Envelhecimento

Leia Maria Cardenuto

Antes de mais nada quero agradecer a minha amiga Rebeca Berger, que pensou em mim para ocupar um lugar nesta mesa, que seria dela, inclusive de direito pois ela é a pessoa do nosso instituto que tem um trabalho de fato com os idosos, num CAPS, aqui de São Paulo.

Depois, eu gostaria de mencionar como foi importante para mim esta oportunidade de poder olhar de frente para este tema, tão difícil, do envelhecimento.

Poderíamos pensar que está havendo uma certa reabilitação da “maior idade” quando vemos alguns dos nossos ícones da juventude, ainda produtivos, com saúde e vigor inalteráveis, ainda que  beleza dos rostos tenha mudado, como por exemplo Mick Jagger, Jane Fonda e muitos mais. Mas esta não é a realidade da maioria.

Entrando diretamente no assunto, é impossível dissociar o envelhecer da proximidade do fim da vida, ou seja, da morte.

Na medida em que a morte se configura como um mistério insolúvel, que o ser humano vem lutando através dos séculos para compreender e dominar, a velhice, como preâmbulo do fim, também desperta em nós os mesmos sentimentos: rejeição, medo e até pavor! Não poucos idosos apresentam em algum momento os sintomas da síndrome do pânico.

A perda do vigor, da forma física e da beleza que na nossa sociedade narcísica estão associados a juventude, faz com que o envelhecer se torne muito assustador.

Por isto vamos ver porque encaramos até com naturalidade as angústias, e as defesas erguidas contra o medo do envelhecimento.

Minha contribuição para o nosso pensar, vem principalmente de tres pesquisadores, Joel Birman, professor universitário e Psicanalista carioca,  Eclea Bosi, professora titular de psicologia social da USP, pesquisadora da velhice e da pobreza de São Paulo, e Manoel Tosta Berlink, outro psicanalista que se dedicou ao tema.

Birman coloca a questão da velhice numa perspectiva sócio-histórica quando afirma que  a ordenação da vida em etapas é uma invenção recente, datada da transição do sec. XVIII para o XIX. Ele se baseia em Michel Foulcault, que diz que a sociedade foi constituindo um Biopoder, e assumindo uma característica de medicalizar o percurso da existência humana para poder produzir, reproduzir e acumular cada vez mais riqueza.

A velhice portanto é uma construção social. Como com o passar dos anos o individuo vai ver diminuída ou até perder a sua capacidade de produzir riqueza, esse biopoder é quem quer cada vez mais caracterizar o envelhecimento como doença. O exemplo disso é a marginalização da velhice principalmente na sociedade ocidental.

Mas temos que ter cuidado para fazer essa afirmação. O Japão, que é no oriente, principalmente depois da guerra, virou uma potencia capitalista. Vejam que interessante, que um cineasta japonês fez o filme A Balada de Narayama, de 1983, no auge do capitalismo selvagem, do taylorismo nos EUA e do toyotismo que se inicia no Japão e ganha o mundo através das multinacionais. Esse filme, que talvez alguns aqui se lembrem, foi ganhador da palma de ouro em Cannes, e fala exatamente da violência contra o idoso.

É uma lenda em que os idosos, quando não eram mais produtivos eram levados para as montanhas para morrer, o que distinguia o idoso era o fato dele perder os dentes, quando isto acontecia, seria levado embora. Uma senhora viúva, que se sentia um peso na família muito pobre do filho, pois representava mais uma boca para ser alimentada. Porém ainda era saudável, e tinha todos os dentes, e um dia em desespero, usa uma pedra para quebra-los para ser levada também.

Birman diz que nas sociedades tradicionais, tribos e comunidades longínquas, e principalmente nas sociedades pré escrita, o idoso tem um papel de ser o guardião das tradições, e é muito importante na transmissão de valores e da ancestralidade.

Vou contar essa mesma lenda oriental da maneira que ouvi, muito mais otimista, que Eclea Bosi relata no seu livro sobre o idoso e a memória:

…” isto se passa num lugar longínquo, nas montanhas, onde outrora se sacrificavam os velhos. Com o tempo não restou nenhum avô que contasse as tradições para os netos. A lembrança das tradições se perdeu. Um dia quiseram construir um sala de paredes de troncos para ser a sede do conselho. Diante dos troncos abatidos e desgalhados os construtores viram-se perplexos. Quem diria onde estava a base para ser enterrada e qual era o topo que serviria de apoio ao teto? Nenhum deles poderia responder: há muitos anos não levantavam construções de grande porte e eles tinham perdido a experiência. Um velho, que havia sido escondido pelo neto, aparece e ensina a comunidade a distinguir a base e o cimo dos troncos. Nunca mais um velho foi sacrificado.”

Ver o idoso pelo prisma da experiência que acumulou ao longo da vida, através da capacidade de lembrar, que é sua, de direito, é a forma de resgatá-lo dessa exclusão .

A psicanálise, que se baseia inteiramente na memória, também é contra o biopoder. A OMS até estabelece idades para se considerar alguém idoso, através de convenções e para constar também na legislação! Mas para Reich e também Lowen, a velhice não é doença e sim um processo da vida inteira.

Mas quando é que nos damos conta de que envelhecemos? Para nós o que desencadeia o envelhecimento pode ser um fato, um acontecimento marcante, uma perda ou até uma fala, que evidenciaria a proximidade da finitude.

Olhar para o espelho e não se reconhecer, “mas essa cara é a cara da minha mãe!” E o medo do desconhecido, o que ainda virá!

As rugas “borram” a expressão, é o “desmanche” da máscara, da cultura do novo e do politicamente correto. Pior, o corpo já não responde tão bem, próteses, incontinência urinária, perda da autonomia.

O desapego nessa fase é a solução possível, o desapego da forma, e até da simbiose que me leva a ter que parecer com o que já fui, ou com os meus ancestrais.

O trabalho, na clinica, é o trabalho do luto, que é a incorporação do objeto perdido de volta, no campo simbólico, na memória. Mas o pior é o luto antecipado de um objeto ainda não perdido, a própria vida.

A manutenção da própria identidade, diante do medo da fragmentação frente ao envelhecimento do corpo, sustentar a integridade diante do esfacelamento da rede social, é muito difícil. Pode-se entender essa passagem como uma crise, que desencadeada por algum tipo de falta, aproxima a pessoa da sua finitude. Diferente das crises da adolescência, também provoca uma revisão necessária das possibilidades reais de projetos nesse momento de vida.

Manoel Tosta Berlinck, outro psicanalista que também se ocupou deste tema diz que reagimos ao envelhecimento de três maneiras, basicamente;-paranoia, negação ou depressão, e considera, que no limite, a terceira é a melhor. Ele usa o termo Envelhescência, para descrever essa crise, que acredito ser uma maneira interessante de integrar o envelhecimento em um continuo de desenvolvimento.

Para mim, que aprendi com Liane as fases da psicologia do desenvolvimento, em que o ser parte do apego, para a autonomia, chegando a independência e a liberdade, características da maturidade, acredito que como final do processo precisa realizar o desapego, justamente.

A vida  começa no apego, na vontade de se ligar a algo, alguéns, e vai caminhando para cada vez maior integridade. Além da possibilidade de rever esta historia que só a maturidade pode trazer, o valor do idoso não pode estar apenas na memoria. Apesar da imensa importância desta, o que o idoso vai ter que realizar, e nesse ponto todos os autores concordam, é o trabalho do luto. Mas este luto é muito mais profundo. Não é apenas o incorporar o objeto perdido, como memória, mas também separar-se até dessas memórias e desapegar-se.   

Bibliografia

BERLINCK, Manoel Tosta (2000). Envelhescência. In: Psicopatologia Fundamental. São Paulo. Ed. Escuta.

BIRMAN, Joel (1995). Futuro de Todos Nos. In: terceira Idade, um Envelhecimento Digno para o Cidadão do Futuro. Rio de Janeiro. Ed. Relume Dumara.

BOSI, Eclea. O Tempo Vivo da Memória (2003). São Paulo. Ateliê Editorial.

Freud, Sigmund (1927). Duelo y Melancolia. In; Obras Completas. Madrid. Ed. Biblioteca Nueva.

GOLDFARB, Délia Catulo (1998). Corpo, Tempo e Envelhecimento. São Paulo. Ed. Casa do Psicólogo.

 

Esta crise, desencadeada por algum tipo de falta, traz para mais perto a finitude. Diferente daquelas crises da adolescência, também provoca uma desorganização, e uma revisão necessária das possibilidades reais de projetos nesse momento de vida.

A perda do vigor, da forma física e da beleza, que na nossa sociedade narcísica estão associados a juventude, faz com que o envelhecer, enyr se torne mais assustador.

       Poderíamos pensar que está havendo uma certa reabilitação da maior idade quando vemos alguns de nossos ícones da juventude, ainda produtivos, com saúde e vigor inalteráveis ainda que a beleza dos rostos tenha mudado, como por exemplo Mick Jagger, Jane Fonda, e muitos mais. Mas esta não é a realidade da maioria.

As angustias da envelhescencia podem atingir o idoso de maneira a dificultar de tal modo sua existência que acaba por gerar depressão, pânico e outros sintomas, prejudicando sua saúde e abreviando sua vida.

Reich, negando a pulsão de morte e defendendo a origem psicológica do caráter masoquista, como pulsão secundária, escreve no livro Análise do caráter que o envelhecimento e angustia não caminhariam juntos, e que o processo biológico de consolidação de estruturas (desde a formação da célula até a calcificação dos tecidos  na velhice), e que os processos de formação de estruturas são sinônimos da pulsão de morte este é um argumento que não se sustenta. Se assim fosse só os velhos teriam angustias, e “ sabemos que : “é justamente nos períodos de florescimento sexual que a função da angustia se evidencia de modo mais intenso, por causa da inibição.”

Assim, como entender essas angustias do idoso, que não são “naturais”?

 

Délia Goldfarb, outra psicanalista dedicada ao tema da velhice diz  que na velhice, mesmo a mais saudável há um fundo depressivo. E não é de se estranhar que o quadro que se apresenta com mais frequência em psicogerontologia é a depressão.

Além da perda do vigor físico, o que salva o idoso são as recordações revividas quando alguém, ou uma audiência se dispõe a ouvir o discurso de sua subjetividade:

“eu sou aquele de quem vos falo, apesar de não parecer, já que a imagem que tinha de mim mesmo se perdeu nalgum espelho do passado”.

Além disso, esta maneira de recontar a história seria uma tentativa de elaborar a perda, e fazer a trabalho do luto, de uma vida que vai chegando mais próxima do fim.