O corpo do terapeuta na prática clínica

Uma reflexão sobre sua sexualidade, gozo e depressão

Liane Zink

 

Há dez anos entrei em contato com um livro chamado o “prazer da Terapia” de Jeff Braum, tomou-me muito o seu texto, pois falava do terapeuta e sua dor e seu prazer.

Existem poucos livros escritos sobre este tema tão sério, Emilio Rodrigué no “ Paciente das 50 mil horas” faz o tempo todo um dialogo consigo mesmo, com suas emoções a coragem de falar de seus erros e acertos aprendi com ele

Minha reflexão tem se voltado para o corpo do terapeuta. Olho meus colegas em volta, a maioria atualmente tem cinqüenta anos ou mais. Muitos adoecem.

Pensando na vida dos grandes desbravadores da psique humana, observo os corpos de Freud e Reich, cada um à sua maneira doloridos e enclausurados, e me pergunto que destinos são esses. Penso no lugar do terapeuta, o lugar da solidão do pensamento, da atenção constante, da doação total na relação com o outro: “Estou neste momento para você”.

O corpo do terapeuta muitas vezes cindido dentro do seu próprio lugar, a cadeira em que se deixa cair, o corpo pesado e sem conexão com a sua própria respiração, às vezes, deprimido e angustiado, cheio de tensões tão conhecidas.

Corpo cheio da possibilidade de um desejo, de um desejo que necessita, por ética, ser exorcizado, como diz o padre em Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman: “Recolha-se, Desejo. Necessito te punir cada vez que apareceres”. Como não senti-lo em sua intensidade?

Neste corpo a corpo do encontro – a energética do desejo, o contato interpessoal. A fala não é necessária, pois o corpo revela o desejo.

Como fazer para soltar as tensões frente ao cliente, que exige e demanda cuidados além do que meu corpo pode compreender ou dar naquele dia, naquela sessão?

Território da semente da amargura, do suicídio. Corpo debulhado, como as contas de um rosário.

Corpo onipotente, ele acredita que cura. Que exorciza as doenças da alma. Corpo de esperança, com a responsabilidade de estar com um outro que, de um lado, o idealiza e, de outro, lhe apresenta constantemente o demônio da resistência.

Este corpo do terapeuta é o mediador organizado entre o sujeito e o mundo: um corpo teatro, cenário construído pelas projeções do paciente.

Mas, para além das projeções do paciente, há um outro cenário construído, ocupado por outros personagens, criações próprias do terapeuta, terreno fértil para dissociações.

O cenário do terapeuta é ativado pelo cliente no conceito que chamamos de contratransferência somática. O toque, intervenção ou interpretação no corpo do cliente é filtrado pelo ego do terapeuta, que muitas vezes dá o tom da sessão.

Nesse contexto, do ponto de vista histórico, houve uma transformação na postura do terapeuta: ele não é mais o homem barbado que dormita escondido atrás do divã, como ridicularizaram tantas caricaturas, mas é aquele que se faz presente no corpo a corpo, olho no olho, tornando-se mais exposto, mais humanizado, menos endeusado, menos idealizado.

Ainda assim, o terapeuta continua sendo o depositário das tristezas, dores, alegrias, ódio e amores do cliente. Isto significa ocupar um lugar de poder, que fortalece, componentes narcísicos desconectados, que, às vezes, se entranham de tal modo no terapeuta que ele parece não conseguir sair desse trono sem fragmentar-se.

Há, portanto, inerente ao lugar do terapeuta, um embate entre o narcisismo do espaço que ele ocupa na vida do cliente e a destituição desse lugar. Esse embate resulta muitas vezes numa fobia da vida fora do consultório, muito pobre de relações afetivas, sociais, que faz dos clientes seus amigos – e do consultório, seu mundo.

Alguns permanecem na clínica por mera questão de sobrevivência financeira, atuam automaticamente no papel, se perdem em loucuras vinculares, entram em jogos de poder e competição nas relações, repetindo com os colegas relações muito regredidas. Outros assumem atividades diferentes, que restringem, diminuem ou extinguem sua clínica. 

Às vezes, somos autênticos; às vezes, uma fraude.

Como o Lobo da Estepe de Hermann Hesse, o ser terapeuta tem mil almas aprisionadas. Inesperadamente, uma delas eclode no cenário no momento mais inadequado. Então aparece o lobo – a depressão, a destrutividade que não se pode conter – e devora uma alma.

Ainda assim dentro de cada um de nós há um terapeuta interno que, ao ser acionado, nos integra, nos dá compaixão, humildade, vulnerabilidade, nos faz aceitar nossos erros, nos dá noção dos nossos próprios limites. O estar na clínica mobiliza instrumentos que só o terapeuta pode regular. Ele precisa de terapia, supervisão, amigos, férias. E precisa recorrer ao humor, ao amor, à poesia.

Ao embate do trabalho psicoterápico se contrapõe a imagem poética de Boadella sobre o encontro terapêutico: uma dança da relação, em que a ressonância, o toque, o ritmo, a vibração, a cadência, a pulsação dos seres se mobilizam para estar aqui e agora, consigo mesmo e com o outro.

Neste momento, o terapeuta testemunha e partilha da afirmação existencial daquele que não é mais seu cliente, mas seu companheiro de caminho. Assim, também o terapeuta liberta, dá asas a uma de suas mil almas aprisionadas – e vive o fugaz instante de plenitude que dá sentido à vida.

Estilo de Terapeuta

Terapeuta é aquele que suporta o crescimento.

Invasão = Contato sem intimidade.

Intimidade = Contato com a necessidade de ambos

Privacidade = Respeito

Voracidade = A pessoa invade a si mesma

Estabelecer Identidade = Buscar Espaço e Limite Conter o organismo pulsatório

Há dois caminhos:

Distorcido
Fetalização
Maternaliação
Paternalização
Sexualização
Observador
Contato Real
Holding
Suporte
Suporte = Grounding
Container = Passar por dentro do conflito Prestar atenção e ter consciência de uma situação. 
Quem escuta é quem dá significado.

Um bom terapeuta, com uma técnica limitada obterá um bom resultado em uma área limitada. Portanto, um bom terapeuta verbal poderá ajudar um cliente em relação a compreensões importantes, apesar de negligencia áreas cruciais de mudanças somáticas.

Por outro lado, um mau terapeuta, com uma técnicas de alcance profundo, pode obter maus resultados em uma vasta área de seu desenvolvimento.

Segundo David Boadella, a Biossintese utiliza um modelo de três tipos de interações, os quais definem três tipos de pessoa para um terapeuta.

O primeiro ele chama de “invasão”. O segundo, “deprivação” e o terceiro, “diálogo”.

O terapeuta invasor penetra o paciente. Ele se torna não o terapeuta, mas o violador. Ele pode violentar o paciente com interpretações que atingem o inconsciente (por caminhos que Reich condenava em 1933) ou ele pode ser invasivo usando técnicas corporais de pressão, para forçar uma resposta e esmagar a resistência do paciente (a invasão é uma falta de respeito aos limites do paciente e resulta em um desencorajamento à confiança do mesmo em seu próprio processo de crescimento).

Deprivação é um estado onde o terapeuta abstém o paciente dos “alimentos” básicos de que ele precisa para seu crescimento. O terapeuta corporal que recusa as palavras ou depriva o paciente de experiências verbais ou um terapeuta verbal que não tem compreensão do corpo pode privar o paciente de experiências sinestésicas.

O medo de invadir pode levar à deprivação. O medo de privar pode levar à invasão. Entre estes dois modos distorcidos de relação, existe o diálogo.

O diálogo pode ser verbal ou não verbal. O terapeuta aberto ao diálogo aprenderá com seu paciente, assim como ensinará. Existirá uma maior interação dinâmica entre eles, baseada em uma comunicação aberta e um processo de desenvolvimento mútuo.

Diálogo é um tipo de contato que cria ressonância com o paciente. A ressonância é uma prancha de som, que pode ser usada para avaliar a propriedade de qualquer técnica utilizada. A pessoa do terapeuta é o mais importante, as técnicas têm importância secundária.

A pessoa do terapeuta pode ser muito impessoal ou muito pessoal. O terapeuta impessoal tenta ser objetivo, mantém seus sentimentos escondidos, permanece como uma tela vazia ou pratica uma técnica específica. O terapeuta exageradamente pessoal é muito subjetivo, estabelece uma relação simbiótica com o paciente, deixa transparecer seus desejos pessoais na sessão e é incapaz de lidar com a transferência nem com a contra-transferência.

Entre estes dois extremos, há lugar para a troca de emoções humanas profundas, de uma maneira cálida e humana. Em Biossintese, o corpo do terapeuta é uma ferramenta importante, fundamental. É o corpo do terapeuta que entrará em ressonância com as mais sutis tensões e estados emocionais do paciente. Reich chamava este processo de “Identificação Vegetativa”. Isto significa sentir em seu próprio corpo o esforço do paciente, seu ritmo e sua qualidade de pulsação.

O corpo do terapeuta é uma ferramenta também em outro sentido. Interação corpo a corpo é uma das formas mais poderosas de aprender novos padrões de crescimento. Isto inclui o uso das mãos no toque, porém o terapeuta em Biossíntese usará muitas outras vezes outras partes do seu corpo, seus pés, suas costas e sua cabeça para ajudar o cliente a explorar novos caminhos para o movimento. O terapeuta se torna algumas vezes um “dançarino de contato”, que guia o paciente para uma nova experimentação de suas raízes corporais. A terapia é então uma forma de orientação de contato.

Obviamente, transferência e contra-transferência com o uso do toque, são fortes e o terapeuta precisa ter realizado muitos trabalhos pessoais antes de estar pronto para participar desta forma de diálogo somático de uma maneira responsável, que evite o perigo de invasão descrito acima.

Transferência Corporal – Energia

Canal: Aliança Terapêutica

A medida da profundidade está no paciente

Tocar para sentir a vida no outro.

Corpo: não ter medo de olhar, de tocar, de respirar.

Na resistência: repetem-se defesas para não repetir vivencias catastróficas Defesas de sobrevivência.

Contratura Muscular – Desconfiança
Dor – Formigamento
Desprazer
Ressonância com a musculatura
(muita carga,pouca tensão, muita tensão)
Qualidade de contato
(trabalhar em direção a defesa. Defesa envolve emoção, sentimento).
Respiração profunda
Memória corporal
Conteúdo reprimido

Pensar o corpo do terapeuta e seus sentimentos é uma questão me acompanha desde sempre. Nosso olhar é sempre voltado para o cliente todas as teorias são focadas no cliente. O terapeuta como uma tela em branca “ o campo projetivo do outro” se torna distante de si mesmo.

O material emergente atravessa nosso campo e cria o contexto da relação somos também a parte historia da relação, não compreendo porque a vitoria com o cliente é tão arrasadora e a paranóia se instala. Emilio Rodrigué pag. 73 (o paciente das 50.000 horas).

Nosso narcisismo nos leva à pensar no mito, somos Tirésias, o adivinho ou o Eco do nosso Cliente? Neste encontro com o outro lado, do espelho muitas vezes da “dá nós” mesmo imagens distorcidas que temos desde nossa infância ( onde começamos a criar auto imagem) e de espelhos que já distorciam nossas auto imagens anteriormente, colisão, no cego, com dor., repetição da nossa estória, sustos tentamos adaptar nossas atitudes e comportamentos com estas imagens distorcidas. Formando defesas que nos protegem e cria nosso “jeitinho de ser” .