deuses em beleza era uma afronta inexoravelmente punida, e a deusa da justiça, Nemesis, estava a postos. Portanto, tanta beleza conturbava o espírito de Liríope: Quantos anos viveria o mais belo dos mortais? O temor levou-a a consultar o velho sábio Tirésias, que lhe diz: Narciso viverá enquanto não se vir. Narciso despertou paixões de jovens de toda a Grécia, uma dessas jovens era a ninfa Eco. No entanto, Narciso permanecia insensível a todos. (Brandão, 1991)

                  Este mito contempla vários temas presentes nas estruturas narcísicas: competição, poder, ocupação de um lugar equivocado na estrutura familiar, questão de limites, inundação de sentimentos, violência, abuso sexual, ingenuidade, visão, intuição, dependências, aderência ao outro, repetição compulsiva, relação com a imagem, falta de contato com o corpo, reflexão patológica, vergonha, humilhação, depressão, anorexia, desespero, suicídio, senso de justiça, apaixonamento, ressonância, necessidade de encontro consigo e com o outro…

                  Lowen ao elaborar este tema toma como ponto central a famosa cena de Narciso refletido na fonte, seu apaixonamento pela própria imagem e morte. Entretanto, busco neste mito outro personagem, também central, Eco, com o convite para refletir inúmeros desdobramentos advindos da difícil tarefa de relacionamento com si próprio e com o outro, que considero úteis à clínica bioenergética na contemporaneidade. O termo ecoísmo, portanto, refere-se a esta personagem. 

                   Para este propósito dialogo com dois analistas junguianos, Raquel Montellano e Carlos Byington , que abordam Narciso e Eco como tipos complementares de concentração de energia no eu e no objeto, sendo manifestações de um mesmo processo subjacente. Byington  descreve os aspectos criativos e defensivos na estruturação de cada uma destas funções, ecoar e narcisar, o que nos permite fazer uma leitura destes aspectos desde a normalidade, a neurose até a psicose e afirma: Se Narciso é um símbolo central de permanência em si mesmo, Eco, ao contrário, traduz a problemática da vivência da permanência no outro. Montellano acrescenta: A disfunção do ecoísmo é tão importante na clínica quanto a do narcisismo. 

                  Raquel Montellano (1996, 2006) define narcisismo-ecoísmo como funções polares que vão propiciar um investimento libidinal no eu e no outro, incluindo aspectos comportamentais, cognitivos e afetivos. Descreve a personalidade fixada numa dimensão ecoísta como apresentando excessiva dependência de amor e aceitação do outro, que sempre é bastante idealizado. Não consegue expressar seus sentimentos, especialmente a raiva, que projeta no outro e vive a culpa, chegando à depressão ou a condutas auto-agressivas. Bastante crítica e exigente, mostra-se tolerante e humilde. Coloca-se sempre à disposição do outro e lamenta não ser reconhecida.

                 Esta caracterização se assemelha muito ao caráter masoquista na nomenclatura bioenergética. Porém a dinâmica ecoísta não se restringe ao caráter masoquista, pode estar presente nos orais, nos rígidos, nos borderlines, nas histéricas. Faz-se presente em todos os que se centram mais no outro do que em si e que se tornam reflexo do outro

 

                QUEM É ECO?

                Eco é uma ninfa das montanhas e florestas, do séquito de Hera, a esposa de Zeus, o grande deus do Olimpo. Zeus incumbiu Eco de distrair Hera com suas tagarelices, enquanto ele saía para povoar o mundo. Hera, a protetora das instituições, e portanto do casamento, como sempre bastante desconfiada e enciumada, deu-se conta do que estava ocorrendo e puniu Eco retirando-lhe seu dom mais precioso, a fala, assim ela nunca mais seria capaz de enganar alguém. Hera condenou Eco a reproduzir as últimas palavras de qualquer outro.  

               Com esta punição Eco fica fixada numa fase anterior do desenvolvimento, a fase da ecolalia, onde a criança começa a se abrir para os sons do meio ambiente, ainda indiferenciados. Eco não pode iniciar uma conversa, não consegue se comunicar, portanto fica impedida de acessar ao outro pela palavra, impedida de dialogar. Pior do que isto, ela tampouco pode ficar em silêncio. É duplamente punida, pela aderência ao outro e pela repetição, sem criação e sem quietude. Torna-se dependente e submissa. Sem a possibilidade relacional que a palavra dá, Eco tem seu processo de humanização comprometido.

               Eco fica aprisionada ao casal parental, falta-lhe grounding materno, “não tem pernas”, nem voz própria. Assume uma cumplicidade com o pai, que a coloca no lugar da mediadora do casal e, assim, nunca se diferencia na sua autonomia. Nesta aliança com o pai paga o preço do seu feminino. Sua problemática inclui triangulação familiar, limites mal colocados e problemas com autoridade. Diluem-se as barreiras geracionais, desaparecendo limites que possam proteger a criança e lhe assegurar espaço para construção da sua individualidade.

              O elemento mais significativo é que ao perceber que seus sentimentos têm pouco valor passa a negá-los e a projetá-los no outro, tornando-se excessivamente sensível e plástica ao outro, podendo criar uma compulsão de cuidar do outro, pois é dependente dele para obter reconhecimento. Observa-se um deslocamento de um traço da oralidade, a dependência e a tagarelice, a fala sem medida que visa capturar o outro, para uma defesa masoquista, assim definida na caracterologia loweniana. A ferida narcísica de Eco não é visível, é protegida pela dedicação e ressonância ao outro.

              Um aspecto interessante é que no mito consta que Eco rejeitou a Pan, o deus dos bosques e das pradarias, o que pode ser visto como uma pressão em direção ao seu desenvolvimento, pois Pan também é indiferenciado. Eco precisa de diferenciação, e ao rejeitar Pan resiste a ecoar a tudo e a todos, pois ela não anseia a generalidade, ela deseja o singular, Eco deseja Narciso para ser contida.

              O encontro dos dois se dá na adolescência, fase da vida em que o desenvolvimento pressiona para se separar da família da infância. Época que inicia uma possibilidade, pois tanto Narciso quanto Eco pedem presença. Esta passagem no mito (Brandão,1991), primeiro assinala a esperança e depois a humilhação-vergonha-depressão-morte de Eco e a seguir o desespero-morte de Narciso, os dois numa evolução para estados mais patológicos.             

             “Era verão e Narciso partira para uma caçada com seus companheiros. Eco era uma das apaixonadas pela beleza irresistível de Narciso e o seguia pela floresta.

Acontece que o jovem Narciso tendo-se afastado em demasia dos amigos, começou a chamar por eles:

-Olá, ninguém me escuta?

-Eco responde: escuta…

-Ele pasmo, olha ao redor e nada vendo grita: Vem!

-E ela: vem!…

-Narciso: porque foges?

-Eco: foges…

-Ele conjeturando que tipo de coisa seria, diz: junte-se a mim!

-Eco se pudesse por voz própria teria dito: nada mais me agradaria em tempo ou lugar, disse: a mim… e tomada de um calor, confiante deixou a floresta e esticou-se para abraçar o belo que tanto desejava.

-Ele foge sem se deixar envolver e diz: prefiro morrer antes que tu tires de mim teu prazer

-E ela: teu prazer…”

             E se vendo assim desprezada, retirou-se para a floresta, escondeu sua cabeça de vergonha por entre folhas e brotos e fechou-se numa imensa solidão. Por fim deixou de se alimentar e definhou até tornar-se pele e ossos, ficando assustadoramente esquálida, transformando seus ossos em pó num rochedo. Ela ainda hoje se esconde lá nas montanhas, no entanto seus sons são ouvidos por todos os homens.

           Todas as ninfas que foram também desprezadas por Narciso sofrem com a dor de Eco e clamam justiça a Nemesis, para que ele possa sentir o ardente fogo de Cupido e que não consiga desfrutar o que desejar.

           E aí temos a cena em que Narciso está deitado à beira do lago, inclinando-se para saciar a sede e ao beber vê seu rosto refletido e se apaixona. 

           “Ele tenta, tenta em vão com seus braços alcançar este que pensa ser outro. Chora e do lago não se afasta, quanto mais chora mais o outro se afasta, se desfaz. -Por onde foges?  E grita em desespero: fica, te imploro!

            E senta-se ereto, erguendo seus punhos grita para a floresta sua dor e lamento e num gesto arranca seu casaco e golpeia seu ventre nu, gritando ai de mim! Deitou sua cabeça extenuada na grama e a morte chegou.”

            Nesta cena tanto Eco quanto Narciso são imperativos, ela quer uma união com ele, mesmo que ele não decida e ele quer um espelho, alguém que o reflita. Como já assinalado, Narciso cresceu insensível ao outro, prefere a ilusão do outro ao invés de realmente um outro. Nesta cena ele é seduzido pela cópia fiel das suas palavras e pede que Eco se manifeste. Ela, que por sua vez dependia dele para se manifestar, sente que se aproxima do seu sonho e aí, ela que era só voz, se faz corpo e aparece quando ele propõe que se unam. Neste momento ela rompe com a repetição e expressa assim seu desejo de intimidade, mas, a pressa em função do fogo que a consome não deixa espaço para a resposta de Narciso. Inflamada de paixão se atira sobre ele, que a rejeita, e então, ferida, humilhada, se retira, mas continua amando e sofrendo.

            Eco devolve a Narciso sua própria voz, podemos imaginar que se ele tivesse dito “eu te amo”, ele teria ouvido isto de volta. A incapacidade de dizer estas palavras identifica um narcisista, que se sustenta no poder. Ele diz: antes morrer que tu tires de mim teu prazer. Ao rejeitar Eco, Narciso rejeita a voz que poderia lhe devolver a seu corpo e sentimentos.

            Temos explorado na leitura deste mito seu apaixonamento pela imagem, mas também podemos ver a necessidade de introspecção e reflexão para encontrar seu Self verdadeiro. O problema é que isto também requer uma medida boa o bastante. Narciso vive a reflexão patológica.

            Após a morte de Narciso todas as ninfas choram e sua irmãs, as ninfas das águas cortam seus cabelos e cobrem seu corpo para prepará-lo para o funeral. Quando retornam, no lugar da grama onde estava seu corpo só havia uma flor de corola amarela rodeada de pétalas brancas. Esta flor se chamou narciso. Na raiz de narciso temos narkos, de narcose, o que entorpece, enebria. Podemos ver como o símbolo de um processo interrompido destes dois jovens, mas também o movimento presente na morte e transformação.

           A tragédia de Eco e Narciso nos toca e incita a inúmeras reflexões. Byington (2003) nos diz que indivíduos com dominância narcisista representam o yang, o agente, o que brilha, o foco de atenção, o que inova. E, indivíduos com dominância ecoísta representam o ying, o incolor, o abnegado, não cria, repete e ecoa.

            Quando fixados na posição ecoísta, precisamos abrir o canal da voz pelo choro e grito, recuperando a corporeidade perdida, narcisando a si próprio, reconstruindo a própria estima e os seus limites. Já aos fixados na dimensão narcisista, cabe a tarefa de buscar seu Self, reconectar com seus sentimentos através da liberação da raiva e dor profunda, abrindo o coração para pulsar e receber o outro.  A clínica bioenergética se propõe a isto, a revitalizar zonas que perderam potência, sempre liberando a vida. Eco precisa desenvolver seu Narciso e Narciso precisa desenvolver seu Eco.

             Desde Freud sabemos que pessoas narcisistas têm atração por aquelas que renunciaram a uma parte do seu narcisismo e vice-versa, o narcisismo de outra pessoa exerce grande atração para os que buscam reconhecimento. Através destes dois personagens podemos aprofundar a leitura da dinâmica individual, da relação dos pares, casais, sócios, amigos, professor-aluno, psicoterapeuta-paciente, observando as fixações nas devidas funções e desdobrar aspectos que podem ser liberados dos padrões, reconstruir a pulsação e relações criativas.

           Para o propósito da Revista Reichiana, opto pela reflexão no campo das psicoterapias corporais, mais especificamente da Análise Bioenergética.

           Todo psicoterapeuta vive um desafio quando da sua formação, porque as Instituições ao oferecerem reconhecimento e pertinência, muitas vezes pedem aderência ao modelo, promovendo a repetição (ecoísmo), dificultando ou refreando a criatividade e o diálogo com autores considerados proscritos ao grupo. Este desafio pode assim ser definido:

-Como ser fiel ao mestre e ao mesmo tempo assumir a própria singularidade? 

-Como se constituir de maneira a trabalhar de fato justo e junto ao paciente? 

Heliane Rodrigues, uma analista institucional, compara uma teoria psicológica a uma caixa de ferramentas: é preciso que sirva. E não para si mesma.

           Na Bioenergética reproduziu-se por um bom tempo aquilo que se dizia: no país do Carnaval ser introvertido é uma tragédia! Considerou-se a introversão e a introspecção sob a ótica patológica, como a que Narciso vive, cometendo a desmesura. É fundamental, porém, perceber que a reflexão e introspecção têm um papel fundamental no desenvolvimento, no caso de Narciso, possibilidade de encontrar seu verdadeiro Self, ultrapassar a imagem. Mas, é necessário encontrar a medida boa o bastante para reconhecer-se e não ficar fechado em si e desta maneira construir a capacidade de acolher o estranho dentro e fora de si.

          Esta questão nos remete ao olhar, e Plinio Montagna (1996) nos lembra que sempre nos vemos às voltas, pessoal e profissionalmente como psicoterapeutas, com a profecia do sábio Tirésias: Narciso, se vir morrerá. Somos convidados a ver, mas também a não ver o que não pode ainda ser descoberto ou que suscita reações adversas até o extremo da agressividade. Ainda mais, não podemos esquecer que a vida sempre tem uma dimensão de mistério e aquilo que precisa manter-se escondido.

          O narcisista pensa seu corpo como imagem perfeita e controlável, e isto se opõe ao que sabemos, corpo é processo e sempre surpreende. Vale refletirmos o quão narcisados e embriagados, anestesiados, nós, psicoterapeutas corporais, podemos ficar com o jargão “o corpo não mente”.

          Eco é condenada à repetição, e uma das funções da psicoterapia é exatamente liberar as subjetividades condenadas à repetição. Ao repetir compulsivamente busca-se uma presença onde não teve, para que uma compreensão se faça e o ser se ponha em fluxo. Temos também um chamamento para o horror que é não poder viver a quietude, num universo psicorporal onde acabamos por valorizar tanto a expressão emocional.

           Eco se inflama de paixão por Narciso e se atira sobre ele sem esperar o tempo de sua resposta e se humilha. Como trabalhamos as cargas que mobilizamos nos processos dos nossos pacientes, neles e em nós? Como escolhemos o tempo de uma intervenção? Como ajudamos nossos pacientes, nesta era da hipervelocidade, a viver um tempo ancorado na sua corporeidade?

         Ela ecoa, e aqui temos o preciosíssimo tema da ressonância, esta habilidade fundamental para o psicoterapeuta corporal. Eco nos leva a refletir a que devemos ecoar/ressoar, a tudo? Como elegemos a que ecoar? Como sustentar a distância boa o bastante para se manter discriminado e assim viver o paradoxo distância que aproxima? Lembremos que Eco é ouvido lá nas montanhas…

        E, imbuídos da reflexão sobre o que ecoamos, é fundamental nos perguntarmos dia-a-dia como exercemos nossa função psicoterapeutas. Somos repetidores e reprodutores do modo de existir imperativo da nossa cultura narcisista? Conformamos nossos pacientes ao consuma, nunca envelheça, chegue lá a qualquer custo…ou  resistimos (na dupla acepção: resistir contra e re-existir) e ecoamos as diferenças?

        Patricia Berry (1982) faz uma análise que inclui a beleza de Eco, reconhecendo que ela não origina, só repete, mas que desta forma tem um importante papel para que algo se origine. Ao nos ouvir através do outro, temos a chance de nos reconhecer em novos aspectos. Ecoar é dar morada ao outro, é devolver o outro a si, nos diz Gilberto Safra.

        Eco nos deixa mais um e grande desafio: ouvir aquilo que pede para não ser silenciado nos diferentes espaços que somos chamados a intervir, assim fertilizando os espaços vazios, liberando o que precisa ser des-coberto, trabalhando a favor da vida e da multiplicidade.

        Fica o convite a continuarmos esta história, em busca do encontro, reunindo em cada um de nós Narciso e Eco, ajudando a inventar um mundo e relações em que prevaleçam hospitalidade, respeito, cuidado, contato, ternura, compaixão e solidariedade.  Assim fundamos o humano, assim realizamos nossa essência. E na essência somos amor!

                  

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

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BRANDÃO, J. S. Mitologia grega, vol. II, item IV. Ed. Vozes, 1991

BYINGTON, C. A. A construção amorosa do saber – O fundamento e a finalidade da Pedagogia Simbólica Junguiana. Ed ReligarE, 2003

                           Pedagogia Simbólica, Curso na SBPA, 2007

LOWEN, A. Horror: a face da irrealidade, palestra, publicação do IIBA,1972

                      Narcisismo: negação do verdadeiro Self. Ed. Cultrix, 1983

MONTAGNA, P. Narcisismo: considerações atuais. In Junguiana, revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica nº 14, 1996

MONTELLANO, R.P. Narcisismo: considerações atuais. In Junguiana, Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica nº14,1996

                               A dimensão arquetípica do narcisismo, Curso na SBPA, 2000

                               Transtornos de la personalidad  narcisista. In Psicopatologia psicodinâmica simbólico- arquetípica 1, Universidad Católica, Prensa Médica latinoamericana. Montevideo, 2006

REVOREDO, L. Ecoísmo e Narcisismo numa visão bioenergética, texto 05/2008