Psicobiodinâmica do Recalque

Ricardo Amaral Rego

Trabalho de conclusão da Disciplina

Psicanálise e Desenvolvimento Humano na Perspectiva da 

Leitura Freudiana da Angústia

PSA  5855

 

Professora: Ana Maria Loffredo

 

Instituto de Psicologia da USP  – Pós-Graduação

 

Versão ampliada

Janeiro de 2003





                      Ricardo Amaral Rego 
  1. Alm Marques Leão 785 

01330-010  São Paulo SP

Fone: (011) 283-3055

E-mail: ric.rego@uol.com.br

 

índice

 

  1. Introdução ………………………………………………………………………………………… 3

     1.1. Freud, Reich e a Psicologia Biodinâmica ………………………………………. 3

     1.2  A questão da técnica ……………………………………………………………………. 4

     1.3  Outras psicanálises ……………………………………………………………………… 5

  1. As pulsões e o destino das pulsões  ………………………………………………………. 6
  2. O recalque …………………………………………………………………………………………. 8

     3.1  Parágrafo 1  – A condenação pelo julgamento ………………………………… 8

     3.2  Parágrafo 2  – Prazer e desprazer …………………………………………………. 10

     3.3  Parágrafo 3  – A dor ……………………………………………………………………. 11

     3.4  Parágrafo 4  – A fome …………………………………………………………………. 11

     3.5  Parágrafo 5  – As pulsões sexuais e o recalque ……………………………….. 11

     3.6  Parágrafo 6  – A força do desprazer ……………………………………………… 12

     3.7  Parágrafo 7  – O inconsciente ……………………………………………………….. 13

     3.8  Parágrafo 8  – A fixação ……………………………………………………………… 13

     3.9  Parágrafo 9  – Os complexos ……………………………………………………….. 16

     3.10 Parágrafo 10 – O paciente sabe, mas não sabe que sabe ………………….. 17

     3.11 Parágrafo 11 – O representante pulsional prolifera …………………………. 18

     3.12 Parágrafo 12 – A censura e os derivados ……………………………………….. 18

     3.13 Parágrafo 13 – Fetichismo …………………………………………………………… 21

     3.14 Parágrafo 14 – Ocasiões especiais de suspensão da censura …………….. 23

     3.15 Parágrafo 15 – O contra-investimento contínuo ……………………………… 24

     3.16 Parágrafo 16 – Enfraquecendo o detestável ……………………………………. 30

     3.17 Parágrafo 17 – Representação e afeto ……………………………………………. 38

     3.18 Parágrafo 18 – Os destinos da quota de afeto …………………………………. 38

     3.19 Parágrafo 19 – O recalque mal-sucedido ……………………………………….. 39

     3.20 Parágrafo 20 – O retorno do recalcado ………………………………………….. 40

     3.21 Parágrafo 21 – Recalque, sintoma e energia …………………………………… 41

     3.22 Parágrafo 22 – Três formas de psiconeurose ………………………………….. 41

     3.23 Parágrafo 23 – A histeria de angústia (fobia) …………………………………. 42

     3.24 Parágrafo 24 –  A histeria de conversão …………………………………….. 43

     3.25 Parágrafo 25 –  A neurose obsessiva …………………………………………. 46

     3.26 parágrafo 26 –  Concluindo ……………………………………………………… 47

  1. O Inconsciente ……………………………………………………………………………….. 48

     4.1 O inconsciente recalcado …………………………………………………………… 48

     4.2  O inconsciente e a musculatura …………………………………………………. 49

     4.3  Outros inconscientes ………………………………………………………………… 53

          4.3.1 O inconsciente em Melanie Klein  ……………………………………….. 53

          4.3.2 O inconsciente neurolocomotor …………………………………………… 53

          4.3.3 O inconsciente fisiológico individual simples ……………………….. 54

          4.3.4 O inconsciente filogenético (arquetípico) ……………………………… 56

          4.3.5 O inconsciente ambiental e cultural ……………………………………… 57

  1.   Questões da técnica ……………………………………………………………………….. 58

     5.1 A técnica em três momentos ………………………………………………………. 58

          5.1.1 A técnica psicanalítica ……………………………………………………….. 58

          5.1.2 A técnica reichiana ……………………………………………………………. 58

          5.1.3 A técnica biodinâmica ……………………………………………………….. 59

      5.2 Uma proposta de técnica …………………………………………………………… 60

Anexo 1 – Definições ………………………………………………………………………….. 65

  1. Introduzindo um neologismo ………………………………………………………… 66
  2. Vocabulário da psicanálise …………………………………………………………… 67

Bibliografia ………………………………………………………………………………………… 70

 


PSICOBIODINÂMICA DO RECALQUE

  1. INTRODUÇÃO

1.1. FREUD, REICH E A PSICOLOGIA BIODINÂMICA

Muito se tem debatido sobre a relação entre a psicanálise e a psicoterapia reichiana. Após um período de crítica às idéias psicanalíticas, percebe-se hoje em dia um movimento de buscar as raízes psicanalíticas das psicoterapias corporais inspiradas pelo trabalho de Wilhelm Reich. Esta afirmação é confirmada, entre outros aspectos, pelo fato de praticamente todos os cursos de formação nessa área incluírem em seus currículos algum estudo das teorias de Freud e seus seguidores.

Meu propósito é contribuir para essa discussão, partindo essencialmente da apresentação feita por Freud sobre a sua teoria das pulsões nos “Artigos sobre Metapsicologia“. Tento mostrar como, partindo-se do texto freudiano, pode-se chegar a formulações que permitem embasar a teoria e a técnica da psicoterapia corporal a partir de um referencial psicanalítico. Não é uma tarefa simples, pois Reich afastou-se progressivamente do referencial freudiano a partir de meados da década de 1930 e suas formulações foram cada vez mais referenciadas em outros elementos notadamente os aspectos energéticos (aquilo que Reich chamou de Orgonomia) e biológicos. Desta maneira, encontramos muitas vezes em autores do campo reichiano uma formulação híbrida entre a psicanálise e estes outros elementos, sendo que não é simples esta costura. Isto em geral é feito de uma maneira em que a base psicanalítica acaba sendo, a meu ver, esquemática e superficial. Entre as escolas neo-reichianas, privilegio aqui a análise da Psicologia Biodinâmica de Gerda Boyesen (1986), devido ao fato de ser esta a abordagem com a qual tenho mais intimidade, e também porque existe nela um resgate interessante de aspectos da psicanálise pouco enfatizados nas demais abordagens de inspiração reichiana.

O que se propõe é um diálogo e uma expansão (a partir da minha visão específica) em relação ao texto original de Freud. Chamo-o de diálogo porque não é simplesmente uma tradução em “linguagem fácil”. O texto aqui visa interagir com o texto de Freud, olhá-lo de um certo ângulo e propor uma visão específica e comentários. Constitui uma expansão porque introduz elementos reichianos e biodinâmicos, e também porque traz elementos de outros textos de Freud, e ainda de outros autores que têm contribuições sobre o tema.

Uma pergunta se impõe: por que tanto empenho sobre estes textos e não outros? Por que não textos dentro da segunda tópica, com as concepções freudianas já mais amadurecidas?

São diversos os motivos:

Acredito que os “Artigos sobre Metapsicologia” de Freud estão num momento muito peculiar e importante para o pensamento reichiano e biodinâmico. Constituem uma reflexão teórica aprofundada, após cerca de 25 anos de prática da psicanálise por parte de Freud. Ao mesmo tempo, é talvez o último grande momento do pensamento freudiano em que se pode encontrar uma compatibilidade essencial com as formulações que Reich irá desenvolver mais tarde.

Em seus textos, Reich elogiará muito estes artigos de metapsicologia. Ao mesmo tempo, faz alguns reparos a “O Ego e Id”, muito mais a “Inibições, Sintomas e Ansiedade”, e coloca-se radicalmente contra o conceito de pulsão de morte revelado em “Além do Princípio de Prazer”, “O Mal-Estar na Civilização” e outros. Deste modo, a psicanálise de Reich assimila preponderantemente a visão de Freud revelada em seus textos anteriores a 1920. A única exceção importante a isto ocorreu em relação à segunda tópica (id, ego, superego), que Reich toma como base de seu trabalho psicanalítico mais importante, o livro “Análise do Caráter”.

Desta maneira, os artigos sobre metapsicologia de Freud parecem estar numa posição privilegiada, onde há concordância quase total, uma identidade entre o pensamento reichiano (da fase psicanalítica) e as idéias de Freud. A partir deste ponto, parece haver uma bifurcação, com a obra de Reich seguindo coerentemente numa direção e a obra de Freud seguindo coerentemente em outra, com diferenças pequenas a princípio, mas que se avolumam a ponto de uma ruptura em 1934 e um distanciamento muito maior ainda na produção tardia (década de 1950) de Reich. Os elementos de psicanálise que Reich manteve em seu trabalho estão basicamente relacionados ao pensamento freudiano inicial, que é formulado de forma mais sistemática e amadurecida nesses artigos sobre metapsicologia.

1.2 a questão da técnica

Um outro fator de escolha do texto de Freud é que ele permite uma compreensão dos fundamentos de vários preceitos e regras da prática analítica. Elementos básicos do pensamento clínico afloram naturalmente ao longo do texto, de modo que acredito ser ele uma referência importante e de grande utilidade para o psicoterapeuta de qualquer orientação.

Especialmente a questão do manejo da resistência pode ter um grande aprofundamento a partir do texto. Fica muito interessante, por exemplo, olhar a psicanálise como uma “abordagem de uma técnica só”, que seria a combinação da associação livre (por parte do paciente) com a atenção flutuante e a interpretação (por parte do analista), e que é usada para as comunicações do analisando, para o trabalho com os sonhos e sobre a transferência, e tudo o mais. Como no “Samba de uma nota só”, é possível fazer boa música sem mudanças no tom das notas. O manejo da resistência se dá em grande medida focando em como o analisando resiste a essa técnica. Ou seja, o importante é ter pelo menos uma boa técnica, e trabalhar as resistências do paciente a segui-la, de maneira que ele possa chegar aonde é preciso (conscientizar o inconsciente).

Esta pode ser uma boa lição para muitos psicoterapeutas corporais, que às vezes empenham um grande esforço em aprender e ensinar um enorme número de técnicas, como se isso fosse resolver tudo. “Qual é a melhor técnica para trabalhar esta situação?” Parece ser esta a pergunta equivocada de muitos. O texto de Freud vai deixando evidente que o problema não é ter mais técnicas. O importante é compreender psicodinamicamente o conflito entre pulsão e defesa, e a partir disso manejar eficientemente os diversos momentos desse conflito para chegar ao nosso objetivo.

Um psicoterapeuta que compreenda bem as questões da resistência (tratada aqui) e da transferência (a ser tratada em outro momento) poderá ser muito eficiente partindo de uma ou algumas técnicas, e não precisará dominar uma enorme coleção delas.

Não quero com isso dizer que devamos nos restringir a uma, ou mesmo poucas técnicas. Como se poderá observar ao longo deste texto, as técnicas biodinâmicas e reichianas podem ser úteis e encaixam-se muito bem em suprir certas necessidades de momentos clínicos diferentes. O que pretendo frisar é que o fundamental para o psicoterapeuta é ter uma compreensão psicobiodinâmica do processo do paciente. 

1.3 Outras psicanálises

Quero deixar claro que a fundamentação psicanalítica da psicoterapia biodinâmica e reichiana apresentada a seguir não esgota as possibilidades de ligação entre a psicoterapia corporal e a psicanálise. Desenvolvo aqui especificamente as conexões baseadas na psicanálise assimilada por Reich, e em boa medida incorporada por seus seguidores. É basicamente a psicanálise que se estrutura com base no conflito entre pulsão e defesa, e cuja clínica se orienta a partir do mecanismo do recalque.

Existem abordagens psicanalíticas que priorizam outros referenciais como fundamentos de sua abordagem. Questões como as relações objetais, os objetos internos, o desenvolvimento emocional primitivo, a visão de um inconsciente estruturado como linguagem, entre outros, conduzem a formulações psicanalíticas diferentes daquela que é discutida neste texto . Estes novos pontos de vista também têm importantes conexões com a psicoterapia biodinâmica e reichiana.

Entretanto, essas outras visões psicanalíticas não serão consideradas aqui, apesar de importantes e fundamentais. Essa opção se deu pelos seguintes motivos:

  1. a) já temos bastante assunto para discussão explorando a primeira visão freudiana;
  2. b) a primeira visão freudiana é a matriz de onde parte o pensamento de Reich (e de Gerda Boyesen, naquilo em que ela se baseia em Reich), e nos interessa explorar esta conexão;
  3. c) são visões com diversas diferenças em relação à teoria freudiana original (apesar de, na minha opinião, complementares), e sua apresentação conjunta pode gerar uma certa confusão. 

Acredito que muitos leitores biodinâmicos e reichianos ficarão um pouco frustrados, já que isso tem sido tema de muitas discussões, notadamente quanto à assimilação de formulações winnicottianas como embasamento da compreensão do processo clínico. Concordo que é um assunto rico e excitante, mas terá de ficar para outra ocasião, tendo em vista principalmente não desviar o foco da atenção desta abordagem que proponho aqui.

2. AS PULSÕES E O DESTINO DAS PULSÕES

Os artigos sobre metapsicologia foram escritos em 1915, com a intenção de “proporcionar um fundamento teórico estável à psicanálise” (Strachey, 1974 a, p. 123). No primeiro desses artigos, “As Pulsões e o Destino das Pulsões” (traduzido na Edição Standard Brasileira de Freud como “Os Instintos e suas Vicissitudes”), Freud apresenta os elementos básicos de sua teoria das pulsões.

Pulsão seria então “um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo” (Freud, 1915 a, p. 142).

Essa descrição de alguma coisa essencial que faz a mediação entre o corpo e a mente, e a derivação daí de uma psicologia inevitavelmente vinculada aos aspectos somáticos é de grande apelo para nós psicoterapeutas corporais. Pode-se ver aí a matriz de onde possivelmente Reich partiu para conceber suas teorias e técnicas. Isso permite entender o seu fascínio com estas concepções de Freud, e também o seu desalento quando a psicanálise foi deixando de lado sua base energética e pulsional. Note-se que Reich transcreve o trecho acima citado em seu artigo sobre as pulsões (Reich, 1922, p. 105).

Encontramos uma ressonância desse quadro conceitual no título do livro de Gerda Boyesen (1986), “Entre Psiquê e Soma”. O que está “entre psique e soma” é a pulsão. Desse modo, a teoria das pulsões é o elemento decisivo para uma compreensão do humano que integre os aspectos psíquicos e somáticos a partir de uma visão energética.

Freud descreve então algumas características das pulsões:

Pressão (Drang): toda pulsão pressiona, faz exigências de trabalho, constitui uma força que pode ser descrita quantitativamente.

Meta (Ziel): é sempre a satisfação, ou seja, a eliminação do estado de estimulação na fonte da pulsão.

Objeto (Objekt): coisa em relação à qual ou através da qual a pulsão é capaz de atingir sua finalidade. Pode ser externo ou uma parte do corpo do sujeito.

Fonte (Quelle): processo que ocorre num órgão ou parte do corpo.

As pulsões são determinadas por sua fonte somática, mas na vida mental só as conhecemos por suas finalidades.

Freud vai assim tecendo sua teoria de um psiquismo indissoluvelmente ligado ao corpo e dependente de uma energia somática. Um processo somático gera uma excitação, uma carga de energia psíquica que vai investir representações (idéias, imagens etc.), gerando assim uma pressão em direção à consciência e à ação, com a finalidade de eliminar a estimulação na fonte. Essa carga, essa quantidade, aparecerá na consciência como afetos, como veremos adiante.

Quanto à diferença entre as pulsões, Freud afirma que o que distingue os estados mentais produzidos pelas várias pulsões seria a diferença de suas fontes.

Levanta a hipótese da existência de dois grupos primordiais: as pulsões do ego, ou autopreservativas, e as pulsões sexuais. A base para esta hipótese seria o fato de que as chamadas neuroses de transferência (histeria, fobia, neurose obsessiva) sempre teriam na sua raiz um conflito entre as exigências da sexualidade e as do ego. Mais tarde Freud irá reformular sua teoria das pulsões, mantendo a dualidade e o conflito pulsional, mas agora a partir da polaridade entre Vida e Morte, entre Amor e Ódio. Reich discorda da existência de um dualismo pulsional, propondo a existência de uma única fonte pulsional no id, sendo que algumas delas seriam defletidas e usadas pelo ego em sua função de defesa (Reich, 1995, p. 277-285).

As pulsões sexuais são numerosas, com muitas fontes orgânicas. No início são independentes umas das outras, alcançando uma síntese numa etapa posterior. Haveria nas pulsões sexuais uma facilidade de mudança do objeto. As pulsões sexuais podem passar por diversas vicissitudes: reversão a seu oposto, retorno em direção ao próprio eu do indivíduo, recalque, sublimação. Freud examina neste texto as duas primeiras.

O tema da plasticidade das pulsões sexuais foi desenvolvido no estudo dos chamados “mecanismos de defesa”. Anna Freud e Otto Fenichel, por exemplo, são autores que se ocuparam do tema, listando e discutindo um grande número desses mecanismos: negação, projeção, formação reativa, anulação e outros. Mostraram como as representações e afetos podem sofrer destinos diversos daquele de ir simplesmente em direção à consciência e à ação para acabar com a estimulação. E é exatamente esse fenômeno, essa característica das pulsões sexuais que irá permitir a vida mental, através dos processos de simbolização, de defesa e de sublimação.

Um psiquismo enraizado no corpo, uma teoria fundamentada no princípio energético pulsional, a importância crucial da sexualidade na estruturação e no funcionamento do psiquismo. Mais uma vez percebe-se uma estrutura teórica muito semelhante à que Reich vai usar como fundamento de suas proposições mais tarde. Inclusive a posição de Freud sobre o masoquismo neste texto é exatamente aquela que Reich irá defender mais tarde, em contraposição às novas formulações freudianas. 

As idéias apresentadas por Freud neste artigo e no seguinte (“Repressão”) formam a base de um artigo de Reich (1975) que, apesar de publicado em 1922 (portanto já bem depois do surgimento de “Além do Princípio de Prazer”, de Freud) não faz menção à teoria da pulsão de morte. Este artigo de Reich foi baseado numa palestra sua para o Seminário de Sexologia de Viena, em 1919, porém isto não explica a omissão em relação à nova teoria freudiana, pois Reich já era membro da Sociedade Psicanalítica desde 1920 e poderia ter atualizado o texto para publicação. Possivelmente, o fato de a hipótese freudiana da pulsão de morte não ter sido citada parece ser já um prenúncio da opção de Reich de valorizar a primeira teoria das pulsões de Freud e não aceitar a segunda.

3. O RECALQUE

Chegamos aqui ao segundo dos artigos sobre metapsicologia (traduzido como “Repressão” na Edição Standard Brasileira das obras de Freud), onde se aprofunda a discussão do mecanismo do recalque e as implicações dessa concepção para o entendimento do aparelho psíquico e das neuroses. 

A discussão deste artigo é o cerne do presente trabalho, e para tal daremos atenção detalhada ao que Freud expõe. A estratégia escolhida consistiu em ir comentando e dialogando a partir de cada parágrafo do texto, visando facilitar ao leitor o acompanhamento das idéias desenvolvidas.

Freud continua a discussão (iniciada no artigo anterior, “Os Instintos e suas Vicissitudes”) sobre os possíveis destinos e caminhos das pulsões no seu movimento em direção à consciência e à ação. Este artigo examinará um desses destinos, que é o do recalque. A teoria do recalque é, nas palavras do próprio Freud (1914, p. 26), “a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise. É a parte mais essencial dela e todavia nada mais é senão a formulação teórica de um fenômeno que pode ser observado quantas vezes se desejar se se empreende a análise de um neurótico sem recorrer à hipnose“. Refere-se ele à resistência e à transferência, e atribui tamanha importância a elas que as coloca como o critério fundamental para distinguir entre o que é e o que não é psicanálise:

talvez se possa dizer que a teoria da psicanálise é uma tentativa de explicar dois fatos surpreendentes e inesperados que se observam sempre que se tenta remontar os sintomas de um neurótico a suas fontes no passado: a transferência e a resistência. Qualquer linha de investigação que reconheça esses dois fatos e os tome como ponto de partida de seu trabalho tem o direito de chamar-se psicanálise, mesmo que chegue a resultados diferentes dos meus (idem).

 Este conceito é fundamental também porque esse mecanismo está “na origem da constituição do inconsciente como campo separado do resto do psiquismo” (Laplanche & Pontalis, 1991, p. 430), sendo desnecessário comentar a importância, dentro da teoria psicanalítica, da idéia da existência de uma parte do psiquismo que seja inconsciente. 

Ou seja, é muito importante que se compreenda o ponto de vista de Freud a respeito do recalque, se quisermos entender a psicanálise. Segundo o Editor Inglês das Obras de Freud, é no artigo que discutiremos a seguir (e também na Seção IV do artigo sobre “O Inconsciente”) que encontramos a “formulação mais elaborada dessa teoria” (Strachey, 1974 b, p. 165). 

Reich, no seu livro “Análise do Caráter”, fundamenta suas concepções e proposições a partir da teoria do recalque. Afirma que “todas as neuroses podem ser remontadas ao conflito entre exigências pulsionais recalcadas (…) e as forças do ego que as repelem”, e que “a solução do conflito requer a eliminação do recalque; em outras palavras, tornar consciente o conflito inconsciente.” (Reich 1995, p. 18).

3.1 Parágrafo 1 – a condenação pelo julgamento

Freud inicia afirmando que um dos destinos ou vicissitudes que uma moção pulsional (impulso instintual – ver discussão sobre o vocabulário no Anexo 1) pode sofrer é encontrar alguma forma de resistência a ela, que operará no sentido de tentar fazê-la inoperante. Ou seja, há casos onde o próprio aparelho psíquico lançará mão de operações (mecanismos de defesa) com o objetivo de neutralizar uma dada moção pulsional. A idéia de resistência aparece já na primeira linha do artigo, e isto é bastante significativo, a meu ver, pois remete à importância deste fenômeno clínico e à sua conexão com a teoria das pulsões.

O exame do tema continua com uma comparação entre os estímulos externos, vindos do ambiente, e os estímulos internos, vindos do interior do corpo, estando entre eles as excitações oriundas das pulsões. Comenta-se que podemos fugir dos estímulos externos se eles forem desagradáveis ou incômodos, e dessa maneira anulá-los. Porém o mesmo não é possível com o que vem de dentro, e deverão ser utilizados outros recursos como defesa contra a eventual perturbação causada por tais estímulos.

Freud (1915 b, p. 169) afirma que um bom método para isso será a “rejeição baseada no julgamento (condenação)”. Isso poderia ocorrer desde que se preencham duas condições:

  1. a) o ego está forte o suficiente para tomar conhecimento das idéias, sentimentos, desejos, imagens e memórias relacionados à moção pulsional em andamento; e, 
  2. b) além disso, consegue afastar-se de modo eficaz da ação correspondente caso o seu julgamento e discernimento lhe digam que esta constitui uma conduta inapropriada, seja pelo temor das conseqüências, seja por entrar em conflito com princípios éticos ou estéticos.

Quando o aparelho psíquico ainda não tem condições (p. ex. devido à imaturidade, debilidade, ou insuficiente autocontrole) de lidar dessa maneira com a pulsão, ele lança mão de algum outro recurso ou mecanismo, sendo um deles o recalque.

Um exemplo dado por Freud (1917, p 289-303).em outro texto poderá ajudar a esclarecer. Ele conta ter atendido uma senhora de 53 anos de idade, com uma queixa de ciúme, obsessivo e sem apoio na realidade, em relação ao marido e uma determinada jovem. A conclusão de Freud é que esta senhora estava fortemente atraída pelo genro e que, não tendo condições psíquicas de lançar mão da “condenação pelo julgamento”, utilizou um mecanismo psíquico de defesa (no caso, a projeção) para lidar com suas moções pulsionais. Em outras palavras, se ela pudesse: 1- admitir na sua consciência o desejo pelo genro, elaborar os motivos desse desejo (talvez um marido que não mais dá conta de satisfazê-la sexualmente, ou uma rivalidade com a filha, ou o medo de sentir-se velha e próxima da morte, ou realmente uma atração pela pessoa dele, ou tudo isso junto, ou ainda algum outro motivo), e 2- dar um jeito de desviar sua ação e suas atitudes dessa tentação através da autocontenção, baseada em seu julgamento moral e numa avaliação da realidade; essa seria a atitude mais madura, que consistiria exatamente na citada condenação pelo julgamento.

No caso, isso não foi possível, e a projeção lhe permitia algumas vantagens, como poder contemplar a idéia de que é possível uma pessoa mais velha apaixonar-se por outra mais nova. Ou aliviar o sentimento de culpa inconsciente advindo do desejar algo tão contrário aos seus princípios e à sua moral (algo como uma justificativa inconsciente do tipo: “se meu marido sente essas coisas, não é tão vergonhoso nem tão errado que eu também as sinta”).

Se, ao invés da projeção, ela tivesse recorrido ao recalque como mecanismo de defesa contra a pulsão, a idéia e os sentimentos proibidos estariam ausentes da consciência, mas poderíamos esperar o surgimento de derivados (ver adiante) da pulsão como, por exemplo, ações de sabotagem do casamento da filha, ou uma atenção excessiva e especial ao genro, ou colocar em destaque na casa uma fotografia do jovem casal onde o genro aparecesse bem visível. Talvez ocorressem alguns “peripaques” e ataques de ansiedade em reuniões de família em que o genro estivesse presente. Creio que todo mundo já presenciou cenas do tipo, e isso parece indicar que o fato mencionado por Freud talvez não seja tão incomum.

Uma formação reativa contra essa mesma moção pulsional poderia levar a uma implicância com esse genro “arrogante, que se acha o máximo”, e a uma vida de constantes atritos com ele.

Freud afirma que o recalque é “algo entre a fuga e a condenação” (p.169), o que soa estranho, pois poucas linhas acima dissera que a fuga não se aplicaria aos estímulos internos. Assim, como poderia o recalque estar entre algo que se aplica aos estímulos internos e algo que não se aplica? Partindo do que ele diz mais à frente neste artigo (sexto parágrafo) e em outros textos, e do que alguns comentadores afirmam (Fenichel, Anna Freud), talvez se possa dizer que o que ele tentou dizer foi que o recalque é um dispositivo mental que está num ponto intermediário da evolução psíquica, existindo mecanismos de defesa mais primitivos (como a negação, a cisão e a projeção), e outros mais maduros (como a condenação pelo julgamento).

O autor termina o parágrafo comentando que este conceito só pôde ser formulado a partir do advento da psicanálise, pois é apenas a partir do referencial analítico e da clínica analítica que ele se evidencia ao observador. A fundamentação da psicanálise na tese de que existem processos mentais inconscientes leva à questão de como é que se forma o inconsciente e a barreira entre consciente e inconsciente. Este é um tema que permeará todo o artigo.

3.2 Parágrafo 2 – prazer e desprazer

Freud debate neste parágrafo uma aparente contradição teórica: sendo a pulsão uma expressão das necessidades do organismo, e o prazer a conseqüência de sua satisfação, por que o aparelho psíquico haveria de opor-lhe resistência? O autor coloca como condição necessária para a ativação do recalque que a consecução da finalidade da pulsão conduza ao desprazer ao invés do prazer. Entretanto, de acordo com a teoria das pulsões, não existe uma pulsão cuja satisfação não conduza ao prazer. Temos, portanto (segundo Freud), de supor a existência aqui de algum fator ou processo pelo qual o prazer da satisfação se transforma em desprazer. A solução para esse aparente paradoxo será formulada adiante, no sexto parágrafo.

Podemos observar aqui Freud revelando seu raciocínio, os passos da dedução e explicação de um achado clínico importante (o mecanismo do recalque), de modo a poder entendê-lo dentro do quadro de sua teoria do funcionamento mental. Especificamente, como pode ser possível compreender o recalque à luz de suas formulações sobre o princípio do prazer, discutidas (entre outros locais) no texto anterior a este, “Os Instintos e suas Vicissitudes”.

Freud destaca ainda neste parágrafo a vinculação das concepções apresentadas com a clínica, afirmando que o recalque não é um conceito que se possa deduzir facilmente a partir apenas da teoria. No mesmo sentido, Hanns (1999, p. 215) afirma, ao comentar este parágrafo, que Freud deixa “claro que é na clínica que a dinâmica pulsional entre consciente e inconsciente pode ser observada, o que mostra como, para ele, o Trieb era mais do que uma ficção teórica, uma presença operante e observável na clínica.”

 

3.3 Parágrafo 3 – a dor

Freud examina aqui outras situações pulsionais, com a finalidade de melhor delimitar o conceito de recalque. A primeira dessas situações que examinadas relaciona-se ao que ocorre quando um estímulo externo é internalizado, destruindo ou corroendo algum órgão do corpo (digamos, uma contusão, uma facada ou uma infecção). Surge no local lesado uma fonte constante de excitação e de aumento da tensão psíquica, que experienciamos como dor.

Neste caso o estímulo acaba se comportando de maneira semelhante a uma pulsão (da qual não se pode fugir). Porém essa pseudopulsão (como Freud a chama) é diferente de uma pulsão verdadeira, no sentido de que sua finalidade é simplesmente a cessação da mudança do órgão e do desprazer correspondente.

Além disso, ressalta que a dor é imperativa e não sujeita à manipulação por meio de mecanismos psíquicos. Segundo ele, as únicas coisas que podem fazer a dor ceder são a ação de uma droga (aspirina, álcool etc.) ou a influência da distração mental.

Esta última observação, feita quase que de passagem, é bastante aguda, e nos leva a pensar que talvez boa parte da humanidade sofra em certa medida de alguma grande dor mental, dada a disseminação do consumo de drogas psicoativas legais (álcool, nicotina, ansiolíticos, antidepressivos) e ilegais (maconha, cocaína, heroína etc.), e de meios de distração (novelas, filmes, TV, esportes etc.).

3.4 Parágrafo 4 – a fome

Freud afirma que o tema da dor é muito obscuro para ser de ajuda no esclarecimento do conceito de recalque, e deixa de considerar como útil a discussão da dor no âmbito deste artigo. Conforme aponta o tradutor inglês em nota de rodapé, encontraremos em “Além do Princípio do Prazer” (Freud, 1920) outras considerações de Freud sobre a questão da dor. 

Continuando a discussão, passa a analisar o que ocorre quando permanece insatisfeita uma moção pulsional como a fome. Afirma que ela vai se tornando cada vez mais imperativa e só pode ser aplacada pela satisfação. Neste caso, não há possibilidade, nem remota, de entrar em ação alguma coisa como o recalque.

Freud vai assim limpando o caminho, deixando de lado alguns elementos (a dor e a fome) como sem importância para a compreensão do mecanismo do recalque. Além disso, “aqui Freud acaba descartando a questão do excesso de Reiz como útil para explicar a Verdrägung [recalque] e volta-se à clínica e às dimensões da significação.” (Hanns, 1999, p. 220).

3.5 Parágrafo 5 – as pulsões sexuais e o recalque

Conclui Freud que o recalque não é um recurso utilizado pelo aparelho psíquico nos casos em que a tensão produzida pela falta de satisfação de uma pulsão vai crescendo continuamente até chegar a um grau insuportável. Ou seja, a dor, a fome, a sede e outras moções pulsionais semelhantes não são passíveis de recalque.

O autor vai nos conduzindo paulatinamente à conclusão de que apenas determinadas pulsões específicas são passíveis de transformação e manipulação pelo aparelho psíquico segundo o mecanismo do recalque. Freud vai então descrevendo uma teoria do aparelho psíquico que se funda nas pulsões, ou seja, nos processos do corpo, e, ao mesmo tempo, vai descartando a importância psíquica de inúmeros processos orgânicos.  Veremos mais tarde que isso será importante ao indicar que são essas, e não outras, as pulsões implicadas na gênese dos sintomas neuróticos. Mais especificamente, serão as pulsões sexuais e agressivas, pelas suas características de plasticidade e maleabilidade psíquica, que vão constituir o substrato da dinâmica dos processos mentais. Em outras palavras, não é todo o funcionamento corporal que vai moldar e determinar o psiquismo (e especialmente as neuroses). São apenas alguns componentes do funcionamento somático, já descritos, que irão se destacar como de importância nas questões da mente. Para eles, e somente eles, será dirigida a atenção daqui por diante.

3.6 Parágrafo 6 – a força do desprazer

Freud agora muda a linha de argumentação. Deixa de lado a especulação teórica e vai examinar o que a prática psicanalítica revela, como forma de clarear o conceito de recalque.

A prática nos mostra, segundo ele, que a satisfação de uma pulsão que está recalcada seria não só possível como agradável por si só, porém “irreconciliável com outras reivindicações e intenções” (Freud 1915 b, p.170). Em outras palavras, a satisfação de uma pulsão recalcada produziria simultaneamente prazer e desprazer.

Lembremo-nos da senhora do exemplo comentado na discussão do parágrafo 1: uma relação sexual com o genro certamente seria prazerosa, mas também certamente traria culpa, medo e ansiedade, sem falar nas possíveis conseqüências práticas.

O autor afirma então que, para o recalque ocorrer, é preciso que a força do desprazer a ser causado pela satisfação da pulsão seja maior do que a força do prazer ocasionado pela mesma.

Continuando, Freud afirma que a observação das neuroses de transferência na prática psicanalítica nos faz concluir que o recalque não é um mecanismo que está presente desde o início da vida psíquica. Ele só pode ocorrer a partir de quando já houver uma divisão importante entre a atividade mental consciente e a inconsciente. Isso se dá porque o recalque, em sua essência, consiste simplesmente em manter alguma coisa afastada da consciência.

Antes dessa fase da organização mental (em que passa a haver uma cisão entre atividade mental consciente e inconsciente), supõe-se que a tarefa de evitar as moções pulsionais cabia a outros mecanismos, como a reversão no oposto ou o retorno em direção a si próprio (mecanismos discutidos no artigo já citado “Os Instintos e suas Vicissitudes”). É claro que as pulsões em si não podem ser evitadas, pois estão conectadas às fontes somáticas de estímulos. Os elementos atingidos pelos mecanismos de defesa são os “destinos dos estímulos pulsionais, ou da direção da ação que é motivada pela pulsão.” (Hanns, 1999, p. 224).

Segundo Fenichel e Anna Freud, mecanismos de defesa como a projeção e a negação seriam os mais importantes numa fase primitiva do desenvolvimento do aparelho psíquico. Melanie Klein (1991) acrescenta a estes também a cisão em sua discussão da posição esquizoparanóide. Esta concepção (de formas primitivas de atividade psíquica, anteriores ao momento em que se cria o inconsciente a partir do recalque), irá possibilitar a introdução de novas teorias e mudanças importantes na clínica, tais como as propostas por Klein e Winnicott, entre outros. Note-se que no presente texto, e em quase toda sua produção teórica, Freud praticamente deixa inexplorado este território, atendo-se a uma teoria e a uma clínica baseadas na teoria do recalque.

3.7 Parágrafo 7 – o inconsciente

Afirma-se neste parágrafo que o exame mais aprofundado da natureza do recalque deve ser adiado. Isso se dá porque, para tal discussão se dar a contento, seria necessário conhecer mais sobre a estrutura dos diversos agentes e instâncias psíquicos, e sobre a diferenciação entre o que é inconsciente e consciente, já que há uma forte correlação entre os conceitos de recalque e de inconsciente.

Freud vai aqui clareando sua formulação sobre como é que, afinal de contas, pode constelar-se uma parte da mente que é inacessível à consciência. Vai mostrando o quanto um conceito como o de recalque é fundamental para seu edifício teórico, onde a suposição da existência de uma vida mental inconsciente é elemento básico.

Já que não é possível examinar mais profundamente o conceito de recalque, Freud afirma que irá fazer, no restante do artigo, apenas uma descrição (grifo meu) de características do recalque que tenham sido observadas clinicamente. Na verdade ele faz muito mais do que isso, formulando importantes conceituações da sua metapsicologia.

3.8 Parágrafo 8 – a fixação

Segundo o autor, a observação clínica nos leva a supor a existência de um recalque originário (ou primevo, primário, primitivo). No original alemão: Urverdrängung. Conforme o comentário de Luis Hanns sobre este termo específico: “Urverdrängung contém o prefixo ur -, utilizado para designar a ancestralidade e o fato de ser o primeiro de uma linhagem; é um termo de certa solenidade mítica e, até certo ponto, é surpreendente seu emprego neste contexto” (Hanns, 1996, p.360).

Esta seria uma primeira fase do recalque, consistindo em barrar a entrada no consciente do representante psíquico (ideacional) da pulsão. Ou seja, as idéias (representações) correspondentes a uma determinada moção pulsional seriam impedidas de chegar à consciência.

O processo descrito estabeleceria uma fixação, ou seja, a partir deste momento o representante da pulsão permaneceria inalterado no inconsciente, mantendo a ligação com a pulsão e a energia que lhe é própria. Em outras palavras, o elemento recalcado não sofreria a ação do pensamento consciente e, portanto, não seria questionado ou modificado, permanecendo sempre igual, sendo isso o que constitui a chamada fixação.

Chegamos aqui a um dos temas mais curiosos da psicologia humana: o de que adultos freqüentemente sentem, pensam e agem como crianças, ou mesmo como bebês.

“Nossa, como ele (a) é infantil!” Esta é uma expressão muito usada para se referir a maridos, esposas, pais, patrões, empregados, colegas e amigos. E realmente vemos muita gente reagir de um modo que parece ser o de uma criança: emburrado, tímido para além da conta, tripudiando sobre um perdedor, agudamente sensível a críticas, vaidosamente exibido, totalmente dependente do afeto e atenção de alguém. 

Perdi a conta do número de mulheres que já ouvi dizendo: “os homens são todos uns meninões crescidos procurando uma mamãe que os sirva e que diga que eles são o máximo”. Por outro lado, também os homens reclamam com freqüência que suas companheiras são infantilizadas: não sabem fazer muitas coisas de adulto, querem ser tratadas como a “princesinha do papai”, precisam de atenção como um bebê precisa dos cuidados da mãe, exigem que o homem seja hoje tão forte, poderoso e sábio como o pai delas lhes parecia quando tinham cinco anos de idade.

É um dado da experiência comum que as pessoas não amadurecem por inteiro. Algumas partes crescem, mas outras permanecem como eram na infância. Pode ser que o intelecto se desenvolva e o mundo dos sentimentos permaneça infantil, ou vice-versa. Pode ser que se mantenha um tipo de relação infantil, como o apego exagerado à mãe na vida adulta, ou não conseguir sair da casa dos pais, ou manter o mesmo padrão com outra pessoa (o sujeito que se casa e quer que a mulher funcione como a mãe). O mais freqüente é criar um verniz de maturidade para uso social, por baixo do qual correm fortes impulsos, preferências, desejos e reações francamente infantis.

E não se trata apenas do lado bom de ser infantil, de manter viva a criança (lúdica, espontânea, criativa, sincera) que existe em nós. Mário Quintana disse: “Temos todas as nossas idades ao mesmo tempo”. É muito bonito esse verso, que fala do fato de, mesmo adultos, ou velhos, carregarmos vivos em nós o bebê, a criança, o jovem e tudo o mais. Isso é muito interessante, mas o que comento aqui é algo diferente, é sobre aquele que, em alguns determinados aspectos, não tem o eu adulto, mesmo sendo adulto. Ele só tem o eu-criança ou o eu-bebê. É a presença de elementos imaturos que atrapalham e dificultam o viver pleno de um adulto. São inibições e limitações que impedem o lidar com os desafios da maturidade, que impedem o aproveitamento daquilo que uma vida adulta bem vivida poderia proporcionar. Coisas que restringem as conquistas no amor, no conhecimento, no crescimento profissional, no uso das potencialidades artísticas, na atuação como cidadão consciente, no desabrochar como pessoa, na capacidade de ganhar dinheiro.

Em geral, a vida adulta pode ser comparada a um esporte competitivo: imagine uma criança jogando futebol num time de adultos, que são mais hábeis, mais rápidos, mais fortes e mais malandros. A imaturidade custa caro: ou a pessoa fracassa no terreno em que é imatura, ou se protege numa relação em que o outro é forte e a deixa protegida como que numa redoma, isolada e poupada dos embates da “vida real”. Neste último caso, o preço é uma dependência dos caprichos do outro, uma submissão e uma castração das potencialidades de crescimento. 

É o caso também daquilo que é designado como “café-com-leite”, expressão que designa alguém que participa de um jogo (em geral uma criança menor do que os demais), mas que ninguém leva a sério, não lhe passa a bola, não exige nada, e ele fica ali correndo, como um figurante. Não há dano, mas não há realização, não há crescimento, não há glória. Ocorre em geral uma certa humilhação quando a pessoa se dá conta de que os demais o tratam como um inferior, alguém incapaz de jogar o jogo de verdade.

O melhor é estar em sintonia com o tempo: ser infantil na infância, jovem na juventude, maduro na maturidade. Como em qualquer aspecto da biologia e da psicologia, há exceções, e a principal delas diz respeito à necessidade, dentro da psicoterapia, de muitas vezes fazer contato com aspectos regressivos da personalidade. Mas a exceção acaba confirmando a regra, pois é exatamente o reviver das fixações na regressão que vai permitir a sua superação, permitindo o amadurecimento. 

O nome que se dá em psicanálise para essa permanência de atitudes e desejos infantis é exatamente fixação. Conforme Laplanche e Pontalis (1991, p. 190), fixação é um conceito de alto valor descritivo, porém não explicativo. Ou seja, é bom para descrever um certo estado de coisas, mas não ajuda muito a entender porque as coisas se dão dessa maneira. 

Diz-se que algo ficou fixado, no sentido de afirmar que este elemento não evoluiu, não se desenvolveu juntamente com o restante da personalidade, por ter ficado isolado dos demais componentes que seguiram seu caminho natural. Essa fixação pode se dar em uma fase do desenvolvimento, em um objeto (pai, mãe, outros), em um padrão de relação, em um modo de reagir, em uma meta libidinal, em um tipo de satisfação.

Note-se que muitas vezes convivem lado a lado atitudes que surgem a partir dos elementos fixados e outras sintonizadas com a realidade. É o que se pode observar no comentário de Freud a partir do relato de dois pacientes cujos pais haviam morrido, deixando-os órfãos enquanto crianças, e que não haviam conseguido tomar conhecimento dessa morte. “Fora apenas uma determinada corrente em sua vida mental que não reconhecera a morte daqueles; havia outra corrente que se dava plena conta desse fato. A atitude que se ajustava ao desejo e a atitude que se ajustava à realidade existiam lado a lado.” (Freud, 1927, p. 183).  

As fixações são o elemento fundamental da psicopatologia freudiana, onde os distúrbios mentais e emocionais são sempre remontados à fixação em algum elemento passado. É o passado vivo no presente que faz adoecer. Por exemplo, “a fixação na fase anal estaria na origem da neurose obsessiva e de certo tipo de caráter” (Laplanche & Pontalis 1991, p. 190). “As histéricas sofrem de reminiscências” (Freud, 1910, p. 18). Do mesmo modo, todo distúrbio mental estaria caracterizado por um ponto de fixação, que obrigatoriamente deve ser eliminado ao longo do tratamento analítico. Se o passado tornar-se passado e não mais contaminar o presente, não haverá base para um funcionamento mental e emocional perturbado. 

É isso que leva Winnicott (1990, p. 30) a afirmar que: “a saúde da psique deve ser avaliada em termos de crescimento emocional, consistindo numa questão de maturidade”. Podemos desse modo afirmar que, dentro do referencial psicanalítico, maturidade é saúde e saúde é maturidade. E que, neste sentido, a tarefa da psicoterapia é resolver as fixações infantis.

Como já mencionado, apesar do grande valor descritivo, o conceito de fixação não explica muita coisa. Ficam perguntas: Como se dá a fixação? Como é possível que um elemento da vida psíquica fique isolado dos demais? Como é possível que ele permaneça imaturo enquanto o restante da personalidade evolui?

A resposta freudiana a tais questões vem através da teoria do recalque. É por meio desse mecanismo psíquico que certos elementos são retirados da vida consciente, sendo mantidos no inconsciente, onde não sofrem as interações que os fariam evoluir. Permanecem ativos, porém congelados no tempo, sem sofrer a erosão da realidade e do aprendizado.

3.9 Parágrafo 9 – os complexos

A segunda fase do recalque é chamada de recalque propriamente dito, e afeta os derivados mentais do representante recalcado, ou sucessões de pensamentos que, vindos de outras fontes, entrem em ligação associativa com ele.

Chega-se aqui à possibilidade de entendimento de um outro fenômeno de grande importância na prática clínica, que são os chamados complexos. Estes nada mais são do que aglomerados de elementos originalmente recalcados, acrescidos de derivados desses elementos e ainda material que foi associado aos anteriores. Tece-se assim uma teia, uma rede de conexões, e este modo de funcionamento do inconsciente será crucial na explicação de inúmeros eventos psíquicos. Certas representações encontram-se ligadas a outras, num emaranhado de pensamentos, imagens, afetos, memórias e desejos, carregados de energia e com grande poder de influência sobre a vida mental.

Por exemplo, no complexo de Édipo encontramos o recalque da pulsão original (amor do menino pela mãe), recalque dos derivados dessa pulsão original (ódio ao pai e desejo de matá-lo devido à frustração imposta por ele; medo da castração, que seria retaliação do pai; mágoa e raiva da mãe por ela não corresponder ao seu amor erotizado), e recalque de cadeias associativas (que impedem de ver, por exemplo, que uma rebeldia contra autoridades na verdade se origina do ódio ao pai; ou que uma dificuldade de ter uma ereção com a esposa, mas não com uma amante, ocorre porque inconscientemente o ato sexual com aquela equivale ao sucesso na conquista da mãe, o que é proibido).

Note-se que estes complexos inconscientes são regidos por um tipo de funcionamento diferente daquele que conhecemos na consciência. Freud chamou o modo de funcionamento inconsciente de processo primário, que se daria por associação de idéias, ausência de contradição e de ordenamento temporal, condensação e deslocamento fluentes, e livre fluxo da carga de energia. Em oposição, o funcionamento consciente, chamado de processo secundário, ocorreria com base na lógica, na ordenação no espaço e no tempo, na classificação e na existência de energia ligada.

Freud afirma que o recalque propriamente dito seria uma “pressão posterior”. Ou seja, é algo que vai incidir sobre derivados daquilo que sofreu fixação (p. ex. uma fase ou um elemento pulsional) num primeiro momento, constituindo uma segunda fase do processo.

Não fica claro, a meu ver, o motivo da colocação de Freud, distinguindo e dividindo em dois um processo que aparenta ser único e contínuo. Mais à frente, neste mesmo artigo, o próprio Freud parece não dar tanto valor a esta diferenciação: 

A idéia que representa o instinto passa por uma vicissitude geral que consiste em desaparecer do consciente, caso fosse previamente consciente [recalque propriamente dito], ou em ser afastada da consciência, caso estivesse prestes a se tornar consciente [recalque primário]. Essa diferença não é importante, correspondendo à mesma coisa que a diferença entre ordenar a um hóspede indesejável que saia da minha sala de visitas (ou do meu hall de entrada), e impedir, após reconhecê-lo, que cruze a soleira de minha porta. (Freud, 1915 b, p. 176).

Existe a repulsão a partir do consciente, como vimos, mas igualmente importante é a atração exercida por aquilo que foi originalmente repelido sobre tudo que possa ser associado a seus elementos constituintes. Segundo o autor, provavelmente o recalque falharia em seu objetivo se não houvesse a cooperação dessas forças de atração, de um lado, e a repulsão por outro, existindo algo previamente recalcado “pronto para receber aquilo que é repelido pelo consciente” (idem, p.172).0

Vemos aqui que, apesar do propósito declarado de fazer uma exposição meramente descritiva do recalque a partir da observação clínica, Freud não resiste a especular teoricamente sobre as origens e meandros de recalque.

Neste contexto, podemos entender os processos que levam à chamada amnésia infantil.  Age aqui o mecanismo do recalque, conforme assinalado neste parágrafo, que exclui da consciência tudo que se associa aos elementos recalcados originariamente. Deste modo, aos poucos vão sendo apagadas as pistas que poderiam levar de volta ao conflito ou trauma original, terminando por restarem poucas lembranças dessa fase da vida, ou mesmo uma amnésia completa.

3.10 Parágrafo 10 – o paciente sabe, mas não sabe que sabe

Conforme Freud, o estudo das psiconeuroses nos leva a observar os importantes efeitos do recalque, e com isso há uma tendência a supervalorizar sua dimensão psicológica (consciente), e a esquecer que o recalque não impede o representante psíquico da pulsão de continuar existindo no inconsciente, organizando-se, estabelecendo ligações e dando origem a derivados.

  Começa a ser enfatizada aqui a noção, que será desenvolvida no próximo parágrafo, de que o recalque interfere apenas na relação do representante psíquico da pulsão com o consciente, sem afetá-lo (o representante) em nada além disso.

Isso terá conseqüências clínicas importantes, que Freud formula sinteticamente na frase: “o paciente sabe, mas como não sabe que sabe, acha que não sabe”. Ou seja, o analista não é o todo poderoso detentor do saber. É o paciente quem sabe o que o aflige e o que deve ser feito para resolver seus problemas. Mas ele não tem acesso a esse saber devido ao fato de o mesmo ter sido recalcado e estar inacessível à consciência. O paciente busca o analista para que este lhe revele o que ele próprio já sabe, mas que, devido ao recalque, ainda não pode saber. De uma certa maneira, portanto, a tarefa do analista será apresentar o paciente a ele mesmo.

Ou, dito de maneira mais poética, “o esquecimento é a mais complicada das fechaduras, mas é simplesmente uma fechadura, não é uma borracha ou uma espada, não apaga, não mata, ele tranca. Cada acontecimento (…) é catalogado, etiquetado, fechado no esquecimento, mas indicado na consciência por um sinal freqüentemente microscópico. Basta estar atento a esses sinais. Cada um guarda um caminho que termina em uma porta aferrolhada, atrás da qual se encontra a lembrança intacta.” (Cardinal, 1990, p. 167).

3.11 Parágrafo 11 – o representante pulsional prolifera

Aprofundando o que foi dito no parágrafo anterior, Freud afirma que o representante psíquico da pulsão desenvolve-se de uma forma mais livre e mais variada quando está fora da influência do consciente, devido à ação do recalque. Como já foi visto (parágrafo 8), essa ausência de influência vai permitir a persistência de padrões infantis (fixação), dado que essa parte do psiquismo não evoluirá para a maturidade juntamente com aquilo que está no consciente. Mas essas representações não permanecerão paradas e inalteradas, como a palavra “fixação” poderia sugerir. O material recalcado apresenta uma dinâmica própria e intensa, e “prolifera no escuro” (Freud, 1915 b, p.172), gerando formas de expressão que, quando apresentadas ao paciente através do trabalho de análise, lhe parecerão estranhas e assustadoras. 

Por exemplo, uma mãe pode ficar muito angustiada a assustada ao perceber que, tendo uma filha doente, surpreende-se tendo devaneios constantes onde a filha piora e morre, e mais surpresa ainda ao descobrir que tem prazer do pensar nisso e realmente tem momentos onde deseja que a filha morra, reeditando a fábula da Branca de Neve.

Ou um homem adulto poderá ficar espantado ao dar-se conta de que durante toda sua vida profissional não ultrapassou determinada faixa de rendimentos porque inconscientemente equiparava dinheiro com potência sexual (e esta com o tamanho do pênis), e tinha medo de retaliação (castração) se exibisse abertamente possuir um “pênis” maior que o de seu pai. Ou seja, não se permitia ter uma renda maior do que a de seu pai.

Essa enorme força da pulsão recalcada resulta da combinação de um desenvolvimento desinibido da fantasia no inconsciente (livre do controle do consciente) e do represamento libidinal (estase) causado pela satisfação frustrada, dotando o material recalcado de uma alta carga de libido.

A importância do recalque está diretamente vinculada ao seu papel na frustração das pulsões. Segundo o princípio do prazer, o recalque constituiria um fracasso nos casos de neurose, por não evitar o desprazer causado pelos sintomas e inibições.  Entretanto, do ponto de vista da censura é um sucesso, justamente por evitar tanto a consciência desprazerosa do desejo como a ação temida e condenada pelo ego, pelo superego ou pelo ambiente.

3.12 Parágrafo 12 – a censura e os derivados

O recalque não retira do consciente todos os derivados do material que foi recalcado. Sob certas condições, esses derivados podem chegar à consciência. A principal condição para que isso ocorra é que esses derivados estejam bastante afastados do material recalcado originalmente, e esse afastamento pode se dar pela adoção de distorções ou disfarces, ou pela inserção de grande quantidade de elos associativos intermediários.

Estamos aqui diante de um dos pilares do pensamento psicanalítico, de enorme importância para se compreender a intervenção clínica. Algo incômodo (um desejo, um pensamento, um sentimento) é retirado da consciência. Permanece inalterado num “compartimento” chamado inconsciente, e de lá produz derivados, que vão aparecer na consciência. Devido ao recalque dos elos associativos, esses derivados parecerão inocentes e sem qualquer relação com algum elemento que perturbe ou incomode. Entre esses derivados estão os sonhos, as parapraxias (atos falhos, lapsos de linguagem), os sintomas neuróticos. Reich coloca entre os derivados do material recalcado também os traços de caráter e elementos da comunicação não-verbal do paciente, ou seja, relacionados à forma de agir e falar.

A partir dessa concepção, percebe-se que a intervenção clínica consiste na arte de, a partir dos derivados visíveis, chegar até o recalcado invisível. É isso que se condensa na máxima de “conscientizar o que é inconsciente”, que norteia o trabalho analítico.

Pode-se compreender aqui o porquê de diversos elementos do setting psicoterápico, que visam ao afrouxamento da censura e, portanto, facilitam a produção de derivados que se aproximem do núcleo recalcado.

Por exemplo, o sigilo profissional, a garantia de que aquilo que for dito não será conhecido por ninguém além do analista, pode ajudar o paciente a exercer menos controle sobre o material produzido. A manutenção de um ambiente constante, que se torna conhecido, gera previsibilidade e atenua o medo do desconhecido. O reforço do vínculo, da transferência positiva, tem como conseqüência a diminuição da desconfiança. O acolhimento do material comunicado sem crítica e sem ataques diminui a sensação de vulnerabilidade do paciente. A posição analítica: estar deitado induz a um relaxamento da musculatura, e as defesas estruturadas enquanto hipertonia muscular (couraça muscular) tendem a diminuir. Tudo isso auxilia na tarefa de trazer à tona o material recalcado. Em outras palavras, estes procedimentos teriam o efeito de diminuir a resistência existente, que protege contra o afloramento do material recalcado. Desta maneira, muitos dos elementos essenciais do setting psicoterápico ou analítico decorrem da necessidade de lidar com o fenômeno da resistência. São estratégias que têm por função mexer no equilíbrio neurótico de maneira a atenuar a barreira colocada pela censura contra a irrupção do material recalcado.

Segundo este ponto de vista, os derivados do material recalcado estão continuamente se infiltrando nos pensamentos, ações, atitudes, hábitos e sentimentos do indivíduo. É como se o sonho funcionasse constantemente, mesmo na vigília, e se infiltrasse nos pensamentos conscientes sem que a pessoa se desse conta disso. A regra fundamental da análise (associação livre de idéias) busca minimizar a influência dos pensamentos e atitudes ligados ao mundo prático, ao aqui e agora; e maximizar a influência dos derivados na comunicação do paciente. No mesmo sentido podemos conceber a determinação de que o analista deve estar fora do campo visual do paciente: isto diminui a importância dada ao aqui e agora da sessão (preocupar-se com as reações do analista), reforçando da atenção aos estímulos internos.

O exemplo mais evidente de distorção ou disfarce é o dos sonhos. Através de uma série de mecanismos de alteração (processo que Freud chamou de elaboração onírica) do conteúdo original (latente) do material recalcado, produz-se o sonho tal como o recordamos (conteúdo manifesto). Ou seja, um enredo freqüentemente fantástico e estranho pode chegar à consciência e, através do trabalho de análise, vamos percorrendo o caminho de volta, eliminando as distorções e disfarces, até chegar ao material recalcado afetivamente significativo. Ao longo da obra de Freud podemos encontrar inúmeros exemplos de interpretação de sonhos onde esse processo acontece (Freud 1900, p. 113-129; Freud 1905 a, p. 61-71; Freud 1918, p. 45-66).

Para exemplificar em relação aos sintomas, podemos tomar o caso do “Homem dos Lobos”. A análise revelou que sua fobia por lobos era basicamente um derivado do medo e da atitude libidinal em relação ao pai: por meio do deslocamento ao longo de uma cadeia de associações (ver adiante a discussão sobre fobias no parágrafo 23). A figura do pai foi substituída pela idéia de lobos, aparecendo assim um sintoma sem qualquer ligação aparente com a vida afetiva real do paciente, um elemento estranho e incompreensível para o observador leigo.

No processo de análise, observa-se que às vezes o paciente vai fazendo associações até ser levado a um pensamento tão obviamente relacionado ao recalcado que ele vê-se compelido a repetir o processo de recalque. Pode surgir ansiedade em graus variáveis, um esquecimento do assunto comentado (o paciente pode relatar que “deu um branco”), ou uma resistência de alguma forma ao trabalho analítico (por exemplo, uma vontade de fumar, e ao longo do ritual de procurar o cigarro e o isqueiro, depois acendê-lo e achar um cinzeiro, ajeitar-se na cadeira ou divã… pronto, esfriou-se o assunto e as defesas estão mais recompostas para barrar o recalcado que tenta emergir). Freqüentemente esse processo de resistência só é detectável através da leitura corporal (de sinais do comportamento, expressão facial ou postura) do paciente, pela atenção ao como ele age. Muitas vezes, o conteúdo do que ele diz é de pouco valor neste sentido, sendo mais reveladora a observação do material evidenciado na forma de se comportar.

Quando é ultrapassada a resistência reativada, muitas vezes ocorre uma alteração súbita do estado de consciência. Conforme Fabio Herrmann, o material recalcado surgindo de volta pode trazer um sentimento de absurdo, “uma séria angústia, uma impressão de se desagregar, de não saber o que é, ou de não ser nada. Muitas representações estranhas rodopiam em sua mente, tentando dar conta do que se está passando, fenômeno a que costumo chamar de vórtice” (Herrmann 1999, p. 37).

Freud fala neste parágrafo, em relação às condições que vão permitir o acesso de determinado material ao consciente, da importância da distância entre o material recalcado original e aquele que a censura permitirá chegar ao consciente. Ou seja, quanto mais elos associativos existirem entre o material recalcado e um dado derivado, mais facilmente se dará seu acesso à consciência. Por exemplo, o ódio a um pai autoritário pode manifestar-se como um derivado de hostilidade em relação a um professor rígido (derivado próximo), ou como uma ideologia democrática antitotalitária (derivado mais longínquo). O mais longínquo terá mais possibilidade de driblar a censura, pelo fato de sua conexão com a fonte original estar mais disfarçada e distorcida. 

Outro aspecto que influi na ação da censura é o grau de distorção do material original. Os sonhos são possivelmente o exemplo maior deste tipo de processo, por meio do qual os elementos recalcados podem aflorar à consciência.

Estes mesmos pressupostos devem estar garantidos no setting de uma psicoterapia corporal. Incluem-se aqui intervenções que permitam o afrouxamento da censura, como certos tipos de relaxamentos e massagens. Também importantes são as abordagens que possam aproveitar como material terapêutico não só aquilo que é utilizado pela psicanálise (associações verbais, sonhos, parapraxias), mas também elementos corporais (o que é observável, as atitudes, os gestos, o como o paciente se comporta). Pois é evidente que os derivados do material inconsciente manifestam-se também no comportamento. Freud observou isto com detalhe nos atos falhos, mas hoje podemos dizer que isso é insuficiente, que foi apenas um começo. Assim como afirmamos que os sonhos de certa maneira se infiltram na vida mental da vigília, podemos do mesmo modo dizer que os atos falhos se infiltram nos gestos e posturas do cotidiano. Enriquece-se assim a amplitude e a abrangência das pistas que poderão nos levar à revelação dos elementos inconscientes. 

3.13 Parágrafo 13 – fetichismo

Não há uma regra geral sobre o quanto de distorção e disfarce, e sobre qual é a quantidade de elos associativos intermediários, que irão permitir a chegada ou não de um dado derivado à consciência. 

Parece haver um delicado equilíbrio, cujo mecanismo não é claro. Pelo que se observa clinicamente, segundo Freud, pode-se deduzir que o fator determinante é a necessidade de colocar um paradeiro ao investimento (catexia) do inconsciente quando ele alcança certa intensidade, pois senão essa intensidade fará com que o inconsciente vença as barreiras e chegue à satisfação.

Em outras palavras, Freud introduz aqui o fator econômico como decisivo no processo de recalque. Se houver um investimento energético suficientemente intenso da pulsão e, portanto, das representações a ela associadas, serão rompidas todas as barreiras e ela chegará à consciência e à ação. Ao longo da história, são muitos os exemplos de a que extremos pode chegar um ser humano impelido pela fome (antropofagia, saques, rebeliões), pela raiva (crimes passionais, mortes em brigas no trânsito), ou por um desejo sexual de grande intensidade (ruptura de barreiras morais, superação do medo de doenças e punições). Por outro lado, um investimento fraco permitirá uma forte ação do recalque, e só derivados muito remotos poderão atingir o consciente.

Ou seja, quanto maior o investimento, a carga, maior será a proximidade entre o recalcado original e o derivado que chega à consciência. Este tipo de concepção dá um fundamento psicodinâmico à utilização de técnicas corporais que trabalham com o aumento da carga de energia e com vitalização. Tal tipo de intervenção como que “põe lenha na fogueira” e faz aumentar o investimento do material recalcado. Como conseqüência, produzem-se derivados em maior quantidade, mais próximos do material original, e mais carregados afetivamente. Isso facilita o trabalho analítico, especialmente nos casos empacados ou travados, onde a defesa está muito mais forte do que a pressão pulsional, e pouco útil e significativo é o material analítico advindo das comunicações do paciente.

O recalque atua de forma individual, específica para cada derivado. Assim, um pouco a mais ou a menos de distorção pode alterar totalmente o resultado.

A partir do exposto acima, pode-se entender porque é tão pequena a distância entre os ideais mais valorizados e as coisas mais abominadas pelos seres humanos. Compare-se um serial killer e um cirurgião: ambos manifestam forte motivação para tirar pedaços do corpo de um outro indivíduo, cortar a pele e a carne, ver correr o sangue das pessoas. A diferença é que num caso isso é viabilizado como algo socialmente adequado através do estudo, da contenção e da correta canalização dos impulsos; e no outro aparece de forma bruta e inadequada. Tome-se o herói de guerra e o suicida: ambos manifestam tendência a desprezar impulsos básicos de autoproteção e sobrevivência. O soldado ou policial aguerrido, valoroso e corajoso; e o psicopata que entra na escola matando crianças a esmo: a fúria assassina é a mesma, cada um canaliza de um jeito. Governantes agressivos, onde um combate com determinação a pobreza e a ignorância até exterminá-las, e outro volta suas ações para o extermínio de alguma raça considerada inferior. Um jovem que ganha de sua amada um delicioso chocolate em forma de coração, embalado em invólucro vermelho cintilante, e o saboreia romanticamente; o psicopata que, num surto, assassina sua namorada e devora o coração real da moça em um ritual satânico.

Freud chama a atenção ainda para o que ocorre na origem do fetiche, onde o representante psíquico da pulsão divide-se em duas partes: uma que é recalcada, sendo a restante idealizada. A questão do fetichismo revela algumas peculiaridades do mecanismo do recalque, e vale a pena examinarmos o tema um pouco mais detalhadamente.

Conforme Fenichel (1981, p. 320), haveria uma “repressão [recalque] parcial, que permite a retenção na consciência de uma pars pro toto, enquanto o totum continua reprimido”. Assim, o fetichismo pressupõe certa cisão do ego. Por isso, segundo ele, pessoas que utilizaram intensivamente o mecanismo de negação têm maior predisposição ao fetichismo.

Segundo Freud (1905 b, p. 154-155),

o objeto sexual normal é substituído por outro que conserva alguma relação com ele mas é inteiramente inadequado para servir ao objetivo sexual normal (…) O que se coloca em lugar do objeto sexual é alguma parte do corpo (tal como o pé ou os cabelos) (…) ou algum objeto inanimado que tenha relação atribuível com a pessoa que ele substitui e, de preferência, com a sexualidade dessa pessoa (por ex. uma peça de vestuário ou de roupa íntima). 

O pé representaria o pênis. Anéis e brincos, sapatos ou chinelos estariam no lugar do genital feminino. Cabelos significariam pelos pubianos. Quase todos os fetiches seriam símbolos de genitais femininos ou masculinos. O fetiche pode estar relacionado a elementos pré-genitais (fezes, urina), e muitas vezes tem grande importância o cheiro, como no caso do Homem dos Ratos. Existem fetichistas sádicos: prazer com castrações simbólicas, como cortar tranças (Fenichel, 1981, p. 321).

Certo grau de fetichismo está presente no amor normal. É comum guardar-se algum objeto ou mecha de cabelos que pertenceu à pessoa amada, para não falar do onipresente fetiche-mor de nossos tempos, que são as fotos na carteira.  A patologia estaria caracterizada apenas quando o anseio pelo fetiche toma o lugar do objetivo normal. Casos de transição ocorrem quando o objeto sexual deve preencher condição: cabelo de certa cor, cor da roupa, algum defeito físico.

O fetichismo é muito mais comum em homens do que mulheres, de acordo com Fenichel. Segundo Freud, “provavelmente a nenhum indivíduo do sexo masculino é poupado o susto da castração à vista de um órgão genital feminino (…) É como se a última impressão antes da estranha e traumática fosse retida como fetiche.” (Freud, 1927, p. 181-2).: pés, pernas, calcinha, pelos púbicos e elementos semelhantes se tornam assim investidos como fetiche. “O fetiche é um substituto do pênis da mulher (da mãe) em que o menininho outrora acreditou” (idem, p. 180).

Conforme Fenichel (1981, p. 319): 

A excitação sexual que experimentou ao ver o pé pode descrever-se da seguinte maneira: ‘A idéia de que há seres humanos sem pênis e de que eu talvez seja um deles não me permite que eu me proporcione excitação sexual. Mas estou vendo, agora, um símbolo de pênis numa mulher, e isso me ajuda a eliminar meu medo, de forma que posso deixar excitar-me sexualmente’. Com isso, só se excitaria ao apreciar o pé de uma mulher.

Uma aversão, que nunca se acha ausente em fetichista algum, aos órgãos  genitais femininos reais, permanece um stigma indelebile da repressão que se efetuou” (Freud, 1927, p. 181). O fetiche “salva o fetichista de se tornar homossexual, dotando as mulheres da característica que as torna toleráveis como objeto sexual” (idem, p. 180).

3.14 Parágrafo 14 – ocasiões especiais de suspensão da censura

Examinemos o que Freud quis dizer na primeira frase com a “outra extremidade do aparelho”. Refere-se ele ao aparelho psíquico, concebido aqui a partir do conflito entre pulsão e defesa. Nos dois parágrafos anteriores discutira-se os efeitos de mudança no pólo pulsional: a) o grau de distorção e a distância (em quantidade de elos associativos) com que uma idéia recalcada teria de ser modificada e disfarçada para poder chegar ao consciente; b) a importância da quantidade de libido que investe cada elemento recalcado como determinante de sua capacidade de ultrapassar ou não a barreira da censura.

Agora Freud vai comentar o que ocorre em certos casos onde se dão mudanças na “outra extremidade”, ou seja, no pólo defensivo. São alterações, chamadas aqui de “técnicas especiais”, que provocam uma mudança no jogo das forças mentais de maneira a fazer com que aquilo que causava desprazer passe a provocar prazer. Sempre que isso ocorre, elimina-se o recalque do representante psíquico da pulsão, e ele pode aparecer na consciência sem disfarce, ou com apenas uma pequena distorção. Em geral, o recalque só é removido temporariamente, voltando a instalar-se imediatamente depois de cessada a situação especial.

Um exemplo é uma situação real observada, onde alguns jovens contavam piadas. Um deles relatou várias, todas com enredos onde a figura principal era um homossexual. O contador parecia caprichar especialmente nos trechos onde era preciso imitar a voz e os trejeitos do personagem. Essa poderia ser (no meu entender) uma condição especial onde ele foi capaz dar vazão à suas próprias tendências homossexuais (pois não era ele de verdade, era apenas a interpretação de uma piada tentando provocar o riso na platéia, segundo a versão socialmente aceita do evento) sem se expor, e sendo agradável para o grupo ao mesmo tempo. Ao fim da piada, reinstalava-se o recalque e ressurgia o pai de família de voz grossa, com jeito de homem, cessando o desmunhecar.

É muito comum também este tipo de situação em brincadeiras. Trata-se aqui das brincadeiras agressivas, humilhantes ou de mau gosto. Daqueles momentos onde se diz “Eu estava só brincando, não me leve a mal”. Este parece ser um salvo-conduto social que permite que se digam coisas muito verdadeiras, sem dano aparente a nenhum dos participantes. Para alguém que conheça e entenda o funcionamento do recalque, muito se pode saber sobre as pessoas e seus relacionamentos a partir das brincadeiras que parecem inocentes, aceitas como tendo apenas passado um pouco do ponto em relação à agressividade. Quando este tipo de comportamento é constante em uma pessoa, em geral associado ao hábito de “aprontar” ou pregar peças nos outros, pode-se ter um vislumbre da quantidade de ódio, inveja e agressão existentes em seu inconsciente. O curioso é que tal tipo de pessoa em geral é vista como “boa gente”, um indivíduo brincalhão e divertido, o que reforça a idéia de eficácia social deste tipo de situação especial mencionada por Freud.

Ainda outra situação deste tipo é o faz de conta, onde “só fingimos” algo. Quando se dramatiza algo, muitas vezes se consegue burlar a censura, já que “não é de verdade”, e este é um recurso clínico que facilita muitas vezes o surgimento do recalcado. Os psicodramatistas parecem fazer bom uso disso.

Muitas vezes também cantar uma música, ou declamar um poema, podem ser ocasiões desse tipo, onde se extravasam verdades que em outro contexto seriam proibidas e condenadas. Por exemplo, existem pessoas que sentem um grande prazer em cantar músicas tristes, tipo “dor de cotovelo”, que falam da dor de uma separação ou da ausência da pessoa amada. Outros adoram cantar músicas onde se expressa uma sexualidade sem rodeios, como é muito comum hoje em dia (tipo “vai mexendo a bundinha, vai, vai”). Não é difícil perceber que podem ser expressos dessa forma elementos que não surgiriam normalmente, que estariam presos no inconsciente, barrados pela censura, se não existissem essas “técnicas especiais” socialmente permitidas.

3.15 Parágrafo 15 – o contra-investimento contínuo

O recalque, além de ser individual (específico para cada derivado), tem também extrema mobilidade. O processo de recalque não é algo que acontece uma vez e tem efeito permanente, como ocorre ao matar um ser vivo.

O recalque é um processo contínuo e constante, que exige um gasto permanente de energia. Se faltar essa força ao recalque, o seu êxito em bloquear o acesso à consciência correrá perigo.

O material recalcado exerce pressão contínua em direção à consciência, e esta tem de ser equilibrada por uma contrapressão incessante. Mais uma vez, fica evidenciada a importância do ponto de vista econômico na compreensão do mecanismo do recalque. Como argumenta Freud (1915 c, p. 207-208), o fato de uma idéia permanecer ativa no inconsciente, com capacidade de produzir efeitos, denota que ela conservou seu investimento (catexia). Este investimento deveria fazer com que a idéia associada a ele renovasse constantemente a tentativa de penetrar no sistema Pcs. Portanto, deduz ele, a manutenção do recalque só seria possível mediante a suposição de um contra-investimento (contracatexia) permanente.

Podemos fazer uso de uma analogia: alguém está segurando uma caixa de isopor embaixo d’água, sendo preciso exercer uma força adequada e contínua para manter o isopor submerso. Se essa força diminuir, a caixa subirá espontaneamente. Do mesmo modo, a pulsão tende à superfície. Segundo Freud, isso é o que ocorre nos sonhos, onde o afrouxamento da censura pelo sono permite que algum material inconsciente (disfarçado) chegue à consciência.

Podemos estender esta analogia para possibilitar a compreensão de como o rendimento e o desempenho na vida profissional e afetiva podem ser afetados pela existência de material recalcado importante. Imaginemos nosso “segurador de isopor” numa piscina aonde a água lhe chega até a altura do diafragma. Suponhamos que há uma turma que propõe jogar vôlei aquático. Certamente nosso personagem terá seu desempenho prejudicado por não poder dispor livremente das duas mãos. Será um mau jogador, provavelmente não se destacará como o mais brilhante. Isso é muito comum na vida profissional. Ocorre o mesmo nos estudos, nos casos em que a energia psíquica disponível está em grande parte consumida na contenção do material recalcado. Para comparar com a vida afetiva, imaginemos que o nosso personagem está agora paquerando uma garota, e está na fase dos beijos e abraços. Algo sairá estranho se ele tiver sempre uma mão ocupada em segurar o isopor, e sua atenção não estará plenamente engajada no encontro amoroso, pela necessidade de cuidar para a caixa não subir. Novamente, é claro que ele não será o melhor dos amantes.

Radicalizando a situação, imaginemos que a caixa de isopor está fazendo tanta pressão para subir que é preciso segurá-la com ambas as mãos. Que prejuízo para o desempenho! Toda a energia estará voltada para a obtenção do equilíbrio interno, pouco sobrando para as tarefas externas. No outro extremo, uma caixa que exerça muito pouca pressão permitirá que seja deixada no fundo enquanto o indivíduo abraça, joga ou nada, podendo depois voltar a tempo de impedi-la de chegar à tona. Essa é a marca da tranqüilidade, da segurança, da espontaneidade.

Isso que foi descrito acima tem implicações importantes. Uma é a questão do trabalho sobre as resistências, e permite compreender porque o material aparece quando estas são eliminadas. O recalcado não é como um peixe fugidio que precisa ser pescado com grande habilidade. Parece-se mais com um peixe que quer pular para o barco e não consegue porque alguma barreira o impede.

Reich afirma, no mesmo sentido, que “os desejos e medos inconscientes e recalcados estão sempre procurando se liberar, ou, mais precisamente, buscando contato com pessoas e situações reais. A força propulsora mais importante desse comportamento é a libido insatisfeita” (Reich 1995, p. 18). Comenta ele a importância disto para a técnica analítica, já que a associação livre de idéias encontraria “poderoso apoio na força dos impulsos e desejos inconscientes que pressionam em direção à ação e à consciência” (idem).

Nas palavras de Gerda Boyesen: “era fascinante ver a dinâmica começar por si mesma, das profundezas do corpo e provocar a expansão”, e esta “expansão da energia no organismo invertia o recalque, a contração, também no nível psicológico” (Boyesen, 1986, p. 39).

Esta parece ser a fundamentação teórica para a regra fundamental da psicanálise. Seria de pouco valor propor ao analisando que associe livremente se não acreditássemos que há alguma força conectada ao material recalcado, pressionando-o em direção à consciência. Como o representante pulsional recalcado está investido, qualquer diminuição do contra-investimento reduzirá o poder da barreira da censura, com conseqüente irrupção dos representantes da pulsão no campo da consciência. Por outro lado, este modo de funcionamento psíquico fala contra qualquer forma de intervencionismo do analista ou psicoterapeuta, dado que isto interferiria com o surgimento espontâneo do material recalcado.

Esta concepção pode fundamentar também a postura de trabalhar a partir do estímulo interno, daquilo que Clover Southwell (1983) chama de pressão organísmica interna. Em termos psicodinâmicos, existe uma “pressão organísmica interna” porque o material recalcado continua vinculado à energia pulsional que é continuamente produzida no interior do organismo. Assim, essa carga gera uma pressão, que faz com que o material inconsciente seja como que empurrado em direção à consciência e à ação. Se o psicoterapeuta consegue facilitar esse caminho de acesso, a pressão pulsional fará com que o material recalcado venha à tona quase que espontaneamente, conscientizando o inconsciente a partir do próprio impulso do inconsciente para atingir a consciência. Conforme descreve Southwell (1983, p. 17-18),

Eu logo começava a perceber que realmente havia pequenos impulsos em mim, tentando se expressar, ‘empurrando lá de dentro’. Algumas palavras pressionando para serem ditas, mas que haviam sido retidas como muito triviais, vergonhosas, irrelevantes. Algumas lembranças embaçadas pressionando para serem reconhecidas, para se cristalizarem. Algumas emoções mantidas por tanto tempo sem mobilidade em meu corpo e que agora pressionavam claramente pára se movimentarem – para terem emoção – à medida que meu queixo ou meu diafragma começavam a doer pelo esforço de contenção. Ou alguns pequenos impulsos pressionando para que meus membros se movessem mas que eu sempre havia ignorado, amortecido … até que agora eu reconhecia a solicitação de minhas pernas para se estenderem, ou percebia meu dedinho começando a se contorcer. E quando algum destes impulsos ‘empurrando lá de dentro’ é reconhecido, admitido e encorajado a se expressar mais totalmente, pode rapidamente se transformar em grandes ondas de material há muito suprimido, que levam a poderosos insights e manifestações emocionais.

Podemos ver aqui que a regra básica de associação livre de idéias é complementada de maneira bastante natural por uma “associação livre de movimentos”. Acredito que não há traição à idéia original de Freud quando se introduz a possibilidade de que este material surja não apenas em termos verbais, mas também na motricidade e na expressão não-verbal do paciente. 

Este aspecto da teoria freudiana do recalque permite também uma conexão com o conceito reichiano de auto-regulação. A disposição do aparelho psíquico aqui descrita traz como conseqüência intrínseca a existência dessa pressão do recalcado, que pode ser vista como uma tendência natural para o equilíbrio, a autocura e o autoconhecimento.

Existem autores que, partindo dessa tendência da pulsão para extinguir-se, querem enxergar nisso uma manifestação da pulsão de morte. Assoun (1983, p. 208), em sua discussão da epistemologia freudiana, expressa isto dizendo que “toda pulsão, enquanto pulsão, é pulsão de morte”. Acredito que o correto é exatamente o oposto. A fonte orgânica da pulsão gera uma excitação quando se detecta alguma alteração no ambiente ou no meio interno que pudesse representar ameaça à sobrevivência.

Por exemplo, percebe-se no ambiente que alguém faz alguma coisa que pode frustrar a realização de um desejo (a mãe proíbe de comer sobremesa, a namorada recusa-se a fazer amor). Isso gera um impulso agressivo, que irrompe como uma certa quantidade de excitação emocional e representações que visam eliminar esse obstáculo para que a vida possa triunfar (nas situações citadas, comida para a sobrevivência do indivíduo, sexo para a sobrevivência da espécie).

Em relação ao meio interno, podemos examinar o exemplo da fome. Receptores orgânicos detectam uma queda do nível de glicose no sangue e desencadeia-se uma pulsão de fome que, se tudo correr bem, resultará numa ação que trará a glicose sanguínea a um patamar adequado.

A pulsão assim torna-se mais forte quando há uma perturbação da vida, ou uma ameaça a ela. Por outro lado, tenderá a extinguir-se quando a vida está garantida em todas as frentes. É por exemplo o estado beatífico de quando estamos bem alimentados, fizemos amor de modo satisfatório, estamos sem frio, sem calor, sem sede, sem vontade de ir ao banheiro. Pode-se desfrutar dessa tranqüilidade “não-pulsional” porque a matéria viva está plenamente assegurada. Este estado de “nirvana” não tem nada a ver com a morte, e sim com a mais plena manutenção da vida. É como se algo no organismo dissesse à consciência: “Estou te proporcionando o prazer do nada fazer, do dolce far niente porque a vida está plenamente assegurada e garantida; e é bom para o seu organismo que você repouse e poupe energia para quando se fizer necessário”.

Nesse sentido, poderíamos inverter a formulação de Assoun, dizendo que toda pulsão, enquanto pulsão, é sempre pulsão de vida.

Outra conseqüência importante é que o processo de recalque implica num consumo de energia, que pode ser importante conforme a extensão e a abrangência do recalcado. Há uma energia pulsional que não pode ser utilizada por estar recalcada, e há uma energia utilizada pela instância recalcadora para dar conta desta tarefa. Quando se libera o recalque, ambas as energias tornam-se disponíveis para o indivíduo e podem ser utilizadas no cotidiano, aumentando suas capacidades e melhorando seu desempenho.  

Isso torna um pouco mais complexa nossa analogia do isopor. Seria como se o isopor estivesse todo lambuzado de fezes, feio e fedido, e por isso não deve ser visto pelo público. Mas, se ele puder vir à superfície e ser limpo, talvez descubramos em seu interior algumas jóias de grande valor. Ou seja, depois de um processo de depuração, não só estamos com as mãos livres, mas também tomamos posse de algo valioso. Como vemos muitas vezes em psicoterapia, aquilo que o paciente imagina ser o seu lixo mais abominável, muitas vezes acaba se revelando como seu tesouro mais precioso.

Alguns exemplos clínicos talvez ilustrem melhor as afirmações acima. Examinemos dois pacientes, ambos com agressão inibida.

Um por achar que represava ódio demais, e temia sair batendo, machucando e até matando pessoas. Outro por temer represálias: tinha fantasias de que seria punido de alguma forma, com algum acidente, doença, perda de dinheiro. No fundo, diferentes formas de ansiedade de castração. Ambos recalcavam sentimentos hostis e eram muito “bonzinhos” no trato com as pessoas, mesmo quando a situação externa requeria uma atitude diferente. Ambos quase incapazes de brigar, até mesmo com incapacidade de sentir raiva, a ponto de serem abusados e feitos de bobo em diversas relações pessoais e profissionais.

Os dois apresentavam sinais de resistência, claros e fortes, quando a conversa ou algum trabalho expressivo os aproximava do contato com seus próprios sentimentos agressivos. Desnecessário dizer que essa agressividade saía de diversas maneiras disfarçadas (derivados), e eles de alguma maneira hostilizavam e mesmo torturavam pessoas de suas relações (de uma forma não declarada, mas evidente a um exame mais detalhado), através do seu jeito de ser e por diversas atitudes, sempre mantendo a aparência de cordatos, bonzinhos e até meio bobos. Havia, por exemplo, em um dos casos, uma agressão à parceira manifestando pouco interesse sexual por ela. No outro caso, manifestava-se, entre outras formas, numa atitude constante e intensa de crítica e desprezo pela opinião das pessoas, especialmente aquelas que representassem algum tipo de autoridade. Esse disfarce funciona inclusive (e talvez até principalmente) para si mesmos, pois a pessoa que sofre a agressão de alguma maneira percebe, denuncia e reage. É uma cena cotidiana em relações de casal e entre pais e filhos, esta de uma pessoa julgar-se boazinha e até mesmo vítima, enquanto que os demais reagem agressivamente contra ela – podemos supor que a pessoa não é tão “boazinha”, agredindo de forma velada os demais, provocando-os sutilmente até que eles agridam de volta.

Ao longo de seu processo psicoterápico, ambos acabam trazendo à consciência o ódio intenso relacionado a situações infantis recalcadas. Houve grande melhora no âmbito profissional e das relações afetivas, e hoje ambos consideram sua capacidade de reagir agressivamente como um tesouro precioso, arduamente conquistado, um instrumento valioso ao navegar por esse mar hostil, que é como muitas vezes a vida se nos apresenta.

A mobilidade do recalque também se evidencia na formação dos sonhos. O estado de sono muda a correlação de forças no aparelho psíquico, e o recalque perde força, propiciando assim o surgimento de derivados do material recalcado que percebemos como sonhos. Com o retorno à vigília, tudo volta à situação original.

Aqui encontramos outra possível conexão com o pensamento reichiano. Maria Mello Azevedo (1990), em seu artigo sobre sonhos, ressalta que o estado em que sonhamos (o chamado sono REM) é caracterizado por intenso relaxamento muscular. A partir disso, ela levanta a hipótese de que este seria um dos fatores decisivos para o correlato  relaxamento da censura. Em outras palavras, seria o afrouxamento da couraça muscular, produzindo tal alteração na dinâmica das forças mentais, que propiciaria o aparecimento dos sonhos.

Outra conseqüência importante da noção de existirem contra-investimentos é a apontada por Reich. Segundo ele, existem 

contra-investimentos psíquicos contra a eclosão de impulsos recalcados inconscientes, contra-investimentos que atuam como um censor rígido dos próprios pensamentos e desejos do indivíduo, impedindo-os de se tornarem conscientes (…) no tratamento analítico, essas forças apresentam-se como ‘resistências’ à eliminação do recalque. Esta compreensão teórica dita uma regra básica posterior: tornar consciente o inconsciente não deve ser feito diretamente e, sim, pela quebra de resistências. (Reich 1995, p. 18).

O fenômeno da resistência é algo muito curioso e muito peculiar no campo da psicoterapia. Esse conceito descreve o fato de freqüentemente os pacientes dificultarem o trabalho do psicoterapeuta, opondo-se a ele de forma declarada ou dissimulada.

As pessoas resistem chegando atrasadas ou faltando às sessões, negando-se a falar dos assuntos que realmente importam, não revelando sentimentos negativos em relação ao psicoterapeuta. 

É algo muito curioso, pois a pessoa está investindo tempo e dinheiro para se tratar (em geral um bom tanto de ambos), e não colabora, aumentando o custo e retardando a cura. É como se a pessoa fosse ao dentista e não abrisse a boca, o dentista tendo que dispender um grande esforço para fazer o paciente mostrar-lhe os dentes. Só para logo depois fechar a boca novamente, e assim sucessivamente ao longo do tratamento. De modo que o dentista só pudesse realmente tratar os dentes alguns poucos minutos em cada hora de trabalho. Isso quando não acontecesse de o paciente ficar o tempo todo de boca fechada. Mais estranho seria se o paciente mordesse o dedo do dentista ou ficasse chutando suas pernas enquanto ele tenta trabalhar. Em psicoterapia é muito comum que nossos pacientes não abram a boca (para dizer coisas importantes e significativas), e simbolicamente nos mordam ou chutem (a chamada transferência negativa que se manifesta como desconfiança, vergonha, desprezo, medo de ser manipulado, ou até mesmo por meio de ataques diretos ao analista).

Podemos imaginar igualmente alguém que vai ao arquiteto para fazer uma casa, e não lhe conta que tipo de casa quer e como é a topografia do terreno. Talvez por vergonha dos seus desejos, ou medo de descobrir algo sobre si mesmo nesse relato. As informações vão vindo aos poucos, de forma distorcida ou disfarçada, e o arquiteto, ao lado de ter que saber como desenhar uma casa apropriada, tem que desenvolver o talento de saber lidar com seu cliente para que ele revele o que tem de informar, e ainda aprender a decifrar as comunicações incompletas ou distorcidas que chegam a ele.

Ou poderia ser também o advogado que tem de defender seu cliente num processo, e este lhe sonega informações, não comparece às audiências, rasura e falsifica documentos.

Seria um mundo de doidos, não? Pois é, o nosso mundo da psicoterapia é exatamente assim. Exige-se do psicoterapeuta essa habilidade fundamental que é enxergar as diversas formas de resistência e saber lidar com elas de forma adequada.

É um tema privilegiado por Reich na sua teoria da técnica psicanalítica , e foi isso que levou-o a formular sua proposta de análise do caráter, apresentada como um desdobramento e um aperfeiçoamento da técnica de análise das resistências de Freud. Reich apontou a importância de lidar não apenas com as resistências declaradas, mas também com as resistências ocultas ou latentes.

Gerda Boyesen também privilegia a questão de saber lidar com as resistências, enfatizando a importância de fazer amizade com a resistência no processo psicoterápico biodinâmico. Em primeiro lugar, como já mencionado, um setting que afrouxe as resistências: “o paciente se sente em tal segurança, que ele não tem mais necessidade de suas defesas. Estas se dissolvem então e as emoções recalcadas retornam à consciência e podem ser ab-reagidas.” (Boyesen, 1986, p. 105). Quando ainda restam resistências, “o terapeuta não deve em caso algum tentar forçar a resistência, é conveniente, ao contrário, seduzir a resistência, respeitando-a” (idem). Segundo ela, o psicoterapeuta deve ser como a serpente no paraíso da neurose, convencendo o paciente a provar do fruto do conhecimento da realidade. Isto se deve não apenas à intenção de ser acolhedor e respeitoso, mas principalmente pelo fato de isto evitar o que ela chama de couraça secundária (ver discussão no parágrafo seguinte).

 

3.16 Parágrafo 16 – enfraquecendo o detestável

Neste parágrafo, Freud volta ao tema da relação entre o recalque e a quantidade de energia investida no material recalcado, aprofundando a questão em diversos aspectos clinicamente importantes. 

Segundo ele, o grau de investimento de energia mental relativo a uma determinada moção pulsional terá grande influência no destino que essa moção pulsional terá. Para elementos não recalcados do inconsciente, o seu destino dependerá basicamente do grau de investimento: se for muito baixo, permanecerá inconsciente. Se estiver mais ativado, colocará “em movimento todos os processos que terminam na penetração do impulso na consciência” (Freud, 1915 b, p.175).

Podemos exemplificar isso voltando ao exemplo da fome. Um pequeno déficit de glicose no sangue pode talvez provocar uma “fome mínima”, um pequeno desconforto físico e mental cujo motivo não chega à consciência. Pode haver uma irritabilidade um pouco aumentada, alguma alteração nos reflexos, alguma sensação vaga de que o conforto não é total, mas sem que esteja presente na consciência o pensamento “estou com fome”. Um pouco mais de investimento e aumenta a pressão da pulsão de fome, surge o pensamento “acho que começo a ter fome” ou “estou começando a ter uma certa fome”, para ser logo deixado de lado em favor de algo que chame mais a atenção: uma conversa, um trabalho, uma paquera. Talvez surja vagamente a imagem de uma pizza, um chocolate, a difusa memória de um gosto de comida na boca. As palavras (representação de palavra) e as memórias sensoriais (imagens, cheiros etc., as denominadas representações de coisa) são o que chamamos de representantes da pulsão. Num terceiro estágio, o desejo e as imagens vão se tornando mais e mais impositivos, e o seu investimento libidinal faz com que não seja tão fácil pensar em outra coisa. Há a consideração da ação, um início de planejamento de como atender à fome que vai se fazendo clara e intensa. “O que vou comer? Aonde comer? Por que essa aula não termina logo? Queria que chegasse logo a hora de comer”. Ou seja, as representações que representam a pulsão estão fortemente investidas e prestes a tomar conta do aparelho locomotor para a obtenção de suas metas. Num quarto estágio, a sensação de fome, os pensamentos sobre comida e a ação voltada para isso são o centro da vida consciente. Assaltamos a geladeira ou vamos preparar comida, se estamos em casa e se somos adultos. Uma criança infernizará a mãe exigindo alimento. Fora de casa, iremos (o sistema locomotor em ação) a um restaurante ou lanchonete e pediremos comida. 

Num hipotético e extremado quinto estágio, ao qual só se chega quando existem fortes obstáculos internos ou externos à ação de alimentar-se, a pressão da pulsão pode chegar a um grau pleno de investimento, com os representantes psíquicos da pulsão ocupando quase que totalmente o centro da consciência e torna-se imperativo o impulso à ação, a busca do alimento que satisfaça a fome, mesmo que existam forças importantes contrárias a isso (por exemplo, a resolução de dieta de um obeso, o medo da punição por roubar comida).

Em relação aos derivados do inconsciente passíveis de censura, Freud afirma que, se o investimento for inexistente ou mínimo, o aparelho psíquico em geral não lança mão do recalque. Não haveria necessidade, pois sem a carga e, portanto, sem pressão pulsional, tais derivados não vão chegar à consciência e não constituirão ameaça.

Porém, se o impulso ganha força, o conflito torna-se real, e essa ativação leva à utilização do recalque ou outro mecanismo de defesa. Encontramos aqui a base da idéia reichiana da estase energética como fonte da neurose. Segundo Reich, o organismo plenamente gratificado a nível genital (a chamada potência orgástica) estaria sem represamento ou estase de energia e, portanto, a fonte de excitação que poderia prover energia aos sintomas neuróticos estaria seca. Em outras palavras, a pulsão sexual, expressando-se livre e plenamente na genitalidade, sem obstáculos importantes, consumiria a energia represada, e os elementos recalcados, estando desinvestidos de energia psíquica, não apresentariam mais um poder patogênico. 

O aumento de investimento libidinal de um impulso recalcado vai fazer com que aumente a pressão em direção à consciência e à ação, e essa pressão vai fazer com que surjam derivados indiretos em maior quantidade, com maior carga emocional e mais próximos do recalcado original.

Vemos novamente uma concepção que pode embasar a utilização de técnicas de aumento da carga. Porém aqui já temos elementos para avançar mais um passo em nossas concepções clínicas. Como Freud aponta, a ativação do material recalcado pode produzir material analítico em maior quantidade e de maior utilidade clínica. Mas aponta também para o fato de essa ativação do recalcado levar muitas vezes também a uma ativação compensatória do recalque. Em outras palavras, a conseqüência do fortalecimento da pulsão pode ser simplesmente uma ativação ainda maior da defesa.

Esta é uma situação à qual Gerda Boyesen deu grande atenção, chamando-a couraça secundária. Segundo ela, couraça secundária seria a couraça (ou, mais genericamente, a defesa) provocada pela psicoterapia mal conduzida. Assim, à defesa (ou couraça) já produzida pela própria vida do paciente, viria se sobrepor uma nova defesa (ou uma nova camada de defesa, mais propriamente) provocada pela intervenção terapêutica inadequada. Dessa maneira, o paciente sairia pior do que entrou, mais defendido, mais retraído e/ou hostil em relação às intervenções psicoterápicas.

Conforme Samson (1994), a couraça secundária 

se define como uma defesa recém-formada, em conseqüência de uma invasão do sistema defensivo e exposição precoce do material inconsciente reprimido. Sendo precoce, a exposição provoca uma reação de contração posterior ao primeiro suspiro de alívio, levando à formação de uma nova defesa, mais complexa e menos aparente, que recebe o nome de secundária porque protege contra a mais recente invasora do material reprimido: a terapia. (p. 44). A função do terapeuta é de acompanhar o paciente até o ponto de ansiedade onde o sistema de defesa é ativado, e neste ponto de passagem deverá permanecer continente e deixar que a opção seja do ego do paciente (…) se o paciente não possuir base suficiente para a formação de uma defesa secundária ele corre o risco de um surto psicótico (…) o sistema de defesa só deve ser aberto quando houver condição de sustentação do material reprimido pelo ego. (p. 45).

Um exemplo seria o de intervenções onde se provoca uma carga excessiva e acima do assimilável por meio de exercícios e técnicas de mobilização. Muitas vezes há a irrupção de material recalcado com forte carga emocional, mas o efeito posterior pode ser negativo, com elevação da ansiedade e sintomas mentais e psicossomáticos. Tipicamente isso se acompanha por um abandono da psicoterapia ou pela opção de continuar o trabalho psicoterápico a partir de uma posição mais defendida, onde os conteúdos recalcados estão mais protegidos e defendidos do psicoterapeuta e suas técnicas.

Isso não acontece apenas na psicoterapia corporal. Não raro acontece de eu receber pacientes que já tentaram fazer psicanálise, e ficaram hostis a ela devido ao contato com um setting excessivamente rígido e inadequado para o momento psíquico específico desses pacientes. Dizem em geral algo como: “Fui lá, e o cara me colocou deitada, olhando para o teto, sem falar nada. Eu não sabia o que dizer, perguntava e ele não respondia. Foi me vindo uma aflição, foi ficando incômodo, eu não sabia o que fazer. Deus me livre! Foi uma experiência muito ruim. Daí voltei noutra sessão e foi a mesma coisa, o cara disse que era assim mesmo, que mexia com a ansiedade e isso era bom. Sei lá, esses ‘psicólogos’ são todos loucos. Eu hein! Essa conversa não dá pra mim não. Eu fui umas vezes e parei, nunca mais volto num troço desses. Você não trabalha assim, né?”

Ou seja, a situação analítica possui um elemento ansiógeno, o mesmo valendo para qualquer outra forma de psicoterapia. Afinal, está mais ou menos claro que se irá voltar a atenção a temas dolorosos e conflitivos. Num certo grau essa ansiedade e outras formas de aumento da pressão pulsional podem ser úteis, mas além de um certo ponto podem ter efeito contrário, devido à ativação da defesa. Conforme Freud (1926) afirmou, o sinal de angústia teria como função mobilizar os mecanismos de defesa, e isto pode ter um efeito negativo para o processo analítico.

Lançaremos mão de uma nova analogia aqui. Imaginemos um sujeito que está preso em uma casa. Do lado de fora estão feras perigosas, mas também muitas coisas desejáveis. Essa pessoa me contrata para ajudá-lo a sair da prisão e conquistar as coisas desejáveis, mas de um modo que não seja ele devorado pelas feras.

Se eu for um terapeuta intempestivo, excitarei as feras de várias maneiras, e farei com que elas derrubem uma das paredes da casa. Estaria imaginando que o problema dele são as feras, e trazendo-as para dentro da casa ele poderá, com a minha ajuda, lidar com elas, eliminando-as ou domesticando-as. Assim estaria resolvido o problema. Pode acontecer que dê tudo certo, pois ele só precisava mesmo de um pequeno empurrão para tomar esta atitude. Porém o mais provável é que o indivíduo fique assustado, reconstruindo essa parede rapidamente, e fazendo ainda um reforço não só nessa parede como em todas as outras da casa. Se continuarmos nesse processo, não demorará para que a casa se torne uma fortaleza, um verdadeiro bunker. Isso se ele não me dispensar em algum momento.

Um psicoterapeuta biodinâmico, consciente da importância de fazer amizade com a resistência, poderia propor algo como fazer um pequeno buraco na parede, que seja pequeno o suficiente para não deixar as feras entrarem, mas que nos permita olhá-las. Podemos fazer vários desses buracos para ter uma visão de todos os ângulos. Observaremos as feras, estudaremos seus hábitos. Talvez descubramos que em uma certa hora, todos os dias, elas estão dormindo, ou saíram para caçar. Pensaremos aí em construir uma porta, algo que possa se abrir e se fechar segundo o comando do meu paciente. E quando as feras dormem, ele pode sair e pegar alguns tesouros e outras coisas desejáveis. Posteriormente, pode ser que vislumbremos a possibilidade de domesticar algumas das feras. Damos alimento a elas, vamos nos chegando, e… conseguimos! Essa fera não só não representará perigo, como nos fará companhia e nos ajudará na defesa contra as demais feras. Se tudo correr bem, ao final de um certo tempo ele poderá circular livremente pelo território e pegar o que quiser, as feras estarão domesticadas ou expulsas do lugar. Sua casa terá amplas portas e janelas e poderá defendê-lo do clima e de ataques sem constituir uma prisão.

Conforme o dito popular, “vou devagar porque tenho pressa”. Gerda Boyesen sempre insiste, em seus textos e cursos, no ensinamento de que “pouco é muito” (a little is a lot), e neste parágrafo de Freud e nesta discussão encontramos a fundamentação psicodinâmica desse jeito de pensar e agir clinicamente. Tudo depende do quanto o paciente é capaz de assimilar. Se o material trazido à consciência é suficiente para provocar um desafio, mas não chegou ao ponto de ultrapassar a capacidade de assimilação do ego, há um progresso. Entretanto, se o estímulo ou desafio ultrapassa em quantidade ou qualidade aquilo que é assimilável, o efeito pode ser inverso, com aumento das defesas e das reações neuróticas

Deve-se lembrar que há uma grande diferença entre o estado defendido habitual (encouraçado, no linguajar reichiano) e aquele em que essas barreiras estão suspensas. Neste segundo estado, a pessoa está como que em “carne viva”, e mesmo coisas mínimas podem produzir grande impacto. Neste sentido, Boyesen (1986, p. 138) afirma que 

o terapeuta biodinâmico sabe reconhecer o fluxo libidinal e sabe como não destruí-lo. Quando o paciente, que se escondeu por trás de inúmeras máscaras ao longo de toda sua existência, se abre completamente de repente, é preciso protegê-lo inteiramente, e jamais atacá-lo. Para que o fluxo do isto possa verdadeiramente investir  os níveis do eu, convém que o terapeuta suporte, sustente o paciente em todas as suas tentativas, até que ele descubra sua própria segurança interior.

Em outras palavras, a proposta de fazer amizade com a resistência é uma decorrência inevitável de se adotar uma concepção psicodinâmica, e constitui um imperativo clínico necessário para se chegar a um bom resultado no processo psicoterápico ou analítico. Não fazemos amizade com a resistência porque somos “bonzinhos”, ou suaves, ou gentis. Fazemos amizade com a resistência porque sem isso correremos um risco sério de atrapalhar mais do que ajudar, de piorar e criar mais barreiras onde deveríamos dissolvê-las e suavizá-las. Acredito que esta inovação trazida por Gerda Boyesen é uma das mais importantes de suas contribuições teóricas e técnicas ao campo da psicoterapia.

Gosto de pensar na defesa psíquica como um anjo da guarda que protege contra a dor, a angústia e a loucura. Ele só abrirá mão de seu papel de forma voluntária, “por bem”, se estiver seguro que aquilo será benéfico para o seu protegido. Se tentarmos esmagar ou derrotar este “anjo”, usando a força bruta das interpretações analíticas ou dos exercícios que quebram defesas, ele reagirá de todas as formas possíveis contra o “mal” que se tenta fazer ao paciente.

Outra imagem que julgo útil é pensar na defesa como o freio de um carro. Claro que um carro com o freio de mão puxado anda mais devagar e com mais dificuldade. Mas é melhor que não ter freio de modo algum, pois isso torna difícil a sua condução e há grande risco de atropelar alguém ou bater num poste. Do mesmo modo, um paciente com pouca ou nenhuma defesa (caso da psicose) terá uma vida conturbada e cheia de “desastres”. Já o neurótico cronicamente freado andará mais devagar, mas poderá proteger-se do desequilíbrio causado pelos estímulos da vida, incluindo uma psicoterapia inadequada, invasiva ou intempestiva demais.

Outro tópico de grande importância abordado neste parágrafo é relativo à concepção de que um aumento da carga (investimento) atua de modo semelhante a uma ativação do inconsciente, e uma diminuição da carga atua em sentido contrário. Freud afirma que “as tendências recalcadoras podem encontrar um substituto para o recalque num enfraquecimento do que é detestável” (p.175).

Este enunciado tem muito a ver com questões importantes da psicoterapia corporal.

Em primeiro lugar, é interessante notar que é comum verificarmos uma certa diminuição da energia vital geral nos neuróticos. Essa diminuição se evidencia bem quando acompanhamos uma pessoa ao longo de uma psicoterapia bem sucedida, onde observamos um aumento evidente da vitalidade e vivacidade, com grande melhoria na capacidade de realizar mais e melhores coisas.

Parece, assim, que um dos recursos básicos das instâncias recalcadoras é a diminuição da vitalidade geral do organismo. Um dos meios dos quais o organismo lança mão para isso, e que é da maior importância clínica, é a inibição respiratória. Muito se tem escrito sobre o papel da inibição respiratória na desvitalização do organismo e no bloqueio emocional (Gaiarsa 1987 e 1994; Gama e Rego 1996; Keleman 1992; Lowen 1985), e aqui encontramos uma afirmação de Freud  onde isso pode ser compreendido psicodinamicamente.

Fica mais uma vez clara a importância de técnicas vitalizantes e mobilizadoras. Pode-se trabalhar com técnicas gerais, ou seja, que mexem com a energia global do organismo como um todo. Entre estas possibilidades temos a massagem orgonômica, trabalhos sobre a respiração, exercício da medusa (jellyfish), entre outros. Uma outra possibilidade é trabalhar com a ativação de regiões específicas do corpo, como a massagem hipotônica, o grounding e outros exercícios desenvolvidos por Lowen e Navarro.

No aspecto simbólico, podemos produzir uma ativação do pólo pulsional por meio, por exemplo, de trabalhos com imaginação. As imagens geradas pelo paciente podem trazer aproximações com o material inconsciente, ativando-o e aumentando seu investimento libidinal. Existem muitas propostas de atuar em psicoterapia que utilizam este recurso, e a hipótese que aqui apresento pode ser uma explicação de sua efetividade. 

Uma das maneiras adequadas de lidarmos com técnicas de vitalização é “cozinhar em fogo brando”. Certos psicoterapeutas corporais têm uma tendência a privilegiar trabalhos corporais intensivos, com grandes explosões emocionais, às quais se atribui poder catártico. São muito apreciadas as ab-reações violentas, e há o contentamento profissional de ter “desentupido o encanamento”. Nesse raciocínio, o bloqueio é visto como algo estático, uma sujeira que se acumula e que, uma vez retirada, não atrapalhará mais o livre fluxo de energia, desejos e tudo mais que possa vir do inconsciente.

Segundo a visão freudiana aqui exposta (que é também a visão biodinâmica), nada mais equivocado. A barreira, a defesa, cumpre uma função psicodinâmica fundamental para manter o equilíbrio (neurótico). Ela é dinâmica, reconstruída a cada momento, e se for retirada por qualquer motivo, a tendência é que se refaça assim que possível. Não adianta só desentupir, é preciso alterar o jogo de forças que levou ao entupimento.

Podemos imaginar, numa analogia útil, que há um menino que não gosta de tomar banho, e isso é tão forte que ele se dá ao trabalho de subir pelo telhado até a caixa d’água, e jogar dentro dela algum tipo de sujeira que faça entupir o encanamento. Assim faltará água e ele não terá de tomar banho.

Aí a família chama o encanador, ele descobre o entupimento, remove-o, e a água volta a correr. O menino joga novamente os detritos. O encanador é chamado mais uma vez, e faz novo conserto. Lá pela quarta ou quinta vez, o encanador sugere uma reforma hidráulica, com a colocação de canos mais largos. Isso obrigará o menino a mudar o tipo de sujeira utilizada. Ele, talvez, no seu desespero, use cimento para entupir de uma vez ou estoure a caixa d’água ou, quem sabe, chegue até a assassinar o encanador.

Parece estranho, mas vamos ver o que acontece se trocarmos os papéis, colocando a família e a casa como o paciente, o menino como a resistência ao surgimento de um elemento recalcado, a água como a libido, o encanador como um psicoterapeuta. Observaremos que inúmeras psicoterapias transcorrem exatamente assim, com o psicoterapeuta empenhando-se numa briga sem fim com a resistência do paciente, com pouquíssimos ganhos terapêuticos duráveis. A abordagem biodinâmica seria detectar que alguém tem interesse em entupir os encanamentos e, em vez de espancá-lo, iniciar um diálogo respeitoso para ver se não haveria uma outra solução para que o seu desejo de não tomar banho que pudesse trazer menos incômodo aos demais moradores. Mais tarde poderíamos conversar sobre os motivos e medos do banho, quem sabe até podendo mostrar a ele que seria vantajoso para si próprio que ele tomasse banho.

Ao invés de uma grande explosão catártica, podemos dosar a vitalização de modo a que o paciente tenha seus conteúdos recalcados ativados, e com isso produza derivados em maior número, menos distorcidos, com maior carga emocional e mais próximos do conteúdo original. Sonhos mais ricos e mais facilmente decifráveis, comunicações mais carregadas emocionalmente, atos falhos que evidenciam pistas a seguir, uma certa ansiedade de base que faz o paciente apertar o passo e ter mais coragem de enfrentar certas questões.

É o que ocorre muito comumente em fases da psicoterapia em que tudo parece empacado, as conversas são repetitivas, não há sonhos, as associações são poucas ou só levam a becos sem saída. Uma intervenção corporal nesses casos, com trabalhos de vitalização e carga, pode desbloquear o processo. Surgem sonhos que rendem muitos frutos, os fatos do cotidiano são conectados espontaneamente a memórias infantis, a fala aparece mais autêntica e carregada de afeto, certos sintomas se exacerbam e pressionam por uma solução. Enfim, surge material terapêutico valioso e a psicoterapia volta a fluir satisfatoriamente.

Uma lenda hindu pode ajudar a entender melhor esta questão. Havia um guru, um mestre sábio, que possuía vários discípulos, entre os quais dois se destacavam de maneira especial. Um era oriundo de uma família de acadêmicos e estudiosos, e havia incorporado isso, de maneira que era um grande pensador e conhecedor das escrituras e de filosofia em geral. O outro vinha de uma família de comerciantes muito ricos, e era muito hábil em resolver questões práticas, tinha muita disposição e iniciativa, enfrentava obstáculos com tranqüilidade.

Certo dia o guru chamou-os e lhes propôs uma questão. O lugar onde moravam o guru e seus discípulos (o ashram) era como uma pequena fazenda onde se produziam alimentos e pequenos artefatos de consumo. Havia ali um palheiro, e o mestre lhes comunicou que havia escondido lá uma agulha. Pediu-lhes então que meditassem sobre como poderiam encontrar a agulha, e deu prazo de uma semana. Após esse tempo, chamou-os novamente e perguntou se eles tinham encontrado alguma solução. Ambos orgulhosos disseram que sim.

Primeiro falou o mais estudioso, e comunicou que, depois de muito meditar e contemplar o assunto, achava que o modo correto seria pegar um pequeno montinho de palha, examiná-lo cuidadosamente, e, caso não encontrada a agulha, colocar essa palha em outro lugar, pegar outro montinho de palha, e assim por diante, até encontrar a agulha. Haveria de se ter muita paciência e disciplina, e isso poderia ajudar muito no caminho espiritual.

Depois falou o discípulo mais prático. Disse que realmente o caminho proposto pelo outro levaria a um resultado. Mas que não era o melhor, pois demoraria muito tempo e exigiria muito esforço. A solução correta, segundo ele, seria colocar fogo na palha. A palha se consumiria no fogo, e a agulha não, e assim ficaria fácil encontrá-la.

O guru parabenizou-os pelas soluções, mas ponderou que, realmente, se a primeira solução era demorada e custosa, a segunda traria prejuízos por perder a palha. Ambas não eram corretas, portanto. Quando questionado se ele tinha uma solução mais adequada, o mestre levantou-se, foi até um armário e trouxe um imã, e com este instrumento percorreu o palheiro até que a agulha grudou-se a ele.

Esta fábula originalmente procurava demonstrar o quanto era importante, na evolução espiritual, a capacidade de abrir o coração, de expandir a capacidade amorosa, e esta, como um imã, atrairia o contato com a energia divina, com a verdade suprema. Enfatiza o quanto isso pode ser mais rápido e efetivo do que o estudo pormenorizado, porém seco, das escrituras; e também melhor do que o devotamento obsessivo, rígido e não amoroso a práticas como a meditação, a hatha ioga e as penitências.

No nosso caso, parece bem evidente a analogia. De um lado está aquele psicoterapeuta ou analista que vai examinando e interpretando cuidadosamente cada comunicação do paciente, com paciência, constância e rigor, até chegar ao recalcado. De outro, o psicoterapeuta intempestivo que através de técnicas poderosas chega logo ao recalcado, porém causando enorme destruição no caminho. O terceiro, claro que é o psicoterapeuta biodinâmico. Usando os imãs da sensibilidade, da intuição, do manejo da relação terapêutica (transferência, setting, holding) e do uso adequando da presença terapêutica e das técnicas de mobilização e de acolhimento, ele poderá chegar ao recalcado de maneira suave, profunda e eficaz.

Há uma outra conseqüência clínica importante da afirmação de que o enfraquecimento do que é detestável é um substituto para o recalque.

Existem pessoas com um aumento do tônus muscular (hipertonia) que pode ser geral ou localizado em certas regiões do corpo. Esse tipo de perturbação do tônus foi estudado por Reich (1995), e podemos fazer uma equivalência desse fenômeno corporal com os mecanismos de defesa psíquicos, especialmente o recalque. O aumento do tônus serviria para conter a irrupção na ação e também na consciência dos impulsos recalcados, algo como alguém que faz força para conter o brigão num bar, que está prestes a engalfinhar-se com algum desafeto. 

Parece haver uma equivalência, ou pelo menos uma similaridade, entre a hipertonia muscular e o recalque. Ou seja, pode ser que a hipertonia muscular seja simplesmente o modo como o organismo efetiva o mecanismo psíquico do recalque. Ou então podem ser duas coisas diferentes, mas que apresentam efeitos similares. Estamos aqui no terreno obscuro das relações entre a biologia e a psicanálise, e muito deve ainda ser pesquisado até se ter uma noção clara do que acontece realmente.

Wagner (2000, p. 62) propõe algumas hipóteses quanto a este processo, dizendo que quando a pulsão é recalcada, 

as excitações somáticas seguem existindo (e aumentando) e enviando seus representantes (pulsões) ao psiquismo. O ego pode então tentar o bloqueio (repressão) das fontes de excitação somática. Como? Agindo corporalmente nestas fontes somáticas, através da musculatura. O ego tem o controle da musculatura e pode contraí-la, diminuindo assim o funcionamento do sistema vegetativo, sede das excitações somáticas (…) a cada processo repressivo psíquico corresponderia um processo repressivo corporal. Na clínica, a cada interrupção do processo associativo, Reich percebia uma contração muscular. 

Este é um modo interessante de olhar a questão, mas deve-se ainda estudar e pesquisar muito antes de se chagar a uma formulação definitiva. Acredito ser inevitável, neste aspecto, que se aprofunde o entendimento dos elementos de neuromotricidade envolvidos.

Já a hipotonia muscular estaria mais relacionada a uma estratégia do organismo no sentido de desvitalizar, de cortar a fonte de energia. Algo como alguém que não gosta de um programa de televisão e radicaliza tirando o fio da tomada. Seria o correspondente orgânico daquilo que Freud chamou de “enfraquecimento do detestável”. Devido à ausência (ou à pouca importância) do uso do recalque, são em geral pessoas muito permeáveis ao inconsciente. Apresentam no geral grande criatividade, forte intuição e sensibilidade. Não é raro terem uma vida espiritual e artística desenvolvidas. São muitas vezes classificadas como fronteiriços (borderlines), esquizóides ou psicóticos. Percebe-se que em geral são facilmente inundados e invadidos por material oriundo do inconsciente.

Isso leva a perspectivas clínicas diferentes. Nestes últimos casos, não se trata de eliminar o recalque e outras defesas, e sim ajudar a assimilar e incorporar os conteúdos inconscientes, por um lado. Por outro, estruturar defesas e barreiras para fortalecer-se e dar conta das demandas da vida cotidiana. E ainda vitalizar-se para poder tolerar a intensidade existencial, aproveitando-a para aumentar a capacidade para o amor e o trabalho.

Esta abordagem sobre a energia das pulsões, apesar de apoiar-se numa formulação freudiana, parece-me ser uma contribuição clínica original de Reich. O trabalho psicanalítico em geral transcorre em termos de afrouxamento da defesa ou fazendo contato e dando espaço aos conteúdos do inconsciente. Esta terceira possibilidade, o trabalho sobre a energia pulsional, é uma inovação reichiana e pode ser utilizada e manejada com grande eficiência se pudermos entender sua psicobiodinâmica, ou seja, como se processam os mecanismos psíquicos e somáticos, os imbricamentos entre quantidades e qualidades psíquicas, entre conteúdos e representações de um lado, energia e afetos de outro.

De todo o exposto acima, ficam evidentes algumas coisas: a) esse trabalho corporal pode ser de grande ajuda num processo analítico; b) é possível uma compreensão psicodinâmica do papel destas técnicas corporais; c) o trabalho direto sobre o pólo pulsional (e não apenas com a defesa) pode trazer novos elementos técnicos, ampliando a eficácia das psicoterapias de base psicodinâmica; d) o psicoterapeuta que dominar estas técnicas, e puder compreendê-las dinamicamente, saberá quando, como e com quem utilizá-las de maneira precisa e eficaz.

Talvez se possa entender de um modo análogo o efeito das dramatizações utilizadas pelo Psicodrama sobre o aparelho psíquico. Neste contexto do conflito entre pulsão e defesa, o contato com uma cena relacionada aos conteúdos recalcados, ou que possa ser associada a eles, causará um aumento da excitação, do investimento relacionado aos mesmos. No mesmo sentido agirá a ação, a liberação do acesso à motricidade de expressões ligadas ao que jaz no inconsciente. Desta forma, será alterado o equilíbrio de forças, favorecendo o aparecimento na consciência dos elementos recalcados. Não só as idéias inconscientes, mas também a suas correspondentes cargas afetivas teriam assim sua expressão facilitada.

3.17 Parágrafo 17 – representação e afeto

O que foi dito até aqui aplica-se ao recalque que atinge um representante psíquico da pulsão, entendendo-se por este último uma representação (idéia ou imagem sensorial) investida com uma determinada carga de energia psíquica proveniente de uma pulsão.

Freud propõe agora dividir didaticamente, para possibilitar uma maior compreensão do tema e um melhor manejo clínico, o que até aqui foi visto como uma coisa só. Ele propõe separar os dois componentes que representam a pulsão na consciência: a representação (idéia) e a quota de afeto, pois ambos podem ter destinos bem diferentes ao longo do processo de recalque. A quota de afeto é assim designada por relacionar-se à quantidade de energia ligada à idéia, e pelo fato de expressar-se na consciência em processos que são percebidos como afetos, cuja intensidade depende da carga pulsional investida

Este é um ponto importante para o pensamento reichiano, pois fica evidente, mais uma vez, a importância dada por Freud ao ponto de vista econômico. Afirma-se aqui que existe algo como uma quantidade de energia que terá grande importância no destino da pulsão e na etiologia dos distúrbios psíquicos. 

Freud propõe que, na discussão a seguir, deveremos acompanhar separadamente o que ocorre com a idéia e com a energia pulsional vinculada a ela nesse percurso. Isto permitirá um detalhamento da psicodinâmica envolvida nas neuroses de transferência, conforme discussão adiante.

3.18 Parágrafo 18 – os destinos da quota de afeto

A idéia (representação) que representa a pulsão vai, no processo de recalque, ser retirada do consciente (caso estivesse já consciente) ou ser impedida de entrar no consciente. Essa diferença é de pouca importância, segundo Freud, e equivale à diferença entre expulsar um hóspede indesejável da minha casa e depois impedi-lo de entrar se ele tentar novamente.

Essa analogia com um hóspede indesejável é interessante, e Freud utiliza algo semelhante em outro texto ao falar sobre o recalque. Aqui a analogia é com um salão de conferências, onde alguém do público se torna inconveniente por palavras ou comportamentos, e é expulso. A conferência prossegue, mas volta e meia o intruso tenta forçar a porta para entrar, às vezes entra e é imediatamente expulso, ou fica jogando bilhetinhos pela janela. Deve-se sempre manter um guarda junto à porta para impedi-lo.

O fator quantitativo (a carga energética) teria três destinos possíveis: a) a pulsão é totalmente suprimida, de maneira que não se encontra mais vestígio dela, como no caso da histeria de conversão, onde se manifestará como uma inervação (ou pode também ser consumida em um traço de caráter, de acordo com Reich); ou b) aparece como um afeto definido (amor, ódio, medo etc.), ou seja, apresenta-se com uma determinada qualidade afetiva; ou c) transforma-se em angústia. 

Os dois últimos casos mostram a necessidade de estarmos atentos à possibilidade da energia psíquica das pulsões ser transformada em afetos ou em angústia.

No artigo “O Inconsciente”, Freud acrescenta mais uma possibilidade: a de que “o afeto permanece, no todo ou em parte, como é” (Freud 1915 c, p. 204). Neste último caso, no qual o afeto não sofreria mudança em si mesmo, em geral ele estaria ligado a uma idéia diferente da original. É uma situação bastante comum esta, ocorrendo através do deslocamento, como por exemplo um sujeito que  tem amor (ou ódio) inconsciente da mãe e sente este amor (ou ódio) pela esposa, por uma filha ou por uma mulher que ocupa posição hierárquica superior no trabalho.

Este é um momento importante da formulação freudiana do processo de recalque, parte fundamental de sua teoria das pulsões, porque aqui aparecem os afetos e a angústia, que vão desempenhar um papel decisivo na compreensão do aparelho psíquico, na etiologia das neuroses e na formulação das formas de intervenção clínica da psicanálise.

Em 1926, Freud proporá mudanças importantes na sua teoria da ansiedade, em “Inibições, Sintomas e Ansiedade”. Uma discussão destas alterações teóricas e suas conseqüências pode ser encontrada em Sevá (1975). Tal discussão foge ao âmbito do presente trabalho, e aqui continuaremos utilizando a teoria da ang[ustia exposta nos “Artigos sobre Metapsicologia”, que é a mesma que será adotada por Wilhelm Reich e os neo-reichianos.

3.19 Parágrafo 19 – o recalque mal-sucedido

Freud nos lembra que aquilo que motivou o recalque foi a tentativa de fugir ao desprazer, e essa é a finalidade única deste processo. A partir disso, fica claro que o destino da quota de afeto relativa à pulsão é muito mais importante do que o destino da idéia, e que isso é decisivo para avaliarmos o processo de recalque.

Se um recalque não conseguiu impedir que surjam sentimentos de desprazer ou de ansiedade, podemos afirmar que ele falhou, mesmo que tenha tido sucesso quanto à idéia relacionada à pulsão.

Um recalque bem sucedido na maioria das vezes escapará ao nosso exame, pois não restam rastros que chamem a atenção. Fenichel (1981, p. 131-133) equipara sublimação e defesa bem sucedida (que muda a finalidade e/ou o objeto da pulsão sem bloquear a descarga, e que com isso gera a cessação do efeito patogênico daquilo que se rejeita, devido ao fato de este último estar desinvestido de energia). Ou seja, uma sublimação nada mais seria do que um recalque (ou outro mecanismo de defesa) onde a quota de afeto é desviada e canalizada de forma a não ficar contida, sendo percebida de uma maneira não desagradável.

Os recalques que falharam são aqueles sobre os quais em geral nos debruçamos, e que constituem o dia-a-dia da clínica psicoterápica.

3.20 Parágrafo 20 – o retorno do recalcado

Freud coloca aqui algumas questões básicas: haveria apenas um tipo de recalque ou seriam vários mecanismos diferentes com a mesma função? Cada um dos tipos de neurose teria seu modo peculiar de recalque ou é o mesmo em todos os casos? No caso de ser o mesmo, o que diferencia um tipo de neurose dos outros?

Uma dificuldade que se nos apresenta na tentativa de esclarecer isso é que só podemos inferir sobre o mecanismo do recalque a partir de seus resultados.

Observando, num primeiro momento, apenas a parcela ideacional do representante da pulsão, percebe-se que ele em geral cria uma formação substitutiva. Esse substituto ou formação substitutiva não é produzido pelo recalque em si, mas é uma conseqüência desse processo. Constitui um retorno do recalcado, ou seja, aquilo que foi recalcado continua pressionando a partir do inconsciente, e acaba aparecendo na consciência (retornando assim a ela) de uma maneira disfarçada ou distorcida, como um derivado, uma formação substitutiva ou um sintoma.

A existência dessa pressão do recalcado para retornar à consciência é de grande importância dinâmica, e abre horizontes clínicos significativos.  O fato de o conteúdo recalcado aparecer de diversas formas, e não ficar simplesmente oculto, viabiliza muitas formas de intervenção clínica. Uma das vertentes é aprender a decifrar aquilo que parece distorcido e disfarçado. A interpretação de sonhos, sintomas, comunicações e atos falhos, é uma possibilidade. A leitura corporal pode também ser utilizada nessa direção, como já mencionado. 

Outra possibilidade é criar um setting aonde o paciente vai afrouxando aos poucos a censura e a comunicação vai gradualmente e espontaneamente chegando mais perto dos complexos patogênicos. É um caminho complementar à interpretação, que funciona de um modo no qual o paciente acaba chegando ao resultado, como que interpretando a si próprio. O segredo no caso é permitir que a pessoa siga seu caminho sem se sentir perturbada, sem se assustar com o que ela própria vai trazendo das profundezas, sem se dar conta de que pouco a pouco, de grão em grão, vai chegando a regiões da mente antes proibidas.

Como um exemplo, temos a técnica biodinâmica que Gerda Boyesen chamou de “método das pequenas palavras”. Nos conta ela que esse método surgiu de uma maneira curiosa. Nos anos 60, quando mudou-se da Noruega para Londres, algumas vezes tinha dificuldade de compreender o que as pessoas falavam na sessão de psicoterapia, devido ao sotaque, à má dicção, ou ao falar apressado, que, aliados ao seu então insuficiente domínio do idioma inglês, impediam o entendimento. Para  não interromper a sessão, ela ficava quieta, ou respondia com “hum-hum”, “sei”, ou monossílabos semelhantes, ou então simplesmente dizia: “fale mais disso”, “continue falando”. Qual não foi sua surpresa quando percebeu que essa intervenção minimalista tinha um grande efeito em muitos casos, que a pessoa ia entrando em coisas muito profundas e reveladoras quando não era interrompida na sua comunicação. Um efeito até maior do que as sessões onde Gerda interpretava, dialogava, explicava e questionava. Ela então batizou o método, e passou a usá-lo como uma técnica biodinâmica, dentro da filosofia do papel de parteira do psicoterapeuta, ou seja, não atrapalhar o que surge em momentos onde a resistência se mostra pequena ou inexistente. 

Esta parece ser uma variante do método psicanalítico. A maior diferença consistindo numa atitude diferente do analista: na psicanálise, o analista permanece em atenção flutuante e interpreta os elementos recalcados que percebe; na psicoterapia biodinâmica, o psicoterapeuta concentra seu trabalho no desenvolvimento de condições que permitam ao paciente afrouxar as defesas e deixar vir à tona o material recalcado, que ficará claro espontaneamente. Obviamente, há uma diferença apenas de grau, e os dois métodos na prática se superpõem. Podemos considerar o “método das pequenas palavras” adequado a uma situação em que a resistência é tão ínfima que os elementos recalcados surgem na consciência em sua plenitude, sem necessidade de intervenção alguma além da presença do analista. A tarefa de conscientizar o inconsciente por meio da interpretação pode ser desnecessária, visto que a ausência de resistência faz com que o material recalcado venha para a consciência pela sua própria dinâmica, movido pela pressão pulsional. Numa situação em que a resistência é ainda mínima, mas já um pouco mais acentuada, pode ser necessária a interpretação, facilitando o acesso à consciência do material inconsciente.

É claro que em momentos de resistência isso não será suficiente, e outros recursos deverão ser empregados, como já mencionado.

3.21 Parágrafo 21 – recalque, sintoma e energia

Propõe-se neste ponto a tarefa de realizar uma análise cuidadosa dos resultados do recalque observáveis nos diferentes tipos de neurose, como um meio de atingir o objetivo definido ao final do parágrafo anterior.

Sugere adiar a tarefa até que se tenha um aprofundamento das concepções sobre a relação entre o consciente e o inconsciente (isso será realizado no artigo seguinte, “O Inconsciente”, na seção IV).

Entretanto, para que o assunto não fique tão indefinido, o autor resolve adiantar ao leitor algumas conclusões: a) o mecanismo do recalque realmente não coincide com os mecanismos de formação de substitutos; b) existem diversos mecanismos diferentes de formação de substitutos; c) os mecanismos de recalque têm pelo menos uma coisa em comum: a retirada do investimento energético.

Mais uma vez Freud enfatiza o fator econômico em sua teoria. Não é sem motivo que Reich se encantou com a teoria inicial de Freud, pois vemos aqui elementos com alto grau de compatibilidade com as idéias que depois serão desenvolvidas por Reich no âmbito da teoria e da técnica.

3.22 Parágrafo 22 – três formas de psiconeurose

Freud introduz o que será o tema dos parágrafos seguintes: apresentar como o que foi discutido até aqui se aplica às três formas mais conhecidas de neurose: neurose obsessiva, histeria de conversão e fobia (aqui chamada de histeria de angústia).

 

3.23 Parágrafo 23 – a histeria de angústia (fobia)

Para falar das fobias (histeria de angústia), Freud utilizará o exemplo do “Homem dos Lobos”, que é basicamente uma fobia animal.

No caso citado, a moção pulsional recalcada é uma atitude libidinal (amor homossexual) em relação ao pai, juntamente com o medo dele. Com o recalque, essa idéia desaparece da consciência. Como formação substitutiva, encontramos no lugar do pai um animal, o lobo. Isso se deu por deslocamento no longo de uma cadeia associativa. A parcela quantitativa (carga energética) não desapareceu, e sim foi transformada em angústia. Desse modo, um desejo de amor em relação ao pai transformou-se em medo de lobos.

Freud assinala que essa é uma forma esquemática e insuficiente de analisar uma neurose, mesmo a mais simples. Num caso real, vários outros fatores e determinações gerarão complexidades específicas para cada situação particular.

O recalque, num caso de fobia animal como este, é considerado como mal-sucedido, pois conseguiu apenas remover e substituir a representação (idéia), falhando totalmente em evitar o desprazer. E por isso o trabalho da neurose prossegue até uma segunda fase, que é a formação da fobia propriamente dita. Ou seja, ele passa a evitar determinadas situações (no caso discutido, tudo que se relacione com lobos), com a finalidade de evitar a angústia.

Conforme Fenichel, uma fobia é simplesmente uma atitude constante de evitar situações externas específicas que provocam a ativação do recalcado. Segundo ele, “aquilo que se teme, inconscientemente se deseja” (Fenichel 1981, p. 183). Esta forma de conceber a psicodinâmica da neurose vem confirmar a idéia de que é possível ativar o recalcado a partir de situações ambientais direcionadas para tal, que são exatamente as técnicas de trabalho corporal, exercícios com imaginação e dramatização, entre outros.

No artigo “O Inconsciente”, Freud detalha o processo aqui descrito. Num primeiro momento, surgiria a angústia sem que o indivíduo saiba o que teme. Supõe-se que “um determinado impulso amoroso se encontrava presente no Ics., exigindo ser transposto para o sistema Pcs.; mas a catexia a ele dirigida a partir deste último retrai-se do impulso (…) e a catexia libidinal inconsciente da idéia rejeitada é descarregada sob a forma de ansiedade.” (Freud, 1915 c, p. 209).

Se houver repetição deste tipo de acontecimento, o investimento do Pcs. tende a apegar-se a uma idéia substitutiva, o que permite a racionalização da angústia. Esta angústia passa a desempenhar um papel de contra-investimento para o sistema Cs./Pcs, protegendo-o contra o surgimento do material recalcado. A idéia substitutiva “é, ou age como se fosse, o ponto de partida para a liberação do afeto revestido de ansiedade.” (idem).

Numa terceira fase, trata-se de inibir o desenvolvimento da angústia proveniente do substituto, fazendo com que tudo que se associe à idéia substitutiva seja mais sensível à excitação. O contato com algum destes elementos associados desencadearia a angústia, levando a que o indivíduo evite o contato com os mesmos como forma de eliminar a angústia. A essa construção denomina-se fobia: evitações, renúncias e proibições que funcionam no sentido de eliminar o surgimento da angústia, às custas de algum sacrifício da liberdade pessoal. Desta maneira, “o ego comporta-se como se o perigo de um desenvolvimento da ansiedade o ameaçasse, não a partir da direção de um impulso instintual, mas da direção de uma percepção.” (ibidem, p. 211).

Podemos dizer que a fobia constitui um caso específico, onde a quota de afeto se expressa através da angústia. Mas o mesmo pode se aplicar a outras qualidades emocionais. Todos nós temos consciência de que determinadas situações e acontecimentos (na vida real, em filmes ou livros) evocam certas emoções em nós, muitas vezes de maneira intensa e incontrolável. Podemos achar, por exemplo, extremamente comovente e bonita a cena do reencontro de pessoas que se amavam e foram dolorosamente separadas por algum tempo, como a foto da menina emocionada abraçando o pai depois ser libertada de um seqüestro, ou o filme onde o casal de amantes separado na juventude se reencontra na velhice. Outras cenas podem evocar intenso ódio, como é freqüente em situações onde uma criança é humilhada ou maltratada.

Que tipo de situação faz você chorar num filme ou numa peça de teatro? Isso tem a ver com a ativação de seus conteúdos recalcados. Por que tanta gente gosta de filmes de terror? Talvez porque os conteúdos recalcados persecutórios materializam-se na tela e, depois de muitos sustos, são dominados pela defesa e pelo recalque (os “mocinhos”, os “do bem”). Ou seja, haveria uma descarga da pressão pulsional do medo, e um reasseguramento de que tudo está sob controle… por algum tempo, e não é de  se estranhar ser exatamente esse tipo de filmes que tem muitos e muitos novos episódios de continuação: funciona assim também o psiquismo. Todo reasseguramento em relação a conteúdos que sofreram recalque é temporário, pois daí a pouco a pressão pulsional se acumula novamente e tudo recomeça.

3.24 Parágrafo 24 – a histeria de conversão

O processo de recalque se dá de maneira bastante diversa em casos de histeria (de conversão). A questão chave está em que é possível haver um desaparecimento total da quota de afeto. Quando isso ocorre, o paciente mostra em relação a seus sintomas o que Charcot chamou “a bela indiferença das histéricas”. O conteúdo ideacional também é totalmente retirado da consciência.

O substituto que aparece, e que constitui um sintoma, é o que Freud chama de inervação – em casos típicos uma inervação somática, que pode ser sensorial ou motora, por excitação ou inibição. Alguns exemplos seguem-se.

Sensorial: por inibição, pode ser uma cegueira histérica, uma falta de sensações táteis e/ou proprioceptivas (“não sinto minhas pernas”), anestesia vaginal no ato sexual. Por excitação: formigamentos pelo corpo, sensação de bola na garganta que sobe e desce, sensações estranhas na barriga, coceira nos olhos, dores variadas, especialmente dores que mudam rapidamente de localização, sensação de que o peito está prestes a explodir, sensação de frio ou calor excessivos.

Motora: por inibição, pode ser uma paralisia histérica, com imobilidade da parte ou da totalidade dos membros superiores e inferiores, língua travada (dificuldade de falar), inibição de movimentos específicos (especialmente os expressivos). Por excitação: movimentos descoordenados involuntários, acompanhados ou não de sons (palavras, gritos, gemidos), tremores e vibrações parciais ou generalizados, alterações motoras dos olhos (desfocar, tremores, movimentos incontroláveis), retorcer de mãos e da boca, enfim, qualquer forma de ativação motora sem causa aparente e detectável na realidade presente.

A área atingida pela inervação, quando examinada analiticamente, revela-se relacionada ao representante pulsional recalcado. Há uma condensação que atrai toda a carga, todo o investimento, para uma parte do representante pulsional, e que se manifesta na inervação. Muitas vezes o sintoma histérico pode ser traduzido em uma frase. Um exemplo poderia ser uma mãe que perde o apetite quando o filho querido sai de casa. Parece estar dizendo “sem você eu morro, não faz sentido viver”.

O que foi dito acima não explicita, segundo Freud, o mecanismo completo da histeria, tendo de se levar em conta especialmente o fator regressivo também. Ele deixa essa tarefa para um outro momento, e continua a elaboração de como se dá o recalque na histeria.

O recalque na histeria só se torna possível através de uma extensa formação de substitutos (os sintomas), e neste sentido pode ser considerado como tendo fracassado. Porém geralmente significa um êxito completo ao lidar com a quota de afeto e com a representação recalcada.

Na histeria, o processo de recalque completa-se com a formação de sintomas, diferentemente do que foi visto no caso das fobias, onde ele continua interminavelmente. Quanto à maneira com que são formados os sintomas, 

na histeria de conversão o papel desempenhado pela anticatexia proveniente do sistema Cs. (Pcs.) é nítido e se torna manifesta na formação do sintoma. É a anticatexia que decide em que porção do representante instintual pode concentrar-se toda a catexia do último. A porção assim escolhida para ser um sintoma atende à condição de expressar a finalidade impregnada de desejo do impulso instintual bem como os esforços defensivos ou punitivos do sistema Cs.” (Freud, 1915 c, p. 212).

Em muitos casos ocorre um processo misto entre a histeria (de conversão) e a fobia, havendo a formação de substitutos histéricos (inervações), acompanhados de ansiedade. Pode-se dizer que há dois pólos: a histeria de conversão pura, onde toda a quota de afeto é consumida nas inervações; e a fobia pura, onde toda a quota de afeto é transformada em angústia. Entre estes dois pólos, podemos encontrar todos os graus intermediários. Podemos perceber que o mecanismo básico é muito semelhante em ambos os casos, e foi isso provavelmente que levou Freud a chamar a fobia de histeria de angústia. Ou seja, a fobia nada mais seria do que uma histeria onde a quota de afeto não foi consumida em inervações, e sim transformada em angústia.

A descrição que Freud faz do mecanismo da histeria tem grande importância para todas as formas de psicoterapia onde existem momentos de catarse, onde as ab-reações são fenômenos valorizados e até mesmo incentivados em alguns casos.

A primeira coisa que salta aos olhos é a possibilidade de comer gato por lebre. Ou seja, o psicoterapeuta e o paciente (e a platéia, nos grupos, aulas e workshops) podem estar achando “linda” uma mobilização de alguém, cheia de som e fúria, com uma intensidade que contagia e comove a todos, com coisas dramáticas (memórias, sentimentos) sendo trazidas à cena, a energia fluindo por todo corpo. Nos casos típicos e bem conduzidos, um grande ciclo com um “gran finale” orgástico e exaustão de todos, com a alegria do dever cumprido e a certeza de ter feito um grande bem para o paciente ao libertá-lo de um bloqueio antigo.

A partir do exposto acima, vemos que uma boa parte (senão a grande maioria) destes casos constitui apenas uma manifestação histérica (basicamente centrada na inervação por excitação motora), com pouco ou nenhum ganho em relação à mudança do equilíbrio neurótico. Teria havido simplesmente uma descarga, um alívio temporário da pressão pulsional, sem uma real alteração do jogo de forças entre pulsão e defesa, com os conteúdos recalcados permanecendo intocados.

No mesmo sentido, Reich (1995, p..25) alerta contra a valorização excessiva dos processos catárticos como recurso terapêutico: ‘‘a ab-reação do afeto relacionado com uma idéia inconsciente quase sempre alivia a condição do paciente, mas na maioria dos casos, apenas por algum tempo (…) a não ser em algumas formas de histeria, é difícil obter ab-reação na forma concentrada necessária para produzir o efeito desejado.’‘

Gerda Boyesen enfatiza que, no trabalho somático com a neurose, é preciso passar de um nível abdominal/visceral, relacionado aos aspectos inconscientes, para um plano mais consciente, relacionado à propriocepção torácica. Segundo ela, o músculo diafragma muitas vezes funcionaria como um verdadeiro portão do inconsciente. Nesse plano torácico, haveria uma consciência da qualidade emocional e dos impulsos motores, mas não ainda das memórias infantis e do significado relacionado às emoções e impulsos motores percebidos. Seria necessário continuar o trabalho somático e ultrapassar uma nova barreira (relacionada no plano somático à musculatura do pescoço) para este processo atingir de modo pleno a consciência, completando então o esclarecimento e transformação a partir da vinda à luz dos conteúdos antes recalcados. Só aí poderemos realmente contar com uma mudança e um avanço no quadro neurótico.

Nessa concepção de Gerda, os trabalhos catárticos que ficam no nível torácico seriam incompletos e de pouca utilidade. Sempre se deve ter em mente a busca do processo completo, e aí sim o trabalho catártico pode ter valor como um abridor de caminhos. Poderíamos dizer que este seria um trabalho de baixo para cima, onde primeiro há uma liberação da quota de afeto e dos impulsos motores para depois chegar ao representante psíquico recalcado. Isto seria oposto (e complementar) ao procedimento analítico clássico de partir da conscientização, através da interpretação, da idéia recalcada, e com isso levar posteriormente à liberação das emoções represadas, da expressão e da ação.

Outro aspecto importante a ser examinado aqui é a importância histórica da histeria na descoberta do modo de funcionamento do aparelho psíquico. Neste sentido, vemos que a histeria de conversão tem um papel fundamental no nascimento da psicanálise e, quando dirigimos a atenção para isso, podemos compreender melhor que corpo é este do qual tratam as concepções freudianas. Foi justamente a percepção de Freud de que os sintomas histéricos ignoram a distribuição dos nervos que o levou a descobrir que sua lógica se inseria no campo da representação e não no da anatomia. Segundo Cukiert (2000, p. 25), “podemos mesmo dizer que o ‘corpo histérico’ subverte o corpo da anatomia, marcando a forma como o corpo de que se trata em Psicanálise não é o corpo em seu puro aspecto somático.” Deste modo, “o postulado teórico da existência de uma ordem corporal representada, distinta da anatomopatológica, permite pensar a partir de uma anatomia imaginária, já que o histérico produz seus sintomas somáticos e sofre suas dores na imagem do corpo, e não na materialidade de sua estrutura anatômica.” (idem).

No mesmo sentido, Birman (cf. cit. Em Cukiert, 2000, p. 24-25) afirma que 

Freud propõe que a figura da histeria se articula no campo da representação e não no campo do corpo anatomo-patológico. Este deslocamento epistemológico rompe com a racionalidade médico-psiquiátrica e constitui uma nova problemática teórica (…) na interpretação freudiana, os sintomas histéricos se articulam num sistema coerente, fundado na imagem do corpo e não na estrutura do corpo, subordinada esta última às leis da distribuição anatômica dos órgãos e dos sistemas funcionais. O importante passa a a ser como o histérico vivencia a sua corporalidade, ou seja, de que maneira investe as diferentes partes do corpo e as interpreta como superfícies dotadas de significação.

Este é um ponto crucial a se ter em mente nesta tentativa de articular a psicanálise com suas raízes biológicas, para não haver um retrocesso com a retomada da concepção de um corpo que é apenas organismo, destituído de seus elementos psíquicos de representação e afeto.

3.25 Parágrafo 25 – a neurose obsessiva

Na neurose obsessiva encontramos um quadro bastante diferente. Inicialmente, segundo Freud, fica-se em dúvida se o representante pulsional recalcado é do tipo hostil ou libidinal. Isso de dá porque a neurose obsessiva se baseia numa regressão, através da qual uma tendência sádica foi substituída por uma afetiva. Assim, o que é recalcado é um impulso hostil contra alguém que é amado.

No início, o recalque alcança êxito pleno: o conteúdo ideacional é rejeitado e o afeto desaparece. “Como formação substitutiva surge, no ego, uma alteração sob a forma de maior consciência (censura), quase não se podendo dar a isso o nome de sintoma” (p.180-1). Neste caso, diferentemente da histeria, substituto e sintoma são coisas diferentes.

Nesse tipo de processo, surge mais um aspecto do recalque. Como nos casos anteriores, o recalque provoca um afastamento da libido, mas aqui o recalque atinge essa meta através do uso da formação reativa, intensificando um elemento oposto ao original. Aqui a formação de substitutos vai no mesmo sentido do recalque, coincide com ele e o reforça. É diferente da formação de um sintoma histérico, tanto em termos conceituais quanto em relação ao momento do processo de recalque no qual se insere.

O ponto chave parece ser a ambivalência do impulso recalcado (amor e ódio, eros e sadismo). Esta ambivalência permite o recalque através da formação reativa, mas também constitui a porta através da qual o recalcado retornará.

O recalque, de início bem sucedido, não se firma. A emoção desaparecida retorna como angústia social, angústia moral e autocensura ilimitadas. A parcela ideacional retorna através de uma formação substitutiva que se origina por deslocamento, em geral para algo pequeno ou indiferente. Há sempre uma tendência de retorno da idéia original. O fracasso no recalque do fator quantitativo (afetivo) coloca em ação um mecanismo de fuga semelhante ao que ocorre nas fobias, através de evitações e proibições. O trabalho do recalque se prolonga indefinidamente. Freud (1915 c, p. 212) comenta que “é devido à predominância da anticatexia e à ausência de descarga que o trabalho de repressão parece muito menos bem sucedido na histeria de ansiedade e na neurose obsessiva do que na histeria de conversão.”

A rejeição da idéia original é obstinadamente mantida, pois com isso impede-se a ação conseqüente a ela, havendo assim um “aprisionamento motor do impulso” (Freud, 1915 b, p.181).

É interessante ver como mais uma vez Freud dá grande importância à ação, ao aspecto motor do ciclo pulsional. Não é de se estranhar que Reich, a partir de conexões como essa, tenha trilhado um caminho que enfatiza a motricidade e o sistema locomotor como local privilegiado de compreensão e intervenção sobre a neurose, e terminará elaborando sua teoria da couraça muscular do caráter e as técnicas de vegetoterapia. Como se pode ver, este tipo de abordagem somática (e especialmente referenciada no sistema locomotor, na ação) é algo compatível com a psicanálise pulsional de Freud, uma trilha aberta por ele e que depois será seguida e desenvolvida por Reich e seus seguidores.

3.26 Parágrafo 26 – concluindo

Freud termina seu artigo com o tradicional alerta sobre a necessidade de aprofundar-se o estudo destas questões antes de se achar que compreendemos o tema do recalque e da formação de sintomas.

Ele propõe, como estratégia para lidar com questão tão complexa, que se selecione cada aspecto, e então se estude esse aspecto, que se acompanhe esse ponto de vista ao longo do  material clínico, e se verifique os resultados, confirmando, mudando ou negando os pressupostos dos quais se partiu. Depois, que se possa fazer uma síntese dos achados para chegarmos a uma compreensão adequada.

Freud fecha com chave de ouro este brilhante artigo, remetendo-nos àquela que constitui a fonte e o destino primordiais do conhecimento psicanalítico: a clínica. É daí que vêm as idéias, é aí que testamos as hipóteses, e aí que se encontra o sentido e a utilidade dessas formulações.

Creio que todo psicoterapeuta deveria assimilar essas recomendações. Nunca permanecer preso a dogmas e textos sagrados. Sempre confrontar suas concepções com o que ocorre na prática com os pacientes, sempre estar aberto ao questionamento de tudo. 

 

4. O INCONSCIENTE

Segundo Strachey (1974 c, p. 185), “se a série ‘Artigos Sobre Metapsicologia’ talvez seja considerada como o mais importante de todos os escritos teóricos de Freud, não há dúvida alguma de que este ensaio sobre ‘O Inconsciente’ constitui seu ponto culminante.”

Na concepção psicanalítica, a psicologia torna-se simplesmente ininteligível se restrita aos fatos mentais conscientes. Como a teoria da existência de uma parte da mente que seja inconsciente foi fortemente atacada por vários críticos da psicanálise, Freud dedica-se no início de seu ensaio a expor seus argumentos no sentido de defender esta sua concepção.

4.1 o inconsciente recalcado

São retomados alguns temas já discutidos no artigo anterior e introduzidos outros, expondo-se sua visão do funcionamento inconsciente da mente. Algumas das características assinaladas são:

  1. a) o recalque não destrói a idéia que representa a pulsão, simplesmente evita que ela se torne consciente.
  2. b) o material recalcado pode produzir efeitos que atingem a consciência.
  3. c) os conteúdos recalcados constituem apenas uma parte do inconsciente.
  4. d) só podemos conhecer o material inconsciente após sua transformação ou tradução para algo consciente.
  5. e) processos e estados inconscientes são idênticos aos conscientes, exceto pela sua ausência da consciência.

Freud afirma que inferimos a existência de uma consciência nas outras pessoas a partir de suas ações e declarações. Do mesmo modo, diversos atos, pensamentos e sentimentos que notamos em nós e que não sabemos como ligar ao resto de nossa vida mental devem ser julgados como se pertencessem a 

uma outra segunda consciência que, no próprio eu do indivíduo, está unida à consciência que se conhece (…) devemos estar preparados para supor a existência em nós não apenas de uma segunda consciência, mas também de uma terceira, uma quarta, talvez de um número ilimitado de estados de consciência, todos desconhecidos para nós e desconhecidos entre si.” (Freud, 1915 c, p. 195-196).

Logo adiante, ele modifica esta afirmação, dizendo que “o que está provado não é a existência de uma segunda consciência em nós, mas a existência de atos psíquicos que carecem de consciência.” (idem, p. 196).

Freud discute o quanto os sentimentos, emoções e afetos podem ser inconscientes, afirmando que isto pode ocorrer, mas de uma maneira diferente daquela que acontece com as representações. Segundo ele, pode ocorrer que o afeto seja percebido conscientemente, porém interpretado como estando ligado a uma outra idéia, substituta da idéia original recalcada. Neste caso, o afeto na verdade não é inconsciente, apenas a representação que lhe corresponde o é. Afirma ainda que, 

após a repressão, idéias inconscientes continuam a existir como estruturas reais no sistema Ics., ao passo que tudo o que naquele sistema corresponde aos afetos inconscientes é um início potencial impedido de se desenvolver. A rigor, então, e ainda que não se possa criticar o uso lingüístico, não existem afetos inconscientes da mesma forma que existem idéias inconscientes. Pode, porém, muito bem haver estruturas afetivas no sistema Ics., que, como outras, se tornam conscientes. A diferença toda decorre do fato de que idéias são catexias – basicamente de traços de memória -, enquanto que os afetos e as emoções correspondem a processos de descarga, cujas manifestações finais são percebidas como sentimentos. (Freud 1915 c, p. 204-205).

4.2 o inconsciente e a musculatura

Freud apresenta também idéias sobre a questão da ação, da motricidade, em relação ao aparelho psíquico. Isso será importante para depois compararmos com a noção reichiana de couraça muscular e seu papel nos mecanismos de defesa. Segundo Freud, o recalque não apenas reteria o material inconsciente, mas também cercearia “o desenvolvimento do afeto e o desencadeamento da atividade muscular.” (Freud 1915 c, p. 205). A concepção freudiana de que o recalque não apenas retém o material inconsciente, mas também cerceia o desenvolvimento da atividade muscular, parece abrir um caminho de diálogo com o conceito reichiano de couraça muscular.

Reich, ao propor a sua técnica de análise do caráter, formulou a hipótese da existência de um entrelaçamento das defesas do ego, que funcionariam como uma unidade, uma verdadeira blindagem, como uma concha dura “destinada a desviar e a enfraquecer os golpes do mundo externo bem como os clamores das necessidades internas” (Reich, 1995, p. 314). A essa blindagem ele deu o nome de couraça do caráter, inicialmente concebida como uma couraça psíquica que constituiria uma fonte de resistência aos esforços do analista.  Nesse primeiro momento, Reich vê “a couraça psíquica como a soma total de todas as forças de defesa recalcadoras” (idem, p. 289).

Posteriormente ele relata o descobrimento de que “a couraça funciona sob a forma de atitudes musculares crônicas e fixas.” (ibidem, p. 313). Segundo Reich, “trata-se, na verdade, de uma identidade funcional entre couraça do caráter e hipertonia ou rigidez muscular.” (ibidem, p. 315). Deste modo, “a inibição da agressividade e a couraça psíquica andam de mãos dadas com um tônus aumentado.” (ibidem, p. 313). Este é um elemento-chave de sua teoria e técnica, como se pode perceber pela afirmação de que “a dissolução de um espasmo muscular não só libera a energia vegetativa mas, além disso e principalmente, reproduz a lembrança da situação de infância na qual ocorreu a repressão do instinto. Pode-se dizer que toda rigidez muscular contém a história e o significado de sua origem.” (Reich, 1984, p. 255).

Inúmeros elementos descritos por Freud em sua teoria do recalque em termos psíquicos, serão agora retomados por Reich em conexão com suas idéias sobre a relação entre recalque e hipertonia muscular:

  1. a) a fixação

Reich conduz seu raciocínio de maneira a deixar evidente o papel da tensão muscular e dos modos de reação crônicos na fixação oriunda do recalque: 

Como se preserva no presente a experiência histórica infantil? Os dados clínicos revelaram que essa experiência não ficava como um tipo de depósito no inconsciente e, sim, era absorvida no caráter e se expressava essencialmente como modos formais de comportamento. E destes modos de comportamento é possível extrair o conteúdo das experiências passadas, da mesma maneira que, por exemplo, se pode extrair sódio do cloreto de sódio. (Reich, 1995, p. 283). 

Afirma ainda que “na zona oral, o recalque se manifesta pelo enrijecimento da musculatura da boca e por um espasmo na musculatura da laringe, da garganta e do peito; na zona genital, manifesta-se como tensão contínua na musculatura pélvica.” (idem, p. 316-317).

Ou seja, a fixação estaria ancorada em um padrão muscular, em uma contração que se fixou cronicamente no organismo.

  1. b) o dispêndio contínuo de energia

Segundo Reich, “o encouraçamento do caráter requer energia, porque é sustentado pelo consumo contínuo de forças libidinais ou vegetativas” (ibidem, p. 313). Assim, “todo aumento de tônus muscular e enrijecimento é uma indicação de que uma excitação vegetativa, angústia ou sensação sexual foi bloqueada e ligada” (ibidem, p. 315).

Aqui, o gasto incessante de energia, descrito por Freud como um processo psíquico, aparece para Reich como um gasto real de energia para manter o músculo contraído.

  1. c) a relação entre recalque e resistência

De acordo com Reich, 

Observa-se, muitas vezes, que há uma diferença no estado de tensão muscular antes e depois de solucionar um recalque severo. Em geral, quando os pacientes estão em estado de resistência, isto é, quando uma idéia ou uma moção pulsional é barrada da consciência, eles sentem uma tensão no couro cabeludo, na parte superior das coxas, na musculatura das nádegas etc. Quando conseguem superar essa resistência por si mesmos ou pela interpretação correta do analista, sentem-se subitamente aliviados. (ibidem).

Ele afirma ainda que “um dos princípios fundamentais da técnica de análise do caráter é que o material recalcado nunca é liberado e tornado consciente a partir da perspectiva da pulsão, mas sempre e apenas a partir da defesa” (ibidem, p. 277). 

Nesta concepção, fica quase que óbvio o motivo pelo qual Reich passou a intervir no corpo de seus pacientes como forma de lidar com as resistências encontradas no tratamento. Afrouxando as tensões, dissolve-se o recalque e as resistências são eliminadas. Isto é confirmado pela clínica, abrindo novas e importantes perspectivas técnicas.

  1. d) o recalque e a quota de afeto

Para Reich, “a tensão muscular que está presente e não se resolve numa descarga motora consome a excitação que poderia surgir como angústia; desse modo, evita-se a angústia.” (ibidem, p. 319).

Afirma ele que “a hipertonia muscular crônica representa uma inibição do fluxo de toda forma de excitação (prazer, angústia, raiva) ou, pelo menos, uma redução significativa da corrente vegetativa. É como se a inibição das funções vitais (libido, angústia, agressão) fosse realizada através da formação de uma couraça muscular ao redor do núcleo biológico.” (ibidem). No mesmo sentido: “descobri que sempre que eu dissolvia uma tensão muscular, irrompia uma das três excitações básicas do corpo – angústia, ódio ou excitação sexual.” (ibidem, p. 230).

Segundo o processo descrito por Reich, o tônus muscular aumentado consumiria justamente a excitação que no texto freudiano é denominada como fator quantitativo ou quota de afeto. Haveria assim uma correlação entre afeto e musculatura que lembra exatamente aquilo que Freud descreveu sobre os afetos inconscientes, ou seja, de que enquanto as representações continuam a existir como estruturas reais no inconsciente, o que corresponde no sistema Ics. “aos afetos inconscientes é um início potencial impedido de se desenvolver.” (Freud, 1915 c, p. 204). Na visão reichiana, trazendo para o âmbito do orgânico uma formulação de Freud sobre o aparelho psíquico, os afetos estariam como que congelados e guardados nas hipertonias musculares, e não vivos e atuantes como as representações inconscientes.

  1. e) o recalque como um mecanismo tardio

O recalque é considerado um mecanismo de defesa que não está presente nas primeiras fases do desenvolvimento emocional. Reich aponta na direção de uma possível explicação deste fato. Ele afirma que “a contenção muscular das fezes é o protótipo do recalque em geral e seu passo inicial na zona anal” (Reich, 1995, p. 316). A partir disso, poderíamos nos indagar que, se realmente o recalque depende da capacidade de contração muscular voluntária e sustentada, ele só poderia aparecer por volta do segundo ano de vida, quando o desenvolvimento da coordenação motora assim o permitisse.

Reich afirma que os aspectos psíquicos e somáticos estão intimamente relacionados, a ponto de serem concebidos como aspectos de uma mesma unidade: “o que temos em mente não é uma analogia, e sim uma identidade real: a unidade da função psíquica e somática” (ibidem, p. 315). “A rigidez muscular e a rigidez psíquica são uma unidade” (ibidem, p. 316). “A couraça do caráter e a couraça muscular são funcionalmente idênticas” (ibidem, p. 325).

Tal concepção terá um enorme impacto na técnica proposta por Reich, pois o trabalho direto sobre a musculatura do paciente vai se tornar parte da estratégia analítica. De acordo com ele, “todo neurótico é muscularmente distônico e toda cura se manifesta diretamente num relaxamento ou numa melhora do tônus muscular” (ibidem, p. 315-316). Desta maneira o afrouxamento das tensões musculares é visto como um equivalente do afrouxamento da censura e da eliminação do recalque. Afirma Reich que “a liberação da excitação vegetativa de sua fixação nas tensões da musculatura da cabeça, garganta, maxilares, laringe etc., é um dos requisitos indispensáveis para a eliminação das fixações orais em geral” (ibidem, p. 317). Segundo ele, “a energia vegetativa pode ser liberada, isto é, reativada, a partir da couraça do caráter e da couraça muscular” (ibidem, p. 325).

Freud afirma ainda que “o sistema Cs. normalmente controla não só a afetividade como também o acesso à motilidade (…) enquanto o sistema Cs. controla a afetividade e a motilidade, a condição mental da pessoa em questão é considerada como normal.” (Freud 1915 c, p. 205). É dito também que “o controle do Cs. sobre a motilidade voluntária se acha firmemente enraizado, suporta regularmente a investida da neurose e só cessa na psicose.” (ibidem).

A clínica de psicoterapia corporal parece trazer dados que questionam tal afirmação. A partir da observação de material analítico relativo à forma (o “olhar analítico” que complementa a “escuta”), no que chamamos de Leitura Corporal, os elementos de comunicação não-verbal revelados parecem indicar a existência de expressões, posturas e hábitos musculares que são reveladores de processos inconscientes. Num exemplo simples, certa vez um paciente me contava sobre a sua impotência sexual, dizendo que não estava nem um pouco preocupado, pois achava isso normal em sua idade. O que se via da linha da cintura para cima era um ar de serenidade que condizia com o afirmado. Entretanto, sua mão direita, pousada sobre uma das pernas, movia-se freneticamente como que batucando em seu próprio corpo. Quando lhe chamei a atenção para o fato, ficou surpreso ao perceber a mão contradizendo-o e, depois de um momento de vergonha e embaraço, confessou que a questão na verdade não era assim tão simples para si. Ou seja, havia um conteúdo inconsciente (preocupação com a impotência e angústia), que foi impedido de se manifestar em uma parte do corpo, mas que influenciou uma outra parte do organismo, provocando um movimento denunciador de seu estado íntimo que parece não ter passado pelo crivo do sistema Cs.

Do mesmo modo, posturas crônicas de ombros encolhidos muitas vezes acabam sendo reveladas como decorrentes de idéias inconscientes de desvalorização de si próprio; ou um queixo erguido revela uma arrogância compensatória inconsciente. Elementos fugazes da expressão facial ou do olhar revelam freqüentemente sentimentos que praticamente não chegaram à consciência. Por exemplo, uma paciente exibe por uma fração de segundo uma expressão de ódio no olhar ao falar de um assunto qualquer. Logo depois de perceber esta expressão, eu lhe pergunto o que houve e ela, surpresa, diz que não houve nada, sem entender a que me refiro. Pergunto então mais especificamente sobre o que sentiu no olhar agora há pouco, ela me responde “sei lá”, ainda sem consciência de nada mais significativo. Finalmente, quando lhe digo que julguei ter um visto uma expressão de ódio nela, ela me conta que realmente percebeu em si um vislumbre disso, mas ao qual nem deu atenção, pois desaparecera quase que de imediato. Agora que ficou claro ter ocorrido realmente este sentimento, conversamos sobre ele e muita coisa se revela a partir disto. Eventos deste tipo acontecem diariamente numa psicoterapia de base reichiana, e parecem apontar na direção de um possível mecanismo de funcionamento fisiológico relacionado ao recalque. Talvez a pulsão ou o material recalcado venha à consciência, ganhando acesso à motricidade (expressão), mas muito rapidamente sejam ativados os mecanismos de defesa (somáticos e psíquicos) e o impulso é como que recolhido, desaparecendo ao mesmo tempo do campo da consciência e da motricidade. Neste sentido, Gaiarsa (1982, p. 5) afirma que “o inconsciente não é invisível; a defesa está sempre num gesto ou numa posição visíveis.” 

O que parece correto afirmar é que o sistema Cs. pode controlar o acesso à motricidade, mas que freqüentemente este controle não é exercido, ou é exercido de maneira parcial. A maior parte da motricidade ocorre de maneira inconsciente, sendo influenciada pelos conteúdos inconscientes recalcados.

Trata-se de um assunto importante e polêmico, com certeza necessitando de mais estudo e pesquisa antes de se poder afirmar algo com consistência e propriedade. Mas descortina-se aqui um campo que pode enriquecer muito a compreensão do funcionamento inconsciente e do mecanismo do recalque em suas conexões com a motricidade e a musculatura.

4.3 outros inconscientes

De acordo com Freud (1915 c, p. 191), “tudo que é reprimido deve permanecer inconsciente; mas, logo de início declaremos que o reprimido não abrange tudo que é inconsciente. O alcance do inconsciente é mais amplo: o reprimido é apenas uma parte do inconsciente.” Em “O Ego e o Id”, essa tese é confirmada quando se diz que “o reprimido se funde com o id, e é simplesmente uma parte dele.” (Freud, 1923, p. 38). Na mesma página em que se encontra esta segunda citação, encontramos uma figura que procura ilustrar o assunto, e nela se percebe que o material recalcado ocupa apenas uma fração do território do id. 

Procurarei aqui explorar resumidamente algumas possibilidades quanto ao que poderia constituir este território do inconsciente não-recalcado, sempre em conexão com o campo da psicoterapia corporal. Isto se deve à consideração de que diversas técnicas e abordagens próprias do campo reichiano talvez não possam ser entendidos em termos do conflito entre pulsão e defesa, mas podem ser pensadas no âmbito mais amplo de processos inconscientes que podem ser trazidos à consciência em um dado tratamento.

Quero aqui especular um pouco sobre onde se poderiam encaixar estas abordagens e técnicas que parecem não caber dentro do modelo examinado acima, baseado no conflito entre pulsão e defesa e no mecanismo do recalque. São tentativas iniciais que terão necessariamente de ser aprofundadas posteriormente. São aproximações a este campo que provavelmente serão depois alteradas ou descartadas, mas que podem servir como algo em torno do qual se debate, meras hipóteses a serem testadas.

4.3.1 o inconsciente em Melanie Klein 

A psicanálise de Melanie Klein traz elementos que, sem negar as formulações de Freud, priorizam outros aspectos do psiquismo. Ela enfatiza a importância dos processos mentais ocorrentes no primeiro ano de vida e das posições esquizoparanóide e depressiva para a compreensão do aparelho psíquico. Tudo isto ocorrendo numa época da vida em que o mecanismo do recalque ou está ausente ou ainda não tem a importância que terá posteriormente.

Como decorrência, é relativamente pequena a importância atribuída em suas formulações ao conflito entre pulsão e defesa e ao papel do inconsciente recalcado. O inconsciente é entendido como algo relacionado a mecanismos de defesa mais primitivos, como a negação, a cisão, a projeção e a introjeção.

Desta maneira, há todo um campo de vida mental inconsciente que aparentemente escapa do âmbito dos conteúdos recalcados e dinamicamente ativos descritos por Freud. É assunto complexo e não será tratado aqui, mas que deverá ser considerado em uma formulação mais abrangente do papel da vida mental inconsciente na vida humana e na psicoterapia.

4.3.2 o inconsciente neurolocomotor

Existe um outro tipo de inconsciente que se forma sem ação do recalque. É o que acontece quando se aprende a andar, por exemplo. O aprendizado depende de uma atenção consciente, que permite um desenvolvimento e aprimoramento do movimento e da capacidade de ação. Chega-se a um ponto de domínio e desempenho em que não mais se necessita da consciência para realizar a tarefa proposta. Gradualmente a coordenação vai se automatizando e ficando inconsciente, até um ponto em que é necessário um grande esforço para conscientizar novamente os procedimentos.

É o que ocorre, por exemplo, quando se quer fazer de modo diferente algum movimento. Quando se aprende a tocar um instrumento musical, é notório que deve haver um esforço para aprender a postura correta, pois depois será muito difícil corrigí-la se for automatizada de forma incorreta. Desta maneira, existiria um processo inconsciente de comando da motricidade. Entretanto, a dinâmica aqui pode ser inteiramente diferente daquela que ocorre no recalque:

  1. a) não há pressão do conteúdo inconsciente em direção à consciência;
  2. b) não parece haver uma representação recalcada que é afastada da consciência;
  3. c) o que está inconsciente não é uma pulsão ou um representante da pulsão, isto fazendo com que o papel da sexualidade não seja necessariamente o principal, como ocorre no caso do inconsciente recalcado; 
  4. d) este é simplesmente um mecanismo neurológico normal, e não um processo patológico;
  5. e) não existe aqui um “retorno” do material inconsciente;
  6. f) existem procedimentos que podem tornar-se inconscientes em qualquer fase da vida, não havendo assim necessariamente uma predominância dos elementos infantis;
  7. g) o papel da angústia parece ser mínimo neste caso, tanto no processo de tornar inconsciente um material consciente como no processo inverso.

Entretanto, algumas similaridades podem ser notadas entre este processo de automatização e o recalque. Uma é a questão dos afetos, pois quando um procedimento motor é automatizado, ele pode incorporar em si algo da dinâmica emocional do momento em que este procedimento foi gerado. Por exemplo, uma criança aprende a andar num momento em que vive intenso ódio pela chegada de um irmão. Ao ser automatizada sua maneira de andar nessa época da sua vida, ela possivelmente incorporará em seu modo um jeito de andar “pisando duro”, que poderá permanecer assim pelo resto de sua existência. Ou seja, haveria aqui também uma “fixação”, cuja dinâmica, entretanto, é bem diversa daquela originada pelo recalque. É de se supor que a intervenção terapêutica também apresente características diferentes daquelas descritas acima.

Outra semelhança seria a resistência à mudança. Parece haver uma tendência de preservação dos comportamentos aprendidos, o que é compreensível neurologicamente – seria um contra-senso, em termos do organismo, desorganizar um comportamento que “funciona”: é preciso conservar aquilo que foi organizado em algum momento da vida e tornou-se um padrão viável. Porém aparentemente não há uma psicodinâmica envolvida nesta resistência. Mais uma vez, se a hipótese aqui analisada for verdade, o modo de lidar com esta resistência terá de ser diferente daquele discutido anteriormente.

A metodologia proposta por Keleman (1992 b, 1995) parece estar voltada para este tipo de questão, e talvez não seja à toa que ele não utiliza o referencial teórico e técnico da psicanálise ou da tradição reichiana. É um trabalho voltado para a reorganização de padrões musculares e emocionais, onde a ampliação da propriocepção e do controle sobre a motricidade adquirem papel preponderante. Não há algo que se deixa vir à tona, o ego vai buscar ativamente aumentar seu controle, numa mudança escolhida e dirigida para uma direção determinada.

4.3.3 o inconsciente fisiológico individual simples

Refiro-me aqui a tudo que seria perceptível pela consciência, mas que normalmente não chega até ela. Na verdade, quase tudo que ocorre no cérebro e em todo o organismo não tem expressão na consciência. A regulação da pressão arterial, dos batimentos cardíacos, da coordenação motora para andar, comer e demais atos da vida cotidiana, tudo isso se faz sem que nos ocupemos conscientemente do assunto.

Em termos da psicodinâmica, este tipo de inconsciência talvez esteja mais ligado ao mecanismo de negação do que ao recalque. Efetivamente, uma pergunta que se impõe quando se fala em negação é a de como pode ser possível não perceber algo que é captado pelos órgãos dos sentidos. Parece algo quase mágico, uma ação violenta da defesa inconsciente. Na verdade, isto pode ser muito simples. A consciência é bastante limitada em termos de conteúdo: cabe pouca coisa de cada vez. Sempre há uma seleção, em geral inconsciente, que filtra tudo que poderia atingir a consciência. São muitas informações que estão à nossa disposição a cada momento. Por exemplo, estou agora atento ao teclado de um computador, à tela do monitor e ao encadeamento de pensamentos relativos ao assunto sobre o qual escrevo. O resto é um pano de fundo meio difuso e nebuloso, onde nada se destaca. Se mudo o foco de atenção, percebo que minhas costas não estão numa boa postura (e as endireito); minha respiração está OK, mas realizo voluntariamente uma inspiração profunda sentindo o ar passar pelas vias aéreas e isso me relaxa; percebo assim que estava um pouco tenso e aproveito para dar uma verificada proprioceptiva geral, dando-me conta de que está tudo bem, com exceção de uma leve tensão na parte posterior do pescoço – aproveito para fazer uma auto-massagem; é divertido prestar atenção às sensações que surgem do contato dos meus dedos com as teclas; a sola dos pés também me traz sensações particulares; há barulhos no mundo dos quais eu não me dava conta antes de resolver ficar atento a eles. Tudo isto em termos do mundo externo, dos órgãos dos sentidos. A introspecção revela agora um certo contentamento por estar escrevendo este texto; percebo ainda algo em mim que deseja ir para o ar livre e aproveitar o dia de sol, ao lado de uma outra tendência que se impõe no sentido do cumprimento do dever, e ainda uma concordância do ego com esta determinação em termos de que faz mais sentido agora estar escrevendo; um pouco de sede, que no momento é plenamente suportável e não vale o esforço de levantar e buscar algo para beber (mas creio que, se tivesse um copo de suco gelado ao alcance das mãos, eu daria uns goles). A lista parece poder estender-se ao infinito. São inúmeros elementos conscientizáveis, desde que eu resolva voltar a atenção a eles, mas que permanecerão inconscientes caso eu não o faça.

Podemos nos perguntar quais serão os critérios para a seleção do que é que vai ser autorizado a vir à luz. Não cabe aqui entrar nos detalhes disto, mas parece-me claro que este filtro poderá ser influenciado pela censura do ego. Há pessoas que parecem ter sido treinadas para descartar alguns tipos de informação: uns não percebem praticamente nada sobre seus próprios sentimentos, outros estão quase que totalmente voltados para o mundo externo, com baixíssima atenção ao que se passa no mundo interno. Em nossa cultura, uma boa parte das pessoas tem uma consciência de si próprio que abrange apenas a parte superior do tronco e a cabeça, sendo o resto percebido de forma vaga: é como se fossem aquelas esculturas onde se retrata apenas o busto do indivíduo.

Desta maneira, a negação parece ser algo até mesmo inevitável, dado que o funcionamento habitual do psiquismo consciente só é possível pela negação de quase todos os elementos que poderiam atingir a consciência. Inúmeras técnicas de trabalho com as percepções corporais são utilizadas em um contexto de psicoterapia corporal, e isto vai mexer com esse mundo de informações “inconscientes”, mas não recalcadas. Isto é muito útil em termos de percepção de estados emocionais, pois a emoção se manifesta corporalmente e pode ser conscientizada a partir de um exercício de atenção. Um diálogo possível seria o psicoterapeuta perguntar: “o que você está sentindo agora em seu peito?” Responde o paciente: “está um pouco desconfortável, como se existisse uma certa pressão dentro de mim”. Segue o terapeuta: “se você deixasse essa pressão se manifestar, que movimento ela produziria em seu corpo?”. Resposta: “parece que ela faria eu dar um soco na cara de alguém”. A partir disso, ele pode entrar em contato com uma raiva em relação a alguém, isto levando à elaboração de aspectos que antes não estavam conscientes. Neste exemplo, percebe-se a importância não só das alterações corporais produzidas por um afeto, mas também a percepção da preparação para uma ação. Muitas vezes, um material inconsciente manifesta-se numa prontidão para um tipo específico de movimento, e isto pode ser acessado pela consciência desde que se preste atenção ao próprio corpo.

Não está claro se aqui operamos com uma censura na passagem do sistema Ics. para o Pcs. (na lingugem da primeira tópica de Freud); ou se esta ocorre entre os sistemas Pcs e Cs.  Talvez a dinâmica seja semelhante à descrita para o recalque, mas pode também acontecer desta se processar por mecanismos diversos daquele. Enfim, é mais um campo a ser explorado.

4.3.4 o inconsciente filogenético (arquetípico)

Alguns autores propõem a hipótese da existência de um inconsciente filogenético, que faria parte do psiquismo humano e que teria uma similaridade com o que Jung chamou de inconsciente coletivo. Stevens & Price (1996, p. 6-7) propõem um modo de conceber a Psiquiatria a partir da

hipótese proposta por C. G. Jung do funcionamento dos arquétipos enquanto unidades dinâmicas do psiquismo filogenético (…) arquétipos são concebidos como unidades neuropsíquicas que evoluíram através da seleção natural e que são responsáveis pela determinação de características comportamentais e também de experiências afetivas e cognitivas típicas dos seres humanos (…) o conjunto de arquétipos com que cada um de nós nasce prepara-nos para o ciclo de vida natural de nossa espécie no mundo natural no qual evoluímos. Uma seqüência programada de estágios, cada qual mediada por um novo conjunto de imperativos arquetípicos, busca sua compleição no desenvolvimento de padrões característicos de personalidade e comportamento. Cada conjunto de imperativos faz suas próprias demandas sobre o ambiente (…) por exemplo, o sistema arquetípico mãe-bebê apenas será plenamente preenchido se for ativado pela presença e pelo comportamento de uma figura materna.

Não cabe aqui discutir a validade ou não deste tipo de concepção. Interessa-nos apenas listar todas as possibilidades para posterior exame. Note-se que esta é uma visão particular dos autores, priorizando o aspecto biológico e filogenético da teoria de Jung. De qualquer modo, o que interessa na presente exposição é mostrar um exemplo de uma teoria que fala desta possibilidade, de um inconsciente que vem como que “embutido” na estruturação do cérebro e que influencia a vida mental. É claro que o trabalho clínico com este tipo de inconsciente será muito diferente daquele derivado da concepção de uma dinâmica psíquica baseada no conflito entre pulsão e defesa.

 

4.3.5 o inconsciente ambiental e cultural

Uma última possibilidade a ser listada aqui é a da existência de algo que poderia ser chamado de inconsciente cultural. Por exemplo, sabe-se que, quando os pais atribuem um nome a seus filhos, este nome pode ser considerado um texto a ser decifrado, já que ele carrega memórias, expectativas e significados que irão compor a identidade do sujeito e fazer parte das estruturas básicas de seu psiquismo. Conforme assinala Martins (1984, p. 21), “este texto é recebido, sendo também a expressão do desejo de um Outro.” Isto tem uma implicação importante, pois, “mesmo vindo de um Outro, o nome próprio constitui o núcleo daquilo que vivo como sendo Eu.” (idem, p. 43).

Desta maneira, tenho como parte fundamental de meu psiquismo algo que veio de fora e que está impregnado de sentidos aos quais posso não ter acesso sozinho. Em minha atividade como psicoterapeuta, muitas vezes a questão do nome próprio surge e é impressionante a quantidade de pessoas que sabe pouco ou quase nada sobre as expectativas e histórias incorporadas no mesmo. Quando vão perguntar aos pais ou familiares, em geral elementos importantes são revelados. Lembro-me de um paciente que carregava um Júnior em seu nome, e, ao investigar a origem do mesmo, revelou-se surpreendentemente que ele não significava uma imposição paterna de continuidade da linhagem, como é comum. Significava que a mãe havia escolhido este nome, esperançosa de ter um substituto para cuidá-la em caso de falta do original. A percepção deste aspecto elucidou para o paciente inúmeros aspectos de sua relação com a mãe, incluindo a culpa de não ser aquele que cuidava integralmente dela após a morte do pai.

Temos então aqui o caso de um aspecto decisivo do psiquismo que era inconsciente e que teve efeito terapêutico ao ser trazido à consciência. Porém ele não estava dentro do indivíduo, nos recessos do inconsciente recalcado. Estava fora, de posse da família, do ambiente. Podemos pensar em inúmeros outros exemplos no campo da religião, das ideologias e crenças de uma dada cultura. Os mitos e lendas também podem ser incluídos neste campo.

Novamente, é algo que cabe apenas listar, deixar consignado como existente e importante, para em um momento posterior ser talvez assimilado numa concepção abrangente que dê conta desta ampla gama de fenômenos diversos relativos à existência de aspectos inconscientes na vida mental.



5. qUestões da técnica

5.1 a técnica em três momentos

Daremos atenção aqui a algumas formas de setting e de técnica do trabalho analítico ou psicoterápico, propostas que estão relacionadas às considerações feitas anteriormente. 

5.1.1 a técnica psicanalítica

O setting analítico clássico é constituído pelo paciente deitado em um divã, falando de acordo com a proposta de associação livre de idéias, ou seja, comunicando tudo que lhe vem à mente sem reter nada e sem deixar de lado assuntos que possam lhe parecer estranhos, sem importância, absurdos, ridículos, ilógicos, sem conexão ou continuidade com o assunto do qual está falando, vergonhosos, angustiantes, incluindo comentários que pareçam ofensivos ao analista. O analista está fora do campo de visão do paciente, estando em estado de atenção flutuante enquanto ouve o relato deste. Faz suas intervenções sobre o processo basicamente através de intervenções verbais, privilegiando entre elas a interpretação, tomada como eixo da análise. Tudo se passa dentro da chamada abstinência analítica, onde se procura evitar o contato físico e a gratificação das necessidades e desejos do paciente. Alguns expressam esta regra através da frase: “a análise não é um lugar onde se realizam desejos, e sim onde se conscientizam desejos”.

5.1.2 a técnica reichiana

Reich, em seu livro Análise do Caráter, propõe quatro alterações em relação à abordagem freudiana clássica:

  1. a) o material analítico levado em consideração no tratamento deve abranger não só o conteúdo das comunicações do paciente, mas também a forma com a qual ele se expressa. Em outras palavras, deve se dar importância não apenas ao que o paciente diz, mas também a como ele diz. Este aspecto é decisivo especialmente quando se trata de lidar com resistências ocultas, traços de caráter e transferências negativas.
  2. b) a regra de associação livre de idéias é aplicável apenas quando não há resistência importante do paciente ao desenvolvimento da análise. Quanto houver resistência, o analista deve abandonar sua posição receptiva e passiva, substituindo-a por uma postura diretiva e intervindo ativamente até superar as resistências ao processo. Segundo Reich (1995, p. 22), “se nossos pacientes aderissem às regras fundamentais, ainda que aproximadamente, não haveria razão para se escrever um livro sobre análise do caráter. Infelizmente, só uma fração muito pequena de nossos pacientes é capaz de análise desde o princípio; a maioria deles adere às regras básicas só depois de as resistências terem sido dissolvidas com êxito.”
  3. c) o caráter, enquanto uma estrutura defensiva global e articulada do ego, assume papel destacado na concepção reichiana como um aspecto importante e decisivo do manejo das resistências ao longo do tratamento. É enfatizado o estudo das chamadas resistências caracterológicas, que devem ser abordadas clinicamente a partir de uma técnica específica chamada análise do caráter.
  4. d) propõe-se uma intervenção direta sobre o corpo a partir da concepção de que o conflito entre pulsão e defesa é algo que ocorre não apenas no âmbito psíquico, mas também abarca o campo do somático. Destaca-se a importância do aparelho locomotor e da respiração, por meio da noção de couraça muscular do caráter, daí decorrendo a possibilidade de tocar fisicamente o paciente e de propor movimentos e exercícios específicos com a finalidade de superar as resistências encontradas.

Na medida em que se priorizam as resistências na teoria e na técnica, acaba ocorrendo uma ênfase dos aspectos egóicos em detrimento do id e da abordagem direta do inconsciente. Reich concebe estas propostas não como opostas ao setting tradicional, mas sim enquanto complementações ao mesmo. 

Muitas vezes encontrou-se em seguidores de Reich um exagero de suas propostas, chegando mesmo em alguns momentos a algo realmente oposto ao setting psicanalítico. Mais realistas do que o rei, surgiram visões onde o conteúdo e o aspecto psicológico quase que desapareceram, substituídos por uma ênfase quase que absoluta na atenção sobre a forma e no trabalho corporal. O quadro é complementado por um terapeuta sempre ativo e intervencionista, que só pensa em termos de caráter, deixando de lado e negligenciando outros elementos do psiquismo. Acredito que este tipo de proposta não honra em nada a memória de Reich, pelo contrário. Provavelmente ele ficaria muito desgostoso ao tomar conhecimento deste tipo de abordagem. Tanto quanto, guardadas as devidas proporções, podemos imaginar que ocorreria com Jesus se ele soubesse dos horrores perpetrados pelo Santo Ofício (Inquisição) em seu nome.

5.1.3 a técnica biodinâmica

Há um resgate de aspectos do setting original na proposta da Psicologia Biodinâmica de Gerda Boyesen. Sem deixar de lado a intervenção somática, de algum modo recupera-se a valorização da passividade do analista, conceituada sob a denominação de técnica da parteira, onde o terapeuta atua dando espaço para um processo espontâneo que brota do paciente e onde o papel da intervenção diretiva adquire um valor relativo. Como já mencionado (ver p. 32), contra o excesso de intervenções afirma-se que “pouco é muito” (a little is a lot), deixando claro que as manifestações do paciente têm prioridade sobre a ação do terapeuta. O setting é construído de forma a facilitar, aumentar e acolher as manifestações do inconsciente do paciente, agora não só em termos verbais, mas também abrangendo expressões corporais e movimentos que surjam na sessão.

De acordo com Boyesen (1986, p.102),

As senhas durante a vegetoterapia são as seguintes: digo ao paciente: ‘Você pode dizer ou fazer o que quiser. Mas você não é obrigado a fazer ou dizer lá o que for. Simplesmente, não contenha nenhuma palavra ou movimento. Diga se existe alguma coisa que você queira que eu diga ou que eu faça (…) chamo este método terapêutico de método da parteira (…) o terapeuta deve estar separado de sua própria necessidade de estar ativo, de falar, etc., a fim de que possa estar passivo, paciente e que possa deixar desenvolver-se o processo dinâmico curativo”.

É dito ainda que “quando se vai um pouco mais longe no relaxamento profundo, as contrações musculares começam a se dissolver e o processo dinâmico supera as resistências. Aí está realmente o segredo da terapia biodinâmica: deixar o processo biodinâmico emergir das profundezas do corpo; as emoções surgem por si e se descarregam.” (idem, p. 105). Nos mesmos moldes de Reich, Boyesen afirma: “fiz uma distinção entre os pacientes que já tinham em si um processo dinâmico e aqueles que precisavam de uma intervenção de minha parte.” (ibidem, p.104). Ou seja, a postura passiva só se justifica quando não há resistência num grau que atrapalhe o trabalho analítico.

Esta proposta constelou-se dentro de uma abordagem que prioriza, a meu ver, aspectos “maternos”, em detrimento dos “paternos”. A questão da abstinência é pouco enfatizada, admitindo-se como importantes o contato físico através do uso de massagens, a maternagem e aquilo que Winnicott chama de holding.

Apesar da efetividade deste tipo de clínica e de sua difusão em vários países, muito se tem apontado para uma insuficiência da teoria que lhe corresponde. Por exemplo, Iaconelli (1997, p. 12-13) relata sua trajetória a partir de um tratamento biodinâmico:

A partir da riqueza dessa experiência, passei a buscar a teoria. Surpreendi-me quando percebi que a teoria biodinâmica está muito aquém da sua prática concreta. Existe algo que se vivencia nesse tipo de atendimento, que não pude encontrar nos textos disponíveis (…) Existem os textos, mas estes têm deficiências evidentes, por vezes tão grandes que chegam a ser desanimadoras; e só a riqueza da prática biodinâmica é capaz de manter o aprendiz animado na busca.

Segundo esta autora, “temos então um conjunto teórico pouco estruturado, carente de articulação.” (idem, p. 15), e “a prática biodinâmica carece de reflexão e formulação teórica que busquem delimitar sua fundamentação, sua originalidade e que lhe dêem ‘status’ propiciador de um diálogo mais rico com outras abordagens.” (ibidem, p. 73). A fundamentação aqui proposta pode ser uma resposta a este tipo de crítica. Ao priorizar a vertente psicanalítica da biodinâmica, podemos chegar a uma definição teórica mais consistente e coerente, permitindo resgatar o valor deste tipo de psicoterapia.

5.2 uma proposta de técnica

A partir do que foi exposto, e tendo em mente a idéia de que cada uma das abordagens tem sua lógica e seu sentido, procedo aqui à tentativa de uma proposta de técnica que integre e organize os diversos aspectos e possibilidades num todo coerente. É uma visão estruturada com base na noção de resistência, que procura articular o manejo dos vários graus e das diversas formas de ocorrência da mesma. Obviamente é uma proposta limitada por deixar de levar em conta, num primeiro momento de construção teórica, outros elementos fundamentais de um processo analítico ou psicoterápico. Especialmente a questão da transferência deverá ser examinada posteriormente para que esta proposta seja mais completa, dado que as alterações propostas ao setting analítico tradicional implicam em um grande impacto nos aspectos transferenciais do tratamento. Note-se que existem autores do campo reichiano que têm estudado o fenômeno da transferência no contexto da psicoterapia corporal, como Wagner (2000) e Samson (2002).

Outro tema a ser considerado é a polaridade entre os elementos que se convencionou denominar como “criação” e “revelação”. Dada a discussão levada a cabo neste trabalho, é claro que os aspectos de revelação do recalcado adquirem aqui maior importância, mas isto não quer dizer que a outra abordagem não deva ser explorada e desenvolvida também, dado que as duas formas de conceber o trabalho analítico são, na minha opinião, complementares e não opostas.

Como mencionado acima, o conceito organizador desta proposta é de que, ao longo de um tratamento psicoterápico, pode existir uma resistência do paciente ao mesmo. Esta resistência varia (em quantidade e qualidade) de pessoa para pessoa. Ela varia ainda ao longo do tempo para um mesmo paciente, ocasionando fases do tratamento com maior ou menor resistência, podendo inclusive ser diferente em momentos diversos de uma mesma sessão. Assim, tudo girará em torno da quantidade e da qualidade de resistência existente para cada momento de cada sessão de cada paciente.

Ou seja, propõe-se uma postura geral que deverá levar em conta, para sua aplicação, uma leitura atenta da especificidade de cada pessoa e de cada momento do processo analítico. É o que eu costumo chamar de postura do alfaiate: em vez de usar a mesma roupa pronta para todos, busca-se criar uma que se adapte às medidas específicas daquele que é atendido. Dá mais trabalho, mas evita-se o risco de ter algo como uma calça que se ajusta bem na cintura mas não no comprimento, ou vice-versa. Na medida em que as pessoas são muito diferentes umas das outras, toda regra geral acaba sendo burra. Pode-se dizer que este é o primeiro princípio proposto: cada um é um. Cada indivíduo constela-se psiquicamente de um modo específico e diferente dos demais, e isso é complicado pelo fato de que a mesma pessoa não é igual a si mesma em diferentes momentos de sua vida, e isto leva ao segundo princípio: tudo muda o tempo todo. Claro que há regularidades, senão toda psicologia seria impossível. Entretanto, como postura tática, devemos ter ao fundo as teorias gerais sobre a teoria e a técnica, colocando porém em destaque e no centro das decisões a atenção à especificidade do momento vivido no aqui e agora pelo paciente em seu vínculo com o analista. 

Considerando a quantidade de resistência, proponho que este tema seja visto como um continuum onde podem ocorrer infinitos graus de variação entre dois pólos: de um lado, a resistência absoluta e impenetrável; de outro, a ausência completa dela. Quanto menor a resistência, mais os conteúdos recalcados inconscientes podem aflorar sem distorções. Portanto, neste último caso, não há importância nenhuma em termos da técnica ou da intervenção do analista, a não ser no sentido de não atrapalhar o processo, o que pode ocorrer, por exemplo, quando se interrompem as comunicações do paciente ou se descuida das condições do setting que propiciaram a diminuição ou eliminação da resistência. 

Pela mesma lógica, quanto maior a resistência encontrada, maior será o papel diretivo do analista. Isto também parece óbvio, e é um dos pontos enfatizados brilhantemente por Reich: se há uma forte resistência, não levará a lugar algum a postura de abrir espaço para as associações livres do paciente. Se existe uma barreira na estrada, de nada adianta dizer ao motorista que ele pode seguir em frente. O que se espera é que alguém remova este obstáculo para que a viagem prossiga. Se é o caso de uma baixa resistência, pode ser suficiente uma intervenção do analista apontando a existência da barreira, e o próprio paciente/viajante se encarregará de eliminar o que o impede de continuar seu caminho. Esta analogia é útil para clarear o fato de que, a depender da importância do obstáculo a ser removido, a conduta deverá ser diferente. Um galho de árvore ou um pequeno alagamento poderão ser superados com um pouco de esforço e coragem por parte do motorista apenas. Um tronco de árvore ou uma vaca morta necessitarão de uma ajuda externa e colaboração para que sejam removidos da estrada. Uma ponte que caiu, uma grande pedra que rolou sobre a estrada, ou ainda o temor de criminosos que se supõe estarem mais à frente, são aspectos que requerem uma intervenção externa ainda mais forte e decisiva.

 Seria este então o terceiro princípio: o analista poderá ser mais ativo ou mais passivo, ter a direção do processo analítico ou deixá-la nas mãos do paciente. Ambas as posturas têm sentido, dependendo do contexto específico, inclusive a escolha de graus intermediários entre os extremos. A opção pelo grau de diretividade do analista deve ser feita a cada momento em função do grau de resistência existente naquele momento: é muito freqüente que a um momento de fluidez no processo analítico siga-se subitamente, na mesma sessão, um período de resistência. Ou o contrário: depois de um início frio e resistente, abre-se a comunicação. Todo bom terapeuta sabe que muitas vezes o sucesso de uma sessão depende de um bom aquecimento, de uma preparação para se chegar aos conteúdos recalcados. Ou seja, o comando do processo é atribuído ao paciente ou ao analista conforme o grau de resistência em cada momento do processo

Um quarto princípio seria a atenção à qualidade da resistência. Além da resistência descrita por Freud, Reich introduz o estudo de dois aspectos qualitativos: a) a resistência que está ligada ao caráter; b) a resistência que pode ser oculta ou latente. Partindo de sua idéia da existência de resistências oriundas da estrutura de caráter do paciente, Reich mostra que certas resistências são decorrentes da forma de ser do paciente. Outro elemento importante estudado por ele é a possibilidade da resistência ser oculta, e que exatamente por esta característica apresenta dificuldades em seu manejo. O analista não treinado poderá achar que não há resistência e tomar um caminho equivocado em suas intervenções. Existem complicações na abordagem deste tipo de resistência pelo fato dela muitas vezes ser inconsciente para o paciente. Outro aspecto complicador é que o traço de caráter normalmente está estruturado na personalidade do indivíduo, tem longa duração (desde a infância em geral), sendo, portanto, difícil conseguir uma mudança do mesmo.  Pode ocorrer, assim, uma identificação com o traço de caráter que constitui a resistência, e o paciente reage dizendo algo como “mas eu sou assim, esse é o meu jeito de ser” (querendo com isso dizer que é impossível mudar), quando se lhe aponta o obstáculo ao tratamento que aquele traço constitui. Por tudo isso, a proposta de Reich, com a qual concordo, é que esta forma de resistência só pode ser eliminada quando se usa uma técnica específica, que ele criou e denominou de análise do caráter. Em outras palavras, quando ocorre uma resistência caracterológica (o que não é incomum), o analista deve obrigatoriamente lançar mão deste instrumento criado por Reich, ou então correr o risco de ter em mãos um processo analítico estéril, inviabilizado pela resistência constelada no jeito de ser do paciente.

Outra forma de resistência diferente da descrita por Freud é aquela constituída a partir de aspectos somáticos. Com seu conceito de couraça muscular do caráter, Reich inovou a teoria da psicanálise, propondo a existência de mecanismos de defesa que funcionariam em conexão com o tônus da musculatura. Desta forma, abre-se a possibilidade de intervenção sobre esta forma de defesa a partir de um trabalho direto sobre o corpo do paciente. Por exemplo, afrouxando a tensão muscular (e as defesas contra o recalcado) por meio de massagens, o que explicaria o efeito psíquico e emocional deste tipo de intervenção. A partir desta concepção, pode-se entender o que ocorre quando um paciente que, em meio a um tratamento psicanalítico que está meio empacado, tem recomendado que se submeta a sessões de massagem e/ou terapia corporal, tendo como resultado que sua análise volta a ser ativada. Isso ocorreria pelo fato de que o trabalho corporal fez diminuírem as defesas, com isso permitindo maior contato do paciente com seu inconsciente (com maior facilidade para sonhos, associações, comunicações carregadas de afeto, recuperação de memórias e acesso a insights). Um quinto princípio seria então o trabalho sobre as defesas psíquicas que estão ancoradas em processos somáticos (musculares, tissulares e viscerais).

Reich enfatizou a questão da hipertonia muscular no seu estudo dos aspectos somáticos da defesa psíquica. Outros autores acrescentaram novos elementos à sua concepção, como a hipotonia muscular e outras formas de “couraça”, como as couraças tissular e visceral propostas por Gerda Boyesen (1986).

Como decorrência dos pontos discutidos acima, o analista deve ser capaz de perceber como se apresenta a resistência não apenas em seus aspectos quantitativos como qualitativos, em todas as suas combinações. Pode haver um paciente com altíssima resistência a trabalhar as defesas corporais, média resistência a trabalhar o caráter e uma resistência quase nula a trabalhar outros aspectos da resistência. Ou pode haver alguém com baixa resistência a trabalhar o caráter e o corpo (por exemplo, um estudante de psicoterapia reichiana), mas com alta resistência a olhar para outros aspectos.

Até aqui a abordagem da resistência ocorreu basicamente através de uma abordagem do pólo defensivo do conflito entre pulsão e defesa. Um sexto princípio seria a possibilidade de trabalho com o pólo pulsional. Como foi visto anteriormente, Freud afirmou que um “enfraquecimento do que é detestável” poderia substituir o recalque, pois a retirada da catexia de um representante da pulsão faria com que este não pressionasse, ou pressionasse menos, em direção à consciência e à ação. Como discutido nos comentários sobre o parágrafo 16 do texto de Freud (1915 b), muito se pode fazer pelo trabalho neste aspecto.

O emprego da leitura corporal, ou seja, a valorização dos elementos de comunicação não-verbal manifestados na relação analítica, pode ser considerado um sétimo princípio. Como dito anteriormente, neste tipo de abordagem, o “olhar analítico” adquire tanta importância quanto a “escuta analítica”.

Pode-se ver como um oitavo princípio, decorrência lógica dos anteriores e de outras considerações, que o setting é variável. Isso significa, por exemplo, que a distância entre paciente e analista pode variar conforme o caso – algumas pessoas necessitarão de pouca distância, para que o calor humano do contato próximo derreta as resistências. Outras, entretanto, acharão essa mesma proximidade invasiva e suas resistências serão menores quando a angústia trazida por essa ameaça é reduzida por meio de um afastamento físico entre os participantes da sessão. Além disso, o psicoterapeuta não precisa ficar aparafusado na cadeira durante uma mesma sessão: ele pode circular, ficando mais próximo ou distante conforme o decorrer dos acontecimentos, pode mudar o ângulo de interação, pode mudar sua postura.

Em certas fases do processo de certos pacientes é muito útil o setting analítico tradicional. A posição relaxada e a falta de contato visual induzem um contexto propício ao contato do paciente consigo mesmo, ao mesmo tempo em que a ausência de contato físico assegura que não será invadido. O material trazido pelo paciente pode aparecer sob a forma clássica de relatos verbais, mas há também a liberdade para que isso ocorra por meio da chamada associação livre de movimentos, onde posturas, gestos, sons e movimentos expressivos podem ocorrer.

Mas muitas vezes ocorre uma variação dessa forma de funcionamento com pacientes para os quais o contato físico não é problema. Utilizo então a posição analítica, acrescentando a ela o apoio da cabeça do paciente com as palmas das mãos, enquanto os dedos trabalham sobre a nuca e parte posterior do pescoço. O afrouxamento da resistência ancorada nas tensões em sua nuca e pescoço pode contribuir para o surgimento do material recalcado. Uma vantagem adicional desta posição é que muitas pessoas referem uma sensação de conforto e apoio pelo fato de trem a cabeça repousando sobre minhas mãos, e isso facilita o derretimento das resistências. 

Mas estas formas não são as únicas, podendo uma sessão ocorrer com os participantes em pé, sentados, em movimento ou que outra maneira se perceba ser efetiva para os objetivos.

Ainda um nono princípio geral pode ser definido como a necessidade de estruturar o setting, a abordagem, a técnica e o manejo da relação no sentido de ter como resultado a diminuição ou eliminação da resistência. Como cada pessoa é diferente, a estratégia também será diversa em cada caso. Para alguns, o importante é sentir-se acolhido e protegido. Isso fará com que as defesas baixem a guarda e deixem vir à tona o que estava guardado. Para outros, talvez porque tenham sido muito manipulados na infância, isto terá efeito contrário. Certa vez um paciente pediu-me indicação de um psicoterapeuta para sua namorada. Assim o fiz, e algum tempo depois ele relatou que a garota não havia gostado da psicoterapeuta indicada, pois lhe parecera “boazinha” demais. Ou seja, ela precisava não de alguém que fosse acolhedor e atencioso, mas de um psicoterapeuta mais franco e direto, que apontasse seus conflitos sem muitos rodeios, sem “sedução”. 

Ter colo e cuidado, que para alguns pode parecer um paraíso uterino reencontrado, para outros parecerá invasivo. Por outro lado, o que para estes últimos parecerá uma distância que não os ameaça e que por isso afrouxa as defesas, para aqueles primeiros parecerá muito frio e distante. Do mesmo modo temos a questão do prazer: como Reich afirmou, o amor e o prazer produzem normalmente uma expansão do organismo e um afrouxamento da couraça, de maneira que proporcionar prazer físico (com uma massagem, por exemplo) pode ter um grande efeito terapêutico neste sentido. Para outras pessoas o prazer trará uma conotação de perigo ou risco de abuso sexual, levando a um aumento das defesas e da resistência. Podemos pensar ainda na possibilidade de um setting lúdico e alegre, que use técnicas como desenhos e dramatizações, trazendo descontração e fluência na tarefa de lidar com o recalcado. Entretanto, algumas pessoas ficarão mais fechadas num contexto desse tipo, achando-o bobo e superficial.

A questão da confiança no analista ou terapeuta, o sentir-se seguro no setting, pode ser um fator decisivo. Uma pessoa submetida a tratamento biodinâmico nos conta, por exemplo: “eu sabia que, se eu mergulhasse dentro de alguma coisa, que o massagista ia ficar comigo, que ele não ia escapar e ir por outro caminho (…) a prioridade dele era me acompanhar.” (Iaconeli, 1997, p. 55).

O importante aqui é perceber a dinâmica do caso e fazer aquilo que é eficaz para diminuir a resistência. Freqüentemente isso significa não repetir o padrão de relacionamento do paciente com seu pai, mãe e irmãos. Esses padrões arraigados criam um campo transferencial e contratransferencial que tende a puxar o psicoterapeuta para dentro de sua própria dinâmica, fazendo-o repetir situações e conflitos vividos pelo paciente em sua infância. Estar atento a isto já é um bom começo.

O décimo e último princípio consiste em lembrar que o equilíbrio neurótico foi um jeito  encontrado pelo paciente para sobreviver num ambiente psicológico hostil. É como uma muleta que lhe permite andar e que, numa dada situação infantil, foi provavelmente a melhor solução possível, dentro dos recursos existentes então. Como houve uma fixação, o paciente inconscientemente reage como se a análise ameaçasse jogá-lo de volta ao conflito original, sem perceber que agora a situação é outra, onde seu poder e seu conhecimento são infinitamente superiores. Por isso, é preciso entender a resistência como se ela procurasse proteger a pessoa do “mal”, fazer amizade com essa resistência, não tentando destruí-la ou quebrá-la e sim dissolvendo-a aos poucos. Sempre dentro de um ritmo e uma intensidade que sejam assimiláveis e nunca chegando ao ponto do que é excessivo. O risco aqui é a formação de uma defesa secundária que impedirá o progresso desejado. Na analogia com a muleta, qualquer aleijado reagirá raivosamente se quisermos roubar-lhe o apoio sem o qual cairá no chão. Mas se o convencermos de que a vida pode ser melhor sem muletas, e lhe oferecermos um programa de fisioterapia convincente que fortaleça suas pernas gradualmente, ele será o primeiro a colaborar com o processo e estará ansiando pelo momento em que poderá abandonar suas muletas.

anexo 1 – definições

  1. Introduzindo um neologismo

Chamo de psicobiodinâmica uma visão que combina o entendimento psicodinâmico da resistência e da transferência com elementos somáticos: a leitura corporal (a atenção ao como o paciente se comporta); o conhecimento de formas de intervenção somática que possam influir na dinâmica psíquica; a incorporação da informação proprioceptiva como material analítico. 

Em outras palavras, pode ser entendida como uma visão psicodinâmica que incorpora o biológico de um modo mais concreto, não só o corpo erógeno, mas também o corpo-organismo. Ou seja, continua o caminho de Reich de partir de uma fundamentação psicanalítica para chegar a uma abordagem corporal. Isso pode se dar, por exemplo, a partir da atenção a elementos da comunicação não-verbal como forma de comunicação inconsciente de derivados do material recalcado, ou da intervenção corporal sobre a hipertonia muscular como forma de afrouxamento das defesas e da censura.

Complementarmente, é uma visão biodinâmica que aprofunda sua fundamentação psicanalítica. Gerda Boyesen sempre enfatizou a influência das idéias freudianas na criação da Biodinâmica. O que chamo aqui de psicobiodinâmica é uma radicalização deste componente freudiano, que passa a ser o eixo estruturante básico da teoria. Com isso, a intervenção clínica e a abordagem do caso permanecem muito parecidas com o que se faz tradicionalmente em psicoterapia biodinâmica, mas o entendimento do que se faz e do porque se faz pode mudar bastante ao fundamentar-se num referencial teórico que prioriza intensamente os elementos psicanalíticos.

A partir dessa visão psicobiodinâmica, iremos perceber que o essencial é a compreensão do caso, da dinâmica do paciente e da relação estabelecida com ele pelo analista. Só a partir disso é que vamos então nos ocupar das técnicas, vistas como instrumentos para viabilizar uma mudança desejada no equilíbrio de forças neurótico, como formas de operacionalizar a intervenção planejada. A técnica sendo, portanto, um fator operacional e secundário, e nunca o elemento principal da psicoterapia.

Ao enfatizar os elementos psicanalíticos da biodinâmica, resta a questão da importância relativa a ser atribuída aos elementos de outras abordagens que foram incorporados por Gerda em sua formulação original da Psicologia Biodinâmica. É um tema que está fora do âmbito deste trabalho, mas que precisará ser aclarado no refinamento da abordagem aqui proposta, notadamente quanto a concepções reichianas (o papel da auto-regulação e da bioenergia, por exemplo), junguianas e da psicologia humanista (neste último caso, há importante contribuição em Iaconeli, 1997, p. 26-38).

 

  1. Vocabulário da psicanálise

Há uma grande e antiga polêmica sobre qual seria a tradução correta das concepções de Freud. Não cabe aqui discutir essa questão, sendo apenas importante declarar minha adesão neste artigo às propostas contidas no “Vocabulário da Psicanálise” de Laplanche e Pontalis. Ela se deu por:

  1. a) Concordar com a maioria de suas opções, que considero bastante adequadas e fiéis, dentro do possível, às formulações originais
  2. b) Didaticamente, é de grande utilidade para quem lê ou estuda Freud, ter acesso a um texto (o “Vocabulário” citado) onde cada termo é explicado e comentado, e onde se remete aos textos originais em que o tema é discutido. Creio que principalmente o trabalho do aluno fica bastante facilitado com isso, e minha alma de professor se alegra e se alivia com essa possibilidade.
  3. c) Essa foi a opção feita também quando da revisão técnica (ver Rego, 1995) por mim realizada no “Análise do Caráter” de W. Reich, e acredito ser importante haver uma coerência de linguagem entre os diversos textos da área.

Dada essa opção, e como a tradução de algumas palavras-chave utilizada na Edição Standard Brasileira da Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud é bastante diferente da proposta pelo “Vocabulário”, resolvi listar a seguir alguns destes termos mais importantes. São feitos comentários breves, com a finalidade de situar rapidamente o leitor, mas alerta-se para o fato de que uma compreensão efetiva só poderá se dar através da consulta aos verbetes do “Vocabulário” e outros textos da área. Segue-se a seguinte fórmula: (termo usado na Edição Standard Brasileira) = (termo proposto na edição brasileira do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis). A: (termo original usado por Freud em alemão), I: (termo usado na Standard Edition de Freud em inglês). (Breve comentário, baseado no “Vocabulário” mencionado) (páginas desse livro onde se encontra a citação).

CATEXIA = Investimento. A: Besetzung. I: cathexis. “Conceito econômico. O fato de uma determinada energia psíquica se encontrar ligada a uma representação ou grupo de representações, a uma parte do corpo, a um objeto, etc.” (p. 254).

FORMAÇÃO DA REAÇÃO = Formação reativa. A: Reaktionsbildung. I: reactionformation. “Atitude ou hábito psicológico de sentido oposto a um desejo recalcado e constituído em reação contra ele (o pudor opondo-se a tendências exibicionistas, por exemplo)” (p. 200).

IDÉIA = Representação. A: Vorstellung. I: idea ou presentation. Aquilo que “forma o conteúdo de um ato de pensamento” (Lalande, cf. cit. Em Laplanche & Pontalis, p. 448). Pode se dividir em representação de coisa (p. ex. imagens) e de palavra.

INSTINTO = Pulsão, A: Trieb. I: instinct ou drive. “Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética, fator de motricidade) que faz o organismo tender para um objetivo. Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal (estado de tensão); o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional” (p. 394). Pulsão é “a força que ataca o organismo a partir de dentro e o impele a realizar ações suscetíveis de provocarem uma descarga de excitação” (p. 395).

IMPULSO INSTINTUAL = Moção pulsional. A: Triebregung. I: instinctual impulse. “A pulsão sob o seu aspecto dinâmico, ou seja, na medida em que se atualiza e se especifica num estímulo interno determinado” (p. 285).

REPRESSÃO = Recalque. A: Verdrängung. I: repression. “Operação pela qual o sujeito procura repelir ou manter no inconsciente representações (pensamentos, imagens, recordações) ligadas a uma pulsão”. “Pode ser considerado um processo psíquico universal, na medida em que estaria na origem da constituição do inconsciente como campo separado do resto do psiquismo” (p. 430).

As dificuldades de tradução de Verdrängung merecem um comentário especial, e parecem confirmar o provérbio italiano tradutori: traditori, ou seja, os tradutores são sempre traidores do original. Isso fica bem evidente a partir dos comentários de Luiz Hanns no “Dicionário Comentado do Alemão de Freud” (Hanns, 1996, p.355 – 67).

Segundo ele, verdrängen significa desalojar, empurrar para o lado, deslocar. Algo como o deslocamento da água quando se entra numa banheira. O termo remete a uma conotação de incômodo ou sufoco, que seria o “que leva o sujeito a desalojar o material que o incomoda. Contudo, apesar de ter sido expulso, tal material permanece junto ao sujeito, pressionando pelo retorno e exigindo a mobilização de esforço para mantê-lo longe. Tais conotações coincidem, grosso modo, com aspectos de emprego do termo no contexto psicanalítico”. (idem, p.355).

“Se após a imersão de um corpo numa bacia cheia o retiramos do líquido, a água deslocada (verdrängt) anteriormente não encontrará mais resistência à pressão que exercia sobre o corpo e irá de imediato reocupar o espaço anterior”. (ibidem, p.356).

Hanns afirma que alguns significados de reprimir estão ausentes no termo alemão, como os de oprimir, impedir de se manifestar (a rebelião foi reprimida); e refrear sentimentos (reprimir seu ódio pelo adversário). Neste último sentido, enfatiza-se “a supressão conseguida por autocontrole e força de vontade”(ibidem, p.358), o que é diferente do emprego dado por Freud. Do mesmo modo, certos significados e conotações de Verdrängung estão ausentes no termo repressão, como o aspecto de desalojar, e de que aquilo que é deslocado permanece junto ao sujeito e exerce pressão contínua pelo retorno.

Quanto à palavra recalque, comenta ele que é originária da linguagem da construção, constituindo um termo específico não utilizado no português coloquial. Segundo ele, “na prática dos falantes do português atual, ‘recalque’ é quase como se fosse um termo cunhado exclusivamente para uso da psicanálise” (ibidem, p.358). 

Em outro texto, Hanns (1999) usa o termo “recalcamento” ao traduzir parte do artigo de Freud sobre o tema. Tal opção corrobora as afirmações acima, no sentido de considerar este termo mais adequado para a tradução do pensamento de Freud.

Pelo exposto acima, concordo com a opção feita pelos tradutores brasileiros do “Vocabulário da Psicanálise”, e creio que o termo “recalque”, apesar de suas limitações, pode refletir com mais precisão o pensamento original de Freud.

Quanto à discussão sobre a terminologia freudiana relativa aos conceitos de pulsão e representante da pulsão (ver nota de rodapé da página 4), percebe-se que aparecem nos textos de Freud duas versões contraditórias. Uma diz que a pulsão é o representante psíquico da excitação somática, enquanto outra equipara pulsão e excitação somática, que seriam representadas no psiquismo por idéias (representações) e afetos. Concordo com a visão de Laplanche e Pontalis (1991, p. 454-455) de que a diferença entre as duas formulações 

é apenas verbal: a modificação somática seria designada num caso pelo termo ‘pulsão’ (Trieb) e no outro pelo de excitação (Reiz), e o representante psíquico denominado no primeiro caso representante-representação e no segundo pulsão. Feitas esta observações, nem por isso deixa de subsistir, na nossa opinião, uma diferença entre as duas formulações. A solução segundo a qual a pulsão, considerada somática, delega os seus representantes psíquicos parece-nos ser a mais rigorosa, na medida em que não se limita a invocar uma relação global de expressão entre somático e psíquico, e mais coerente com a idéia de inscrição de representações inseparável do conceito freudiano de inconsciente.

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