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SEXUALIDADE E COGNIÇÃO EM PRIMATAS


Ricardo Amaral Rego

Trabalho de conclusão da Disciplina

Etologia Cognitiva de Primatas
PSE 5816

 

Professor: Eduardo B. Ottoni
Instituto de Psicologia da USP – Pós-Graduação


Junho de 2001
R. Alm Marques Leão 785
01330-010 São Paulo SP
Fone: (011) 283-3055
E-mail: ric.rego@uol.com.br

 

 

 


Olho as minhas mãos
Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar...
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras!
Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento
Como tecem as teias as aranhas.
A que mundo
Pertenço?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar,
Mas nada, disso tudo, diz: “existo”,
Porque apenas existem...
Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheios de esperança e medo,
Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar...
Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da Criação!
Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos?
Quem faz – em mim – esta interrogação?
Mario Quintana
 

 

ÍNDICE
1. PRIMATAS ........................................................................................................................... 1
1.1 UMA INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 1
1.2 QUEM SOMOS .................................................................................................................... 2
1.3 CÉREBROS ......................................................................................................................... 3
2. COGNIÇÃO ............................................................................................................................ 8
2.1 ETOLOGIA COGNITIVA ......................................................................................................... 8
2.2 AS ORIGENS DA INTELIGÊNCIA .......................................................................................... 10
2.3 AUTO-RECONHECIMENTO ................................................................................................... 12
2.4 TAPEAÇÃO ......................................................................................................................... 13
2.5 IMITAÇÃO ............................................................................................................................ 14
2.6 EXISTE UMA TEORIA DA MENTE EM PRIMATAS NÃO-HUMANOS?.. ..................................... 16
2.7 USO DE LINGUAGEM ENTRE PRIMATAS NÃO-HUMANOS .................................................... 17
2.8 OS NÚMEROS E O VALOR ADAPTATIVO DA SIMBOLIZAÇÃO .............................................. 19
2.9 O COMPORTAMENTO EXPLORATÓRIO E O BRINCAR .......................................................... 20
2.10 CULTURA EM NÃO-HUMANOS ............................................................................................ 21
2.11 A DIFERENÇA ENTRE MACACOS (MONKEYS) E APES ...................................................... 22
2.12 O HOMEM PRIMATA .......................................................................................................... 22
3. SEXUALIDADE ....................................................................................................................... 24
3.1 A SEXUALIDADE “ANIMAL” ................................................................................................... 24
3.2 PUDOR ................................................................................................................................ 25
3.3 SEXUALIDADE INFANTIL ...................................................................................................... 28
3.4 A RECEPTIVIDADE SEXUAL DA FÊMEA .............................................................................. 30
3.5 QUEM FICA COM A FÊMEA AFINAL? .................................................................................. 31
3.6 O ORGASMO FEMININO ..................................................................................................... 32
3.7 MACHOS E FÊMEAS: PROMISCUIDADE E EXCLUSIVIDADE .... .......................................... 33
3.8 A “PAIXÃO” ......................................................................................................................... 34
3.9 HOMOSSEXUALIDADE ........................................................................................................ 35
3.10 INCESTO ........................................................................................................................... 38
3.11 ESTUPRO ......................................................................................................................... 38
3.12 ASPECTOS DIVERSOS ...................................................................................................... 40
3.12.1 MASTURBAÇÃO ............................................................................................................. 40
3.12.2 CONTRACEPÇÃO ........................................................................................................... 40
3.12.3 SEXO ANAL ................................................................................................................... 41
3.12.4 SEXO COM OUTRAS ESPÉCIES .................................................................................... 41
3.12.5 CRIMES PASSIONAIS .....................................................................................................41
3.13 ALGUNS PRIMATAS ESPECIAIS ....................................................................................... 41
3.13.1 MACACOS DE CAUDA CURTA (STUMP-TAILED) ............................................................. 41
3.13.2 OS BONOBOS ............................................................................................................... 42
3.14 SEXO COMO DIVERSÃO .................................................................................................. 44
3.15 TÓPICOS DE FISIOLOGIA DA REPRODUÇÃO ................................................................... 45
4. DISCUSSÃO ........................................................................................................................ 46
4.1 COGNIÇÃO E O ANIMAL HUMANO ..................................................................................... 46
4.2 SIMBOLIZAÇÃO ................................................................................................................. 47
4.3 A DOR DE SER ................................................................................................................ 48
4.4 PSICOLOGIA E CULTURA ................................................................................................. 50
4.5 A REVOLTA DAS MÁQUINAS ........................................................................................... 51
4.6 O “EU”: AUTONOMIA E INFORMAÇÃO .............................................................................. 53
5. ALGUMAS CONCLUSÕES ................................................................................................. 54
BIBLIOGRAFIA ..................................................................................................................... 55
ANEXO 1 – Entrevista com o Prof. Dr. Eduardo Ottoni ............................................................. 59
ANEXO 2 – Alguns comportamentos sexuais humanos ........................................................... 61
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Nós e os outros animais somos ao mesmo tempo iguais e diferentes, e a igualdade constitui o único quadro de referência sensato a partir do qual se pode fundamentar a diferença.
Frans de Waal
1. PRIMATAS
1.1 UMA INTRODUÇÃO
A partir do surgimento e da consolidação da teoria da evolução das espécies, ficou claro que o ser humano é um animal que, como todos os demais, possui algumas características próprias e algumas compartilhadas com outras espécies, em grau diferente segundo o grupo taxonômico a que estas pertençam.
Uma das características mais intrigantes dos humanos é a sua peculiar sexualidade. Conforme pode ser visto com maiores detalhes no Anexo 2, diversos aspectos da sexualidade humana parecem diferir do padrão habitual, vigente na grande maioria dos animais e plantas, de o sexo constituir um fenômeno direta e exclusivamente relacionado à reprodução. Ora, encontramos nos humanos a prática do sexo como diversão (Diamond, 1999), a adoção de práticas sexuais que não levam à reprodução (masturbação, sexo oral e anal, homossexualidade, fetichismo, voyeurismo, pedofilia, zoofilia, necrofilia etc.), os crimes passionais (eliminação de parceiros e descendentes por “amor”), e até mesmo práticas anticoncepcionais (anovulatórios, camisinhas, vasectomia, laqueadura de trompas, diafragmas, abortos provocados). Outras características curiosas, de um ponto de vista biológico, seriam a vergonha do ato sexual e das áreas ligadas à sexualidade, com a conseqüente ocultação destas regiões do corpo por roupas; e a aversão e eliminação dos estímulos olfativos próprios destinados à atração sexual, porém com o uso de odores de outros animais e plantas para atingir esta finalidade.
Outra característica diferencial importante dos humanos é o grande desenvolvimento de suas capacidades cognitivas, manifestado pelo uso sofisticado da linguagem, da capacidade de abstração e simbolização, do uso extenso de ferramentas, e da variação cultural, entre outros fenômenos.
Este trabalho busca examinar estes dois aspectos, colocando-os em perspectiva comparativa com os demais primatas, especialmente os hominóides (superfamília hominoidea, comumente conhecidos como apes1). O objetivo é examinar o que poderia ser especificamente humano e o que constitui um passo a mais dentro de uma tendência já esboçada em outros animais evolutivamente próximos. É discutível o quanto se pode extrapolar para o ser humano a partir da observação do reino animal. Lorenz (1992), por exemplo, com seu livro sobre a agressão, sofreu muitas críticas (p. ex. Fromm, 1979, p. 21-22) ao tirar conclusões sobre a agressão humana a partir de estudos com peixes e aves, filogeneticamente distantes dos humanos. Como exemplo das diferenças, de Waal (1990, p. 11) aponta que praticamente todos os pássaros e peixes evitam contato físico quando em estado de alerta, enquanto que para os primatas o modo mais direto de evitar a violência e o aumento de tensão social é através do contato físico direto. Mesmo comparações com parentes mais próximos têm sido criticadas: Hewes (1994, p. 60), por exemplo, afirma que “comparações entre o comportamento dos apes e o comportamento humano em geral têm pouca probabilidade de ter algum valor. A variedade e a complexidade da vida cultural humana é tão imensa que os apes revelam-se como
1 Existem algumas palavras da língua inglesa de tradução bastante difícil. Por este motivo, optou-se por deixar sem tradução dois termos: 1-apes, que abrange os apes menores (gibões e siamangues) e os grandes apes (gorilas, orangotangos, chimpanzés e bonobos) (ver Figura 1); e 2- grooming que, conforme descrito por Corraze (1982, p. 116-117), “trata-se, na origem, de um comportamento de asseio e, nos invertebrados sociais, o grooming parece restringir-se a essa única função. Ao envolver dois indivíduos (allogrooming), esse comportamento se vê acrescido de uma função social que é a ritualização da primeira. Durante a evolução, a atividade oral vai, pouco a pouco, cedendo lugar à manipulação, que será a forma privilegiada do grooming entre primatas. Neste último grupo, o indivíduo ativo concentra-se, com a maior atenção, numa parte do corpo do seu congênere, a qual é por ele manipulada. Pode extrair dela pelos ou partículas estranhas que eventualmente são levadas à boca”. O grooming adquire uma grande importância neste último grupo de animais, dada a “necessidade insaciável de contato que é característica da ordem dos primatas” (De Waal, 1990, p. 11).
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inevitavelmente obtusos (backward)”. Na verdade, como veremos a seguir, esta afirmação parece ser um tanto exagerada, e muitas características “humanas” aparecem de um jeito rudimentar, ou na forma de precursores, em muitos primatas. Por exemplo, Whiten e Boesch (2001, p. 50) afirmam que “as similaridades entre chimpanzés e humanos têm sido estudadas desde há muitos anos, mas na década passada os pesquisadores revelaram que estas semelhanças são muito mais profundas do que qualquer um imaginava anteriormente”. Desta maneira, creio ser válida a tentativa de comparação.
Segundo de Waal (cf. cit. em Small, 201, p. 93), “ao invés de ficar ligada ao quanto somos diferentes dos outros animais, a identidade humana deveria ser construída em torno de como somos animais que desenvolveram certas capacidades em um significativo passo adiante”.
Tenta-se ainda buscar uma relação entre estes dois campos da experiência humana (cognição e sexualidade), notadamente quanto à possibilidade de algumas características da sexualidade poderem ser explicadas por certos aspectos cognitivos específicos. A capacidade de abstração e simbolização, principalmente, podem levar a uma ampliação dos horizontes e a uma modificação das tendências “instintivas” em direções muito distantes do objetivo presumido inicial.
1.2 QUEM SOMOS
Acredita-se que, há cerca de 65 milhões de anos atrás, um imenso meteoro atingiu a península de Yucatan. Isso teria produzido alterações climáticas radicais, tendo como uma das conseqüências a extinção dos dinossauros. Com isso ficaram desocupados inúmeros nichos ecológicos, sendo muitos deles ocupados por membros de uma classe, originada há cerca de 165 milhões de anos, até então de pouca importância: os mamíferos.
Em algum momento, há mais de 55 milhões de anos, “algum pequeno mamífero comedor de insetos, que deve ter sido semelhante a um musaranho, subiu nas árvores, presumivelmente em busca de insetos polinizadores. Mas seus descendentes vieram a basear sua dieta substancialmente em elementos vegetais comestíveis da abóbada das árvores, uma mudança que preparou o cenário para o surgimento da ordem dos primatas” (Milton, 1993, p. 70).
Na Figura 1 pode-se apreciar um resumo do que se conhece hoje sobre a evolução e diferenciação dos diferentes grupos de primatas. Desde Darwin, acredita-se que “todas as espécies modernas descendem de um conjunto mais limitado de grupos ancestrais, os quais por sua vez evoluíram a partir de um grupo ainda menor de progenitores, e assim sucessivamente até o começo da vida” (Doolittle, 2000, p. 72). A organização de árvores genealógicas (ou filogenéticas) foi inicialmente feita com base na comparação de características anatômicas e fisiológicas, mas este método deixou muitos pontos de dúvida quanto à posição relativa de alguns grupos de animais. A diferenciação das várias espécies ficou muito mais clara com o surgimento da filogenia molecular, baseada na seguinte raciocínio: “os genes individuais, compostos por uma seqüência única de nucleotídeos, tipicamente serve como o molde para fazer proteínas específicas, as quais consistem de cadeias particulares de aminoácidos. Todos os genes, entretanto, sofrem mutação (mudança na seqüência), às vezes alterando a proteína codificada. Mutações genéticas que não têm efeito sobre a função da proteína ou que a melhorem irão acumular-se inevitavelmente ao longo do tempo. Assim, à medida que duas espécies vão progressivamente divergindo de um ancestral, as seqüências dos genes que elas compartilham irão também divergir. E à medida que o tempo passa, as divergências genéticas aumentarão. Os pesquisadores podem, portanto, decifrar o passado evolutivo das espécies vivas – podem construir suas árvores filogenéticas – ao ter acesso à divergência quanto à seqüência dos genes ou proteínas isolados destes organismos” (idem, p. 72-73). Com este método, é possível também chegar a uma estimativa quanto à época em que ocorreu a divergência a partir do ancestral comum. Segue-se daí que nós humanos, por exemplo, somos muito mais parecidos com os gorilas, bonobos e chimpanzés, com quem compartilhamos um ancestral há cerca de nove milhões de anos; do que com os macacos do novo mundo, com os quais tivemos um ancestral em comum por volta de 40 milhões de anos atrás.
Duas características se destacam como definidoras dos primatas: a vida social e o tamanho de seus cérebros. Para Napier e Napier (cf. cit. Em Martin, 1990, p. 357), “a característica mais
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distintiva dos primatas é o tamanho e a complexidade do cérebro”. Este último dado está em consonância com a sabedoria popular, segundo a qual os primatas em geral são tidos como espertos e inteligentes. Isso tem grande apelo para a imaginação humana, pois os aproxima de nós e aponta para um indício de resposta em relação à clássica pergunta “De onde viemos?” A biologia comprova amplamente esta percepção, ao colocar a espécie humana como um tipo de primata com um lugar bem definido em sua árvore filogenética.
Segundo Cords (1997, p. 24) “todos os primatas são sociais mas nem todos são gregários. Os primatas gregários vivem em grupos que persistem além do tempo de vida de seus membros individuais. Estes são geralmente „fechados‟, na medida em que há resistência à entrada de estrangeiros”. O fato de viverem em sociedade parece ter levado a uma série de conseqüências importantes no desenvolvimento das capacidades cognitivas e do modo de viver.
Coolinge (1993, p. 43) afirma que “tem sido sugerido que o viver em sociedade teria dado aos membros do grupo vantagens em termos de acesso a alimentos, proteção contra predadores, acesso a parceiros sexuais e assistência na criação dos filhotes”. De acordo com Byrne (1997, p. 292) “tendo de viver em grupo (por alguma razão não conhecida, talvez uma função da pressão dos predadores), isto levou, no decorrer de um tempo evolutivamente significante, a uma complexidade social aumentada, criando um ambiente no qual indivíduos com grandes habilidades sociais tinham vantagem. Assim, aumentos no cérebro (neocórtex) foram positivamente selecionados.... Os estrepsirrinos, socialmente mais simples – e não precisando de cérebros grandes – puderam subsistir numa dieta confiável mas de baixa energia, majoritariamente folívora; em contraste, os haplorrinos, socialmente mais complexos, requeriam tipicamente dietas altamente energéticas de frutas (ou carne) para dar conta de seu maior investimento em tecidos cerebrais metabolicamente dispendiosos”.
Diversos autores discutem as peculiaridades da vida social dos primatas, comparando-a com outros animais sociais e enfatizando aspectos de sua complexidade que, por um lado, exigiriam um desenvolvimento cognitivo como pré-condição e, por outro, determinariam um ambiente que favoreceria a seleção ainda maior nesse mesmo sentido. Para Cords (1997, p. 24), “as características que mais distinguem as sociedades de primatas, entretanto, são que seus membros (a) reconhecem e interagem uns com os outros enquanto indivíduos (b) ao longo de uma vida relativamente extensa de maneira que (c) interações anteriores influenciam as que ocorrem mais tarde”. Isso levaria a possibilidades múltiplas de interações complexas, demandando capacidades cognitivas desenvolvidas. Como exemplos existiriam relações de “amizade” entre indivíduos não-aparentados, coalisões e alianças, cooperação marcada por reciprocidade, reconciliações, desempenhos de papéis sociais como consoladores, mediadores e pacificadores. Uma outra característica que distinguiria os primatas das demais espécies seria o fato de que “estas relações sociais são cultivadas, protegidas e usadas” (idem, p. 43), revelando uma ainda maior demanda de capacidades cognitivas para dar conta desta tarefa. Outros autores também enfatizam a capacidade dos primatas de reconhecerem linhagens de descendência (Dasser, 1988) e pertinência a grupos, além de saberem localizar a si próprios e os demais quanto à posição dentro de uma hierarquia de dominância dentro do grupo (Cheney & Seyfart, 1988). Do mesmo modo, Byrne (1997, p. 291) aponta que “ganhos e perdas em encontros competitivos são freqüentemente decididos por interações triádicas; indivíduos podem confiar em apoio de terceiros, e freqüentemente dependem de uma rede de aliados”. Byrne & Whiten (1997, p. 4) comentam que “uma sociedade estruturada é sugerida pela existência de hierarquias de dominância estáveis, matrilíneas amplas, e padrões regulares e contínuos de pertinência ao grupo e de transferência entre grupos .... Em algumas espécies de macacos, a influência do apoio entre parentes é tão profunda que a colocação na ordem de dominância é „herdada‟, e não conquistada por demonstrações de poder e habilidade”.
1.3 CÉREBROS
O desenvolvimento cognitivo está relacionado ao desenvolvimento de seu substrato orgânico, o tecido cerebral, em termos quantitativos e qualitativos. Segundo Martin (1990, p. 357), uma das características que distingue a espécie humana em comparação com os outros animais é o tamanho
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de seu cérebro, constituindo um avanço ainda maior dentro do padrão de cérebros grandes dos primatas.
A avaliação do tamanho do cérebro é um assunto complexo. Se tomarmos o tamanho absoluto, veremos que há uma variação conforme o tamanho do corpo: por exemplo, o peso médio do cérebro de um elefante indiano é de 5,4 kg; e de 1,3 kg nos humanos. Devido a isto, têm sido propostos diversos índices que levam em conta a proporção entre o tamanho do corpo e o do cérebro. Na Tabela 1 podemos ver uma comparação deste tipo entre diversas espécies. Nesta Tabela é usado o índice de capacidade cranial, que parte de um padrão basal de correlação entre o tamanho do cérebro e o peso do corpo, e mede quantas vezes o cérebro de um dado animal é maior do que seria esperado segundo este padrão. Pode ser notado um gradiente de aumento do tamanho relativo do cérebro nos grupos taxonômicos mais próximos do Homo sapiens (ver Figura 1), havendo entretanto uma sobreposição de valores, onde muitas vezes uma espécie de um grupo mais distante dos humanos apresenta um cérebro relativamente maior do que uma espécie de um grupo mais próximo.
Existe também uma sobreposição de valores entre espécies de primatas e de outras ordens de mamíferos. Por exemplo, em relação ao índice de capacidade cranial e semelhantes, os humanos estão em primeiro lugar, mas o segundo é ocupado pelos golfinhos, e outros cetáceos exibem valores maiores do que a grande maioria dos primatas. De acordo com Martin (1990, p. 367), “isto deixa claro que os primatas não são tão agudamente distintos dos outros mamíferos, em termos de tamanho cerebral, como se tem freqüentemente afirmado”. Entretanto, se for levada em consideração a média destes valores dentro de cada ordem, os primatas estão em primeiro lugar.
Notam-se também diferenças qualitativas. O tamanho relativo do neocórtex tem sido considerado um dos mais importantes indicadores de desenvolvimento do sistema nervoso central em mamíferos. “O neocórtex deve seu nome à observação de que ele parece ser uma nova região do cérebro desenvolvida exclusivamente em mamíferos. Um neocórtex, como tal, não existe no cérebro de pássaros e répteis, embora nestes dois grupos de vertebrados tenha havido um desenvolvimento funcionalmente convergente do cérebro” (idem, p. 360). O paleocórtex constituiria, assim, a parte mais primitiva do cérebro, abrangendo basicamente as estruturas relacionadas ao processamento dos estímulos olfativos. Outra diferença qualitativa importante seria a comunicação entre os hemisférios: existe a comissura anterior, que em répteis, pássaros, monotremos e a maioria dos marsupiais constitui o único canal de intercomunicação entre o cérebro direito e o esquerdo. Já os mamíferos placentários apresentam, além daquela, o corpo caloso, indicando uma maior integração e complexidade funcional.
Alguns autores contestam o uso de índices que levam em conta o tamanho do corpo ao considerar o tamanho do cérebro: “se o tecido cerebral é usado computacionalmente, então o seu tamanho absoluto vai determinar o seu poder, sem ser afetado pela variação do tamanho do corpo. O tamanho do cérebro em relação ao tamanho do corpo é um bom índice da extensão da energia metabólica e de outras ordens investida em tecido cerebral, e assim da força da seleção por cérebros maiores ou corpos menores na evolução recente das espécies. O computador pessoal de alguém não funcionará mais eficientemente num quarto menor!” (Byrne & Whiten, 1997, p. 16). Os autores propõem como medida melhor o tamanho relativo do neocórtex em relação ao restante do cérebro.
Dunbar (1993) é um dos autores que usa um índice do tipo acima referido: em um estudo sobre a correlação entre características cerebrais e o tamanho do grupo em diversas espécies de primatas, o índice que melhor se prestou a isto foi a Razão Neocortical (Neocortex Ratio), que mede o volume do neocórtex em relação ao volume do restante do cérebro. Partindo da fórmula log(N) = 0,093 + 3,389 log(R), onde N é o número médio de membros do grupo, e R a razão cortical, o autor conclui que para os humanos (R=4,1), o tamanho médio do grupo seria de 147,8. Segundo o autor, este número “está próximo do tamanho observado em certos grupos distintos encontrados em sociedades humanas históricas e contemporâneas. Estes são invariavelmente grupos que dependem de um conhecimento pessoal extenso baseado em interação face-a-face para sua estabilidade e coerência ao longo do tempo”, ou seja, haveria “um limite superior para o tamanho de um grupo que pode ser mantido por contato pessoal direto” (Dunbar, 1993, p. 691).
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Figura 1 – A ÁRVORE FILOGENÉTICA DOS PRIMATAS*
(prossímios) (estrepsirrinos) PROSSIMII
lêmures, lórises
60-80 Ma (haplorrinos)
ORDEM PRIMATAE ? TARSIOIDEA
társios
(monkeys)
PLATYRRHINI
SUB-ORDEM macacos do novo mundo
(monkeys)
ANTHROPOIDEA CERCOPITHECOIDEA
(símios) INFRA-ORDEM macacos do velho mundo
(haplorrinos) (babuínos, rhesus, vervets etc.)
50? Ma CATARRHINI 40 Ma (lesser apes) HILOBATIDAE SUPERFAMILIA gibões, siamangues
HOMINOIDEA FAMÍLIAS ORANGOTANGO
(apes)
30 Ma PONGIDAE E
HOMINIDAE** GORILA
(great apes)
16-20 Ma
Ma = milhões de anos atrás 16 Ma HUMANO
(ramificação ocorrida aproximadamente há)
7-9 Ma
CHIMPANZÉ
6,2-6,7 Ma
BONOBO
2,0-2,5 Ma
* Figura baseada em material didático fornecido pelo Professor Eduardo B. Ottoni.
** As famílias Pongidae e Hominidae estão agrupadas dado que, pelas evidências atuais e como se pode ver pelas ramificações acima, não faria sentido um grupo taxonômico que agrupasse chimpanzés e gorilas, por exemplo, e excluísse os humanos.
Tabela 1 – Índice de Capacidade Cranial em alguns mamíferos.
(Extraído de Martin, 1990, p. 362-363)
NÃO-PRIMATAS PRIMATAS HAPLORRINOS
Insetívoros “basais” Társios
Tenrec ecaudanus 0,54 Tarsius spp. 3,7
Echinosores spp. 1,60
Macacos do novo mundo
Insetívoros “avançados” Saguinus spp. 4,3
Chrysochloris stuhlmanni 1,1 Cebus apella 11,7
Elephantulus rufescens 3,4
Macacos do velho mundo
Musaranhos arborícolas (tree-shrews) Theropitecus gelada 4,6
Urogale everetti 2,5 Macaca mulatta 8,2
Tupaia minor 4,6 Miopithecus talapoin 9,4
PRIMATAS ESTREPSIRRINOS Apes e humanos
Hylobates syndactylus 6,9
Lêmures Hylobates lar 8,8
Cheirogaleus medius 2,4 Pongo pygmaeus 7,7
Daubentonia madagascariensis 6,3 Gorilla gorilla 5,5
Pan troglodytes 8,2
Lórises Homo sapiens 23,0
Galago crassicaudatus 2,3
Arctocebus calabarensis 6,3
Nas Tabelas 2 e 3 estão alguns dados sobre o desenvolvimento relativo de algumas estruturas cerebrais, também em relação a um padrão basal. A diferença é mais marcante no que se refere ao neocórtex, mas também são significativos os valores relativos a estruturas límbicas (septum e amígdala, mostrando talvez uma maior sofisticação dos aspectos afetivos nos primatas mais próximos aos humanos), e ao cerebelo, esta última possivelmente ligada ao controle da fala e da manipulação fina de ferramentas.
Os dados da Tabela 3 são interessantes por mostrar uma tendência específica. Segundo Eccles (1995, p. 102), “existem dois componentes principais no sistema límbico, que correspondem aos efeitos agradáveis e desagradáveis”. De acordo com ele, “pode-se concluir que, no sistema límbico, a evolução tendeu a expandir aqueles componentes relacionados às experiências prazerosas e agradáveis (septum e parte cortico-basolateral da amígdala), enquanto que os componentes relacionados à agressão e raiva (porção centromedial da amígdala) permaneceram subdesenvolvidos” (idem, p. 104) e que, “na evolução dos hominídeos houve considerável crescimento dos núcleos do sistema límbico envolvidos em sensações prazerosas e em comportamento amigável. A Tabela 5.1 [aqui Tabelas 2 e 3] mostra que o índice de tamanho para o septum cresceu de 2,09 nos símios para 5,45 nos humanos, e para a amígdala lateral houve um aumento de 3,05 nos símios para 6,02 nos humanos. Em contraste, o núcleo relacionados à raiva e agressão, a amígdala medial, teve uma aumento menor no índice de tamanho, de 1,30 nos símios para 2,52 nos humanos” (ibidem, p. 113).
Note-se que a arquitetura histológica permaneceu basicamente inalterada, principalmente quanto ao córtex cerebral, e a disposição dos diversos tipos de células nervosas em camadas distintas é fundamentalmente a mesma seja no gato, no macaco ou no homem (ibidem, p. 43).
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Tabela 2 - Índices de tamanho de componentes cerebrais, em comparação aos Tenrecinae*. (Extraído de Eccles, 1995, p. 42)
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Tenrecinae Insetívoros Prossímios Macacos do Apes Homo
Novo e do
Velho Mundo
Medula oblonga 1,00 1,27 1,56 1,87 1,61 2,09
Bulbo olfatório 1,00 0,88 0,52 0,08 0,06 0,03
Córtex olfatório 1,00 0,94 0,65 0,34 0,31 < 0,3
Septum 1,00 1,22 1,91 2,09 2,16 5,45
Amígdala 1,00 1,10 1,73 2,24 1,85 4,48
Cerebelo 1,00 1,64 4,64 6,20 8,81 21,75
Hipocampo 1,00 1,75 2,91 2,64 2,99 4,87
Neocórtex 1,00 2,65 20,37 48,41 61,88 196,41
Índice de
Encefalização 1,00 1,43 4,24 8,12 11,19 33,73
*Tenrecinae – tomados como base (índice 1 por definição), são os mamíferos mais primitivos existentes. Supõe-se que seus cérebros sejam similares aos das formas extintas consideradas ancestrais de todos os mamíferos, inclusive primatas.
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Tabela 3 - Evolução da amígdala em comparação aos Tenrecinae.
(Extraído de Eccles, 1995, p. 105)
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Tenrecinae Insetívoros Prossímios Macacos do Gorila Chimpanzé Homo
Velho e do
Amígdala – Grupo Novo Mundo
Centromedial
% da amígdala total 46,80 46,80 31,10 26,50 26,40 27,40 24,70
Índice de tamanho 1,00 1,08 1,16 1,30 0,88 1,11 2,52
Amígdala – Grupo
Cortico-basolateral
% da amígdala total 53,20 53,20 68,90 73,50 73,60 72,60 75,30
Índice de tamanho 1,00 1,13 2,23 3,05 1,94 2,28 6,02
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2. COGNIÇÃO
2.1 ETOLOGIA COGNITIVA
Strum et al. comentam sobre a mudança de enfoque ocorrida nas últimas décadas na primatologia. Segundo eles, a partir da visão sociobiológica introduzida por Wilson em 1975, foi ficando mais clara a importância das relações sociais e das táticas e estratégias individuais em um contexto social. Uma das conseqüências foi que, “se as relações sociais refletem estratégias evolutivas, então os indivíduos devem estar manipulando outros visando um ganho egoísta” (Strum et. al., 1997, p. 51). Com o acúmulo de evidências nesse sentido, teria ocorrido uma verdadeira “revolução cognitiva” no estudo dos primatas, sendo que “a complexidade social veio a ser considerada o motor da evolução da cognição mais elevada” (idem, p. 52). Cunhou-se a expressão “inteligência maquiavélica” para designar o tipo de inteligência necessária para lidar com o ambiente social, diferente daquela voltada para o manejo do mundo “técnico”. Exemplificando este ponto de vista, Cheney e Seyfart relatam estudo sobre macacos vervet, onde concluem que existe um maior desenvolvimento das capacidades cognitivas relacionadas à interação social do que quanto a aspectos não-sociais: “dentro do grupo social, o comportamento dos macacos sugere uma compreensão de causalidade, inferência transitiva, e da noção de reciprocidade. Apesar de oportunidades freqüentes e de uma pressão seletiva freqüentemente forte, entretanto, um comportamento comparável não emerge prontamente ao lidar com outras espécies animais ou com objetos inanimados” (Cheney e Seyfart, 1988, p. 268). Entre outras características, este tipo de inteligência poderia abranger auto-reconhecimento e a capacidade de “ler mentes” ou ter uma “teoria da mente” (conhecer, e utilizar este conhecimento, sobre estados mentais de outros indivíduos, como crenças e desejos).
Para Griffin (1991, p. 7-8), “é concebível que o pensamento consciente seja uma realização unicamente humana, sendo totalmente ausente em todas as outras espécies. Mas mesmo se este ponto de vista extremo estiver correto, ele levanta uma importante questão científica: O que é diferente nos cérebros humanos a ponto de lhes permitir o surgimento da consciência, enquanto o sistema nervoso central de todas as outras espécies não têm esta capacidade apesar da similaridade, se não identidade, de todas as propriedades básicas dos neurônios e sinapses? Deste modo, a existência ou a natureza da consciência animal é uma questão central da maior importância científica. Se ela ocorre somente em nossa espécie, ou talvez sendo compartilhada apenas pelos nossos parentes mais próximos, os neuroetologistas devem buscar por aquelas propriedades que permitem a certos sistemas nervosos centrais, mas não a outros, a produção de pensamento consciente”. Segundo este autor, “a investigação da experiência mental e da cognição dos animais está começando a revelar que os animais guiam seu comportamento por um pensamento surpreendentemente complexo” (idem, p. 3).
Em artigo recente, Shettleworth (2001, p 277) examina os progressos nesse campo: “ao longo da maior parte do século XX, a etologia e a psicologia animal desenvolveram-se independentemente”, mas “recentemente, entretanto, os estudantes do comportamento animal têm testemunhado a emergência de um bom número de subcampos com nomes que prometem uma integração das abordagens psicológicas e biológicas relativas aos mecanismos de processamento de informações e de tomada de decisões nos animais”: etologia cognitiva, ecologia cognitiva, psicologia evolutiva, cognição comparada. De acordo com ela, “uma definição ampla de cognição inclui percepção, aprendizado, memória e tomada de decisões, em resumo, todas as maneiras pelas quais os animais assimilam informações do mundo através dos sentidos, as processam, as retêm e decidem como agir a partir delas” (idem, p. 278).
A autora alerta para o risco de um entusiasmo precoce com este novo campo, que poderia levar a uma interpretação distorcida de certos fenômenos do comportamento animal. Como exemplo, ela cita o fato de que “piolhos da madeira (wood lice) parecem buscar lugares escuros: eles se movem sem rumo quando estão na luz e param quando estão no escuro. Entretanto, máquina biológica ou feita pelo homem que se mova reflexamente na luz e pare no escuro tenderá a se congregar em locais escuros. Deste modo, embora o piolho da madeira pareça comportar-se como se estivesse buscando o escuro, a causa próxima de seu comportamento não inclui uma representação de lugares escuros, nem
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necessitamos presumir que os piolhos da madeira no escuro estão conscientes de haver alcançado seu objetivo” (p. 279-280).
Fragaszy e Visalberghi (1991, p. 65) chamam a atenção para o fato de que poderia haver uma tendência entre leigos e cientistas a privilegiar indevidamente os primatas, em comparação com outros animais, quanto às suas capacidades cognitivas, notadamente quanto a atribuir-lhes processos e recursos encontrados em humanos. Segundo elas, “os cientistas comportamentais têm maior probabilidade fornecer explicações „cognitivas‟ de ordem elevada para comportamentos em primatas do que para membros de outras ordens, talvez refletindo alguma noção intuitiva de que a continuidade cognitiva se estende dos humanos para outros primatas, mas não para outra ordens”. São mostradas algumas evidências de estudos revelando que o aprendizado social em mamíferos não primatas pode ser muito importante e significativo, e nem por isso os autores tentam explicar estes achados recorrendo a hipóteses que implicam em recursos cognitivos assemelhados aos dos humanos.
De Waal discute a questão do chamado antropomorfismo, caracterizado pela atribuição de características humanas a não-humanos e considerado por muitos uma forma de erro científico. Segundo o autor, entre tais críticos estariam os behavioristas, que veriam “as ações dos animais como respostas moldadas por recompensas e punições, e não como o resultado de tomadas de decisão, emoções ou intenções internas” (de Waal, 1997a, p. 50); e os adeptos da sociobiologia, que consideram “os animais como „máquinas de sobrevivência‟e „robôs pré-programados‟ colocados na Terra para servir a seus „genes egoístas‟” (idem, p. 52).
De acordo com ele, “a moderna biologia não nos deixa outra escolha senão a de concluir que somos animais. Em termos de anatomia, fisiologia e neurologia, nós realmente não somos mais excepcionais do que, digamos, um elefante ou um ornitorrinco. Mesmo as presumidas características distintivas da humanidade, guerra, política, cultura, moralidade e linguagem, podem não ser completamente sem precedentes” e “devemos ser bem cuidadosos em não exagerar o caráter único de nossa espécie” (idem, p. 52). Ou seja, se de um lado pode ser errado atribuir características humanas aos animais, por outro negar completamente que os animais (ou pelo menos alguns deles) tenham características “humanas” constituiria também um erro. Assim, do lado oposto ao antropomorfismo, estaria o que ele chama de “antroponegação: a cegueira em relação às características semelhantes às humanas de outros animais, ou às nossas características que são semelhantes às dos outros animais” (ibidem).
“Eu trabalho diariamente com animais dos quais é tão difícil você mesmo se distanciar quanto da Lucy, o famoso fóssil australopiteco de 3,2 milhões de anos atrás. Se devemos a Lucy o respeito adequado a um ancestral, isto não nos força a um olhar diferente em relação aos grandes macacos? Afinal de contas, tanto quanto é o nosso conhecimento atual, a diferença mais significativa entre Lucy e os chimpanzés modernos encontra-se nos seus quadris e não em seus crânios. Na medida em que admitamos que os animais são muito mais semelhantes a parentes nossos do que a máquinas, então a antroponegação torna-se impossível e o antropomorfismo torna-se inevitável – e cientificamente aceitável” (ibidem). Uma das conseqüências deste ponto de vista é o de que certos comportamentos de apes “são mais parcimoniosamente explicados do mesmo modo que explicamos nosso próprio comportamento – como resultado de uma vida interior complexa e familiar” (ibidem, p. 53).
De acordo com Beer, este tipo de visão não é novidade, e já Darwin “buscou expressamente estabelecer continuidades entre as capacidades mentais dos homens e dos animais” e discorreu sobre “os poderes mentais dos animais, incluindo curiosidade, atenção, imaginação, raciocínio, abstração e autoconsciência” (Beer, 1992 p. 72). Para T. H. Huxley (cf. cit. em Beer, 1992, p. 73) : “a doutrina da continuidade está bem estabelecida demais para me ser permitido supor que qualquer fenômeno natural complexo veio à existência subitamente e sem ser precedido por modificações mais simples; e seriam necessários argumentos muito fortes para provar que fenômenos complexos tais como a consciência fizeram sua primeira aparição no homem”.
Beer busca uma definição mais precisa deste campo, e afirma que a etologia cognitiva pode ser definida como o “estudo da experiência mental em animais” (Beer, 1992, p. 69). Para o autor, a
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filosofia vê tradicionalmente cognição como “a capacidade da mente de lidar com informação, incluindo sua recepção, estocagem e processamento. Assim, cursos de psicologia cognitiva tipicamente têm abarcado o tratamento da percepção, memória e pensamento” (idem). Porém os estudos em etologia “cognitiva” na verdade abrangem aspectos que ultrapassam a conceito mais estrito de cognição. Afirma ele que na filosofia e na psicologia ocidentais tem vigorado uma divisão das atividades mentais em três categorias: saber, sentir e querer; ou pensamento, sentimento e vontade; ou cognição, afeição e conação. Para Griffin (cf. cit. em Beer, 1992, p. 70), interessa saber “se animais outros além dos humanos têm experiências mentais subjetivas e, em caso positivo, como podemos tentar descobrir com o que essas experiências se parecem. São incluídas, portanto, a sensação e a conação, pelo menos tanto quanto a cognição no sentido tradicional, e esta última é de interesse principalmente na medida em que seja conscientemente realizada”. Portanto, “cognição, para o etologista cognitivo tem de ser entendida como incluindo atenção à sensação e ao sentimento, intenção e desejo, juntamente com pensamento e crença” (Beer, 1992, p. 74).
É apontada a necessidade de ampliação dos horizontes deste novo campo: “a etologia cognitiva pareceria estar assim em uma posição de buscar laços estreitos com a psicologia cognitiva e a filosofia da mente, e com a aliança destas duas com a ciência da computação, lingüística, neurociências e inteligência artificial no empreendimento chamado ciência cognitiva. Entretanto, tais laços têm sido até agora poucos e frouxos” (idem).
Beer aponta ainda o fato de que a etologia cognitiva está baseada no que ele chama de “psicologia popular” (folk psychology), que leva pouco em conta os avanços da ciência cognitiva. “Para uma efetividade pragmática, nós ainda consideramos o sol como se andasse em volta da terra, mas podemos mudar para o ponto de vista de Copérnico quando precisamos ser científicos a este respeito. Até agora, não temos nenhum paralelo ao ponto de vista de Copérnico no que diz respeito à teoria cognitiva psicológica” e “as dúvidas relativas à psicologia popular são suficientemente sérias para se ficar preocupado com elas caso se deseje evitar a possibilidade de se tornar o equivalente a uma seita que defende a idéia de uma terra plana” (ibidem, p. 104).
Traduzindo em números a importância dos estudos sobre cognição em primatas, Hebert e Courtois (1994) fizeram um levantamento das publicações científicas enfocando o comportamento dos grandes apes no período de 1967 a 1991. Ao classificar segundo o tema abordado, os artigos relacionados à cognição ocuparam o primeiro lugar, com 121 (18,5 %) dentre um total de 654. Note-se que o segundo lugar, com 14,4 %, foi ocupado por um assunto relacionado ao primeiro: a comunicação.
2.2 AS ORIGENS DA INTELIGÊNCIA
Existem diversas teorias que buscam explicar o grande desenvolvimento das capacidades cognitivas nos primatas. Milton (1993, p. 70) enfatiza os aspectos relacionados à obtenção de alimento: “as estratégias que os primeiros primatas adotaram para lidar com os desafios dietéticos do ambiente arbóreo influenciaram profundamente a trajetória evolutiva da ordem dos primatas, especialmente os antropóides (macacos, apes e humanos)”. Ela procura mostrar que a ingestão de frutas como fundamento da dieta requer uma maior capacidade cognitiva (memória de tempo e espaço, interação social para encontrar fontes de alimento), levando a um maior desenvolvimento do cérebro em relação às espécies que se alimentam principalmente de folhas. A autora concebe a evolução do cérebro humano como intimamente ligada à estratégia alimentar, onde a necessidade de uma dieta mais rica teria levado à caça, implicando cooperação, divisão de trabalho e uso de ferramentas: “a sobrevivência do indivíduo, assim, veio a depender de um certo número de habilidades tecnológicas e sociais. Isto exigiu não apenas um cérebro capaz de formar e reter um mapa mental dos suprimentos de alimentos vegetais, mas também que tivesse conhecimento de como procurar e transformar tais suprimentos. Além disso, a sobrevivência agora requeria uma capacidade de reconhecer que uma ferramenta de pedra poderia ser criada a partir de um pedaço de pedra e um sentido de como implementar esta visão. E exigia a capacidade de cooperar com outros (por exemplo, para comunicar sobre quem deveria correr atrás da zebra e quem iria na frente), de retardar a gratificação (para poder levar a comida até um local combinado onde todos pudessem compartilhar), e de determinar a porção
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justa de cada um e como obtê-la. Estas demandas sem dúvida serviram como pressões seletivas favorecendo a evolução de cérebros ainda maiores e mais complexos” (idem, p. 76).
Outros autores questionam este tipo de visão. Por exemplo Wynn (1988, p. 283) afirma que “as ferramentas não falam a favor de um papel central da tecnologia na evolução da inteligência”, e que “muitos antropólogos sentem que a complexidade nas culturas humanas está não nas ferramentas e na subsistência, e sim na política e religião. A intencionalidade da ação humana implica em que, no que concerne aos seres humanos, nós nunca podemos predizer o que vai acontecer em seguida” (idem, p. 284). Em outras palavras, esta hipótese afirma que a seleção teria favorecido o desenvolvimento dos primatas enquanto “psicólogos naturais”, e não tanto enquanto “engenheiros naturais”, como prega a outra visão, e que foi por muito tempo a dominante.
Byrne e Whiten (1997, p. 5) também enfatizam mais os aspectos sociais do que os “técnicos” como fator de desenvolvimento das capacidades cognitivas: “o aprendizado social é de valor incalculável para muitos pássaros e mamíferos: o fato de viver socialmente provê muitas oportunidades de aprender quais predadores evitar, que alimentos comer e onde encontrá-los, por exemplo. Mas se os primatas podem, além disso, imitar o comportamento adaptativo de outros, o seu potencial para lucrar com a vida social torna-se grandemente aumentado” (idem, p. 6).
Cords (1997, p. 35) afirma que os primatas “podem também induzir apoio, tanto pela reciprocidade de atos suportivos específicos, ou por meio de cultivar relações amistosas que aumentarão a probabilidade de receber apoio a longo prazo. Harcourt argentou que uma das principais diferenças entre os primatas e outros animais sociais está no uso de tais táticas pelos primatas na competição pelo acesso aos parceiros mais efetivos (ou dominantes) em alianças”.
O precursor mais famoso deste ponto de vista teria sido Humphrey que, em 1976, “argumentou que os primatas pareciam ter uma inteligência „excessiva‟ para seus desejos cotidianos de alimentação e ocupação do espaço. Portanto, dado que é improvável que a evolução selecione um excesso de capacidade, nós cientistas devemos estar deixando escapar algo. Humphrey identificou este „algo‟ como a complexidade social inerente a muitos grupos primatas, e sugeriu que o ambiente social poderia ter constituído uma pressão seletiva significativa para a inteligência primata” (ibidem, p. 2).
Beer (1992, p. 83) concorda quanto ao papel pioneiro de Humphrey, dizendo que ”ele pergunta para que poderia servir a consciência em termos de função adaptativa, e encontra a resposta na natureza de nossa vida social. As pessoas vivem em grupos nos quais competem e cooperam umas com os outras de maneiras complexas, requerendo graus profundos de compreensão psicológica mútua para dar conta disso. Esta compreensão, de acordo com Humphrey, depende de sermos capazes de consultar nossa própria experiência de modo a que sejamos capazes de colocar-nos imaginativamente no lugar da outra pessoa e assim antecipar a ação daquela pessoa, empatizar com a maneira de sentir dela, saber o que ela pretende, perceber como elas podem ser manipuladas, apaziguadas e abrandadas, encorajadas, engajadas a serviço de nossos interesses. Apenas entre os primatas superiores e os cetáceos pode ser encontrada uma sofisticação social de ordem tal que peça por esta capacidade de ser um „psicólogo natural‟, pois só para um psicólogo natural faz sentido, de um ponto de vista evolutivamente funcional, possuir consciência, introspecção e intelecto. Deste modo, Humphrey argumenta que a consciência, mesmo em sua forma mais rudimentar, é provavelmente de origem recente em termos evolutivos, e limitada ao alcance dos vertebrados com uma vida social mais sofisticada”.
O acréscimo de dados que pareciam confirmar o valor desta hipótese foi se avolumando, chegando a um ponto em que “a idéia de que a inteligência começou com a manipulação social, tapeação e cooperação astuciosa, pareceu explicar tudo que antes nos desconcertava” (Byrne e Whiten, 1997, p. 1). Estes autores propuseram então o nome de inteligência maquiavélica para designar este fenômeno. Segundo eles, “inteligência maquiavélica é melhor definida não como uma teoria, e sim como uma bandeira para um grupo de hipóteses .... e todas estas hipóteses têm em comum uma coisa: elas implicam em que a posse da capacidade cognitiva à qual chamamos „inteligência‟ está ligada à vida social e aos problemas de complexidade que esta propõe” (idem). Os autores ressaltam que o
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termo maquiavélico tem um uso corrente no sentido de manipulação de outros para ganho pessoal, freqüentemente contra o interesse desses outros; mas que o utilizam em sentido amplo, incluindo ajuda e cooperação. Alguns autores preferem o termo “inteligência social” para designar as capacidades cognitivas relacionadas ao bom desempenho da vida social, dado que o termo “maquiavélico” poderia induzir conotações inapropriadas ao fenômeno estudado.
Um dado que favorece a hipótese de a vida social ter sido o principal fator de desenvolvimento da inteligência é a complexidade da vida mental e das interações. Se a ciência conseguiu saber muito sobre a estrutura íntima dos átomos, explorar os confins do universo e descobrir como foram os primeiros minutos do Universo há cerca de 15 bilhões de anos, e decifrar o genoma humano, ainda muito pouco se sabe sobre os mistérios da mente humana e da consciência. Ou seja, este é um assunto muito complexo, difícil de ser desvendado pela razão. A multiplicidade de teorias psicológicas e de abordagens psicoterápicas atestam o quanto ainda estamos longe de uma compreensão e de uma forma de intervenção realmente eficazes. Na Psiquiatria vê-se algo semelhante, sendo a mais atrasada das especialidades médicas quanto ao conhecimento da etiologia das diversas patologias de sua área, a ponto de a classificação das doenças mentais ser feita basicamente a partir dos sintomas e não das causas (CID 10).
As ordens de complexidade crescente desafiam a compreensão humana. A física e a química foram as primeiras áreas da natureza a serem decifradas pela razão. A biologia, cujas leis respeitam as do mundo físico-químico, mas que exibe um grau de complexidade maior, só há pouco mais de um século começou a ser desvendada de uma forma mais científica e aprofundada. Quanto à psicologia, parece que ainda está por surgir o nosso Darwin ou Newton, aquele que estabeleça as bases para uma compreensão racional e operacional para os processos da consciência e da vida mental.
Desta maneira, não é de se estranhar que a necessidade de lidar com essa realidade tenha pressionado no sentido de cérebros e capacidades cognitivas cada vez mais desenvolvidos. E, num círculo virtuoso, indivíduos mais “espertos” tornavam a cena social ainda mais complicada, exigindo ainda mais desenvolvimento cognitivo. Provavelmente o aumento de tamanho do cérebro só não foi maior e abrangendo mais espécies devido ao alto custo energético do tecido cerebral, que limitava assim esta estratégia adaptativa.
2.3 AUTO-RECONHECIMENTO
Uma das questões relevantes quanto às capacidades cognitivas dos primatas não-humanos é aquela relativa à presença ou ausência da capacidade de reconhecer-se enquanto indivíduo quando apresentado à sua própria imagem refletida em um espelho. A capacidade de conceber-se como um ser definido em meio a outros seres definidos é um feito cognitivo importante, e muitos estudos parecem indicar que o ser humano não está só neste quesito.
Povinelli refere que Gallup, em 1970, “relatou que, depois de vários dias de exposição a espelhos, os chimpanzés mostraram evidências de que haviam tido sucesso em identificar as fontes de sua imagem no espelho. Inicialmente, os quatro chimpanzés que ele testou (separadamente) comportaram-se como se estivessem na presença de outro chimpanzé. No segundo ou terceiro dia, entretanto, esse comportamento social declinou e