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TERAPIA PSICORPORAL: QUEM SOMOS NÓS.


Luiza Revoredo

Texto apresentado na mesa redonda “Terapia Psicorporal: quem somos nós”, no Segundo Encontro das três Bios, realizado em Campos do Jordão, SP, em dezembro de 2006. Composição da mesa: Cláudio Wagner, Leia Cardenuto, Luiza Revoredo, Rebeca Berger (coordenadora).

Quero expressar minha gratidão ao grupo das terças feiras, gestor deste encontro, pela oportunidade de estar aqui entre amigos e pares, muitos novos, e ensaiar uma resposta a esta questão.

 

Minha primeira reflexão diz respeito ao neologismo Terapia psicorporal, termo cunhado pelo Cláudio, presente aqui à mesa, que me remete ao longo de 4 ou 5 décadas da história desta nossa abordagem e que acena com a possibilidade de nos reconhecer num território que não aprisiona numa técnica específica, mas que nos chama ao comum e à base do movimento até então nomeado na sua maior ampliação como corporalista.

 

Com o termo Terapia psicorporal tomamos como base comum o conceito de unidade funcional soma-psique. Muitos de nós já denunciaram que a denominação terapia corporal ou psicoterapia corporal ao longo dos tempos acabou por dar uma ênfase e um deslocamento para o território predominantemente de trabalho direto no corpo, abrigando num imenso guarda-chuva todos os operadores de recursos corporais.

 

Já abordamos também, inúmeras vezes, que o corpo adquiriu uma dimensão objetivada e que acabou reduzido a um monte de órgãos e feixes de músculos perdendo sua dimensão simbólica. Que a proliferação de técnicas foi um exercício bastante criativo, mas que no seu emprego sem elaboração “psíquica” tornaram-se território de alienações e de dicotomização corpo-mente, de manipulações em direção ao politicamente correto, de expressões abusivas de poder e que isto está na direção oposta ao que concebemos como um trabalho ético-político-clínico.

 

Ousadias, construções, rupturas, rivalidades, perdas, reconstruções, muito movimento é a marca desta nossa comunidade que tem uma história vigorosa e intensa e que nesta década abre as fronteiras de territórios disputadíssimos para o diálogo profícuo e o interesse genuíno de uns pelos outros. O mundo contemporâneo exige isto de todos nós, e aqui estamos, neste 2° encontro das “3 Bios e outras mais” reiterando e potencializando este movimento.

 

Sigo num breve relato histórico desta comunidade, parte que coube a mim nesta mesa, recuperando alguns dos nomes que os terapeutas utilizaram para identificar suas vertentes de trabalho aqui no Brasil, mais especificamente em SP, fazendo um recorte que me auxilia no tema.

 

Todos nós aqui somos autores deste percurso, alguns conhecem bem esta história, talvez com olhares um tanto diferentes. Quero envolvê-los e dialogar também com os mais jovens.

De antemão faço um pedido de desculpas se omitir nomes que incluam alguns de vocês, peço que façam o foco no movimento corporalista como um todo.

 

Então, quem somos nós, de onde viemos, para onde vamos?

 

José Ângelo Gaiarsa sempre movido por sua conhecida inquietude pessoal e profissional, desde a década de 50 havia ido ao encontro primeiro de Jung e depois de Reich e fazia, nos anos 60, de seu consultório um lugar de transformação e resistência política, cultural e existencial. O Brasil vivia sob a regência da ditadura militar. Por seus grupos passaram muitos terapeutas e futuros corporalistas, envolvidos nas questões que aliavam potência política à potência sexual.

 

Em 1970, mais precisamente em agosto, temos como marco o Vº Congresso de Psicodrama no MASP, que reuniu entre 1500 e 3000 pessoas, de uma segunda feira a um sábado, participando de uma verdadeira catarse coletiva nos espaços abertos pelo psicodrama público. Este evento também fez um contraponto à ditadura militar e à prática hegemônica da Psicanálise e a partir daí desenvolveu-se no eixo Rio-SP práticas alternativas que valorizavam o corpo como expressão de vida, contato, promotor de encontros, com grande investimento nas técnicas grupais, buscando relações íntimas, confiáveis, espaços de pertinência e suporte.

 

Aqui também participaram os que vieram a se definir reichianos e que em busca de reciclagem faziam contínuas idas e vindas aos EUA (Esalem, Califórnia) e à Europa (Londres), em contato com Lowen, Gerda, Perls, Moreno, Rogers, Keleman, Eva Reich, Boadella e com tantos outros e absorviam o que lá era vivido, fortemente influenciados pelo Movimento do Potencial Humano e da Contracultura.

 

Em 76, além do Movimento do Potencial Humano, vivemos a influência do Grupo Plataforma (um deles, o Hernán Kesselman esteve aqui em Campos conosco há 2 anos atrás), através de workshops ministrados aqui por Emilio Rodrigué e Martha Berlim,argentinos radicados no Brasil, que criavam novas sínteses, com releituras da Psicanálise e Psicodrama.

 

Na Psicologia da Puc-SP, Dr Pethö Sándor ensinava Jung coligado à técnicas corporais.

 

No ano de 75 o primeiro curso reichiano ocupou um lugar numa instituição aqui no Brasil, em SP. O lugar não poderia ser outro, o Sedes Sapientiae, instituição que sempre consagrou o homem como princípio e a realidade social brasileira como campo de trabalho.

 

Abro parênteses no tempo para ilustrar com os diferentes nomes que seguimos naquela instituição, da qual fiz parte juntamente com a Leia por mais de uma década e o Cláudio chegou posteriormente. Em 75 chamava-se Gestalt e Reich, depois Curso de Reich, Abordagem corporal, Psicoterapia Reichiana, Formação Reichiana, em 2000 Reich na contemporaneidade: corpo, política, desejo e pensamento, depois novamente Clínica Reichiana.

 

A quantidade de nomes que este curso assumiu ao longo da sua história ilustra o que estamos a tratar e reconheço a angústia de um grupo que caminha tentando expressar o fluxo de mudanças que uma teoria e uma técnica sofrem em função da clínica, exercendo seus efeitos no ensino. A clínica aqui se coloca como o grande eixo constitutivo da prática reichiana.

 

Outra questão é que alguns nomes eram uma resposta a um estigma que todos os reichianos sofreram na década de 80, éramos chamados de “soltinhos” e “sem cabeça”, alternativos.

 

Tenho a impressão que hoje adoraríamos ser verdadeiramente “soltinhos”. Mas o medo da exclusão, o medo da loucura... ah!loucura e alienação podiam ser produzidas pela nossa técnica!!! Socorro! Quase abolimos as intervenções corporais e, claro, logo descobrimos que a loucura não era exclusividade das nossas técnicas, que sempre houve e sempre haverá o que sai do controle, o que irrompe. O que ocorria é que não sabíamos como canalizar a força disruptiva dos fluxos de energia que o trabalho com o desencouraçamento de fato propiciava.

 

Não sabíamos bem significar o alternativo, que também é sinal de vida, de movimento, ficamos somente com a ameaça de sermos excluídos exatamente daquilo que quisemos no início, a prática oficial, a psicanálise aceita. O difícil era se sustentar numa posição de resistência ao estabelecido.

 

Nos anos 80 vários colegas deixaram o campo reichiano em direção às análises e outros tantos saíram do Sedes para criar seus próprios institutos aqui em SP, pelos quais muitos aqui passaram como alunos e professores, é o período do Ágora, Ipê, Associação W. Reich.

 

Algumas perdas foram vivenciadas como insuportáveis e aí se buscava reforçar a “ordem institucional” - haja redundância! O que se expressava e felizmente continua a se expressar, sempre de novas formas, eram buscas, potências criativas, sim muitas vezes de difícil manejo, eram processos de singularização que ali despontavam e alguns contrapontos fundamentais para a crescente indústria do corpo que já “bombava” com modelos de saúde.

 

Desta década evidencio o estado de sobreafetividade que vivíamos, parecia que o mundo se resumia a vínculos de intimidade, era a prevalência do psicológico e relacional sobre outras esferas.

 

É também quando chegaram aqui as especializações neo e pós-reichianas e outras corporais que não se designavam reichianas, as filiações internacionais, a Bioenergética, a Biodinâmica, a Vegetoterapia, a Biossíntese, que se ofereciam como espaços de aprofundamento teórico-técnico e de pertinência não só nacional mas internacional.

 

Destaco que ao iniciarmos o período dos especialismos, tendo como modelo ambicionado o profissional liberal no seu consultório, símbolo de status e segurança, isto significou que toda aquela potencia política se esvaziou, que nos distanciamos da realidade brasileira e, claro, abrimos as fronteiras para o mundo, com seus prós e contras. Nos formamos e formamos terapeutas para lidar com os “normóticos” e de uma determinada classe social passível de ser atendida nas clínicas particulares. E as psicoses? Ficaram para os Psiquiatras.

 

Assim adentramos a década de 90, os Institutos se afirmavam nas suas diferenças para estabelecer territórios próprios de formação (mercado) e construíram-se “identidades”, quase rótulos (biodinâmicos, bioenergéticos, orgonomistas, vegetoterapeutas, terapeutas somáticos, terapeutas em biossíntese). Os Institutos reforçaram suas ordens, exigiam aderência inclusive com apoio das sedes internacionais e muitos de nós ou se fechava na “igrejinha” ou, se vivesse o que era o fundamento das nossas práticas, o movimento, era lançado a angústias incomensuráveis. Tivemos até mesmo caça aos mais ousados, verdadeiras blitz aos trânsitos livres, embates difíceis que deixaram muitas feridas, ou caía-se fora, mudava de casa (Instituto) ou ficava-se solto ou se con-formava.

 

Quem não se perguntou ou pergunta se era um legítimo bio? Quem não se sente diferente o suficiente a ponto de achar que não pode estar ali ou obter o título ou preservá-lo? Como vocês se apresentam? Sentem-se confortáveis ou suficientemente definidos assumindo uma destas identidades das escolas? Acho fundamental dialogarmos sobre isso!

 

Nestes anos proliferaram grupos e escolas de várias tendências já em vários estados brasileiros, multiplicando e ao mesmo tempo fracionando nossa força, rompiam-se barreiras de escolas, mas criavam-se outras escolas sempre com muita ênfase nas técnicas. Vejamos mais nomes: Core energetics, Pathwork, Educação Somático Existencial, Abordagem Integrativa, Bodynamic, Psicossíntese, Corpo-Análise, Dinâmica energética do Psiquismo.

 

Alguns grupos voltavam a tentar reunir sob um mesmo curso diferentes teorias e técnicas, refletindo já esta crítica, como a Fonte e agora o Comunidade de Destino em Rio Preto. O Movimento R76 ousou uma composição não institucionalizada.

 

Então, por um lado este panorama, por outro, a realidade econômico-cultural do nosso país que através da clínica questionava nossas práticas, nossos referenciais teóricos-técnicos não davam conta das questões contemporâneas e o mercado de trabalho também sofreu profundas modificações.

 

A clínica, com suas novas demandas afirmava sua soberania e nos retirou do imobilismo e segmentarismos. As clínicas sociais foram os locais iniciais desta criatividade, se expandiram e levaram seus efeitos para as formações, que por sua vez levam paras as clínicas, e assim sucessivamente.

 

Mais do que trabalhar por identidades dos institutos a que pertencíamos, reconheci numa mesa redonda como analista bioenergética em diálogo aberto pelos biodinâmicos em 99, urgia a necessidade de  relacionamentos criativos e não rivalizados, para garantir formas de existir neste mundo.

 

Chegamos a este milênio e em 2001, noutra mesa redonda que avaliava onde estávamos, listei a partir dos trabalhos apresentados pontes/diálogos que os analistas bioenergéticos estavam fazendo com 34 abordagens outras!!! Apesar de tudo e contra muitos a vida e o movimento se afirmava, mas nosso campo estava esgarçado, mais ou menos um cabe tudo, e também com muita ênfase no fazer e menos afeitos aos processos simbólicos, dicotomizando corpo-mente. Vi riscos de nos dispersarmos e paradoxalmente uma potencia criativa imensa. O ingresso de vários colegas terapeutas psicorporais nas academias, vem nos ajudando a refletir com profundidade nosso campo.

 

Em 2005 tivemos o primeiro encontro das 3 Bios e hoje, como disse 3 Bios e tantas mais, estamos reunidos ousando no meio de tanta diversidade, assumir que nos reconhecemos de um mesmo campo, o psicorporal.

 

O que nos permite e favorece este reconhecimento? Que bordas são estas que nos referenciam? Arrisco algumas, vejam como soam a vocês...

 

Primeira referência, a maneira como concebemos o que é corpo:

 

Corpo é lugar de experiência. Somos afetados no corpo pelos acontecimentos do mundo e afetamos a outros e ao próprio mundo.

 

Corpo é biografia pessoal, familiar e cultural a ser revelada e legitimada.

 

Corpo é realidade transgeracional a ser reconhecida e resignificada.

 

O corpo revela o destino humano com sua força e vulnerabilidade, que se abre para o mais além.

 

O corpo tem a capacidade de se auto-regular.

 

Corpo é também lugar de mistério. Temos recursos para ler o corpo, mas saibamos que em especial no mundo contemporâneo, onde vivemos o terror de excessiva visibilidade, é importante poder se esconder.

 

Corpo é lugar de dor e sofrimento, mas também de alegria e prazer.

 

Corpo é processo, se constrói ao longo do tempo. Aquilo que se pretende verdades sobre o corpo são provisórias, são sempre datadas e plurais.

 

 

Segunda referência, as marcas da nossa ancestralidade:

 

Reich não deixou uma teoria encouraçada, ele mesmo mudou três vezes seu percurso, sempre curioso e investigativo, assumindo que se pensa cada caso a cada momento. Temos a marca da ousadia e do movimento, mas também da precisão. Se há uma fidelidade a ser vivida, que ela se dê com o paciente à nossa frente, trabalhando mais justo e junto a ele.

 

Outra marca vem do movimento da contracultura, com a potência disruptiva, afirmando sempre o criativo, reinventando a nós mesmos e ao mundo a cada tempo.

 

Mais uma marca, a resistência. Mas resistência a quê? Ao hegemônico, à serialidade, à tudo o que significar achatamento do ser humano.

 

Ainda outra, sempre buscar e afirmar os fundamentos do humano onde houver desenraizamento.

 

 

Terceira referência, a qualidade de presença:

 

O terapeuta psicorporal se oferece como presença de corpo e alma para seu paciente, ocupando seu próprio corpo como caixa ressonante, afiando seu diapasão para farejar situações que ajudem o paciente a fundar um lugar/corpo aparentado a si mesmo. Como diz Gilberto Safra, o corpo só se faz vivo se é morada de si, se tem um outro para lhe dar morada.

 

 

Quarta e última referência nesta reflexão, o trabalho com a unidade funcional soma-psique, ou seja, pelo verbo ou diretamente pelo trabalho no corpo se acessa ao outro, são expressões do mesmo.

 

Se estivermos atentos genuinamente ao paciente à nossa frente vamos reconhecer seu idioma pessoal, sua própria expressão e lançar mão dos recursos que se fizerem necessários para com ele nos comunicarmos e ajudá-lo a se por em devir.

 

 

Quem somos nós? Somos muitos, vários, somos aqueles que sempre vamos exercer o diálogo coerentemente com o que apregoamos e afirmar a esperança, a certeza de que o gesto de cada um de nós faz diferença na criação de mundos.

 

 

Para finalizar, lerei um parágrafo de Reich que está no Assassinato de Cristo, livro de 53, sempre atual:

 

“Se a Vida é verdadeiramente Vida, ela se lança ao desconhecido, mas não gosta de caminhar sozinha. Ela não tem necessidade de discípulos, de adeptos, de submissos, de admiradores, de aduladores. O que lhe é necessário, o que não lhe pode faltar é o companheirismo, a camaradagem, a amizade, o encorajamento de uma alma compreensiva, a possibilidade de se comunicar com alguém e abrir o coração.

Não há em tudo isso nada de sobrenatural e extraordinário. É simplesmente a expressão da Vida e da natureza social dos homens. Ninguém gosta de viver isolado sem se arriscar à loucura.”

 

 

Que nós aqui, terapeutas psicorporais possamos reconhecer a força instituinte destes encontros, e mesmo, e exatamente frente aos horrores do mundo, quando a Vida se mostra na sua face mais terrível, que a gente possa insistentemente afirmar nossa reverência ao enigma da existência e da Vida.

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

-Coimbra,Cecília – Guardiães da ordem, uma viagem pelas práticas psi no Brasil do “Milagre”, Oficina do autor, 1995

 

-Favre,Regina – Terapias Reichianas  25 anos depois , in Revista Reichiana nº 2, 1993, publicação do Departamento Reichiano do Instituto Sedes Sapientiae

 

-Reich,W. – O assassinato de Cristo – Livraria Martins Fontes, 1987

 

-Revoredo,Luiza - A sombra da Análise Bioenergética , texto, 1999

                       

                        - A Análise Bioenergética hoje – um comentário do Primeiro Encontro Latino Americano de Análise Bioenergética , in Revista Reichiana nº 12, 2002, publicação do Departamento Reichiano do Instituto Sedes Sapientiae

             

-Safra,Gilberto – Do handling ao corpo no setting , série Profoco, DVD Edições Sobornost, agosto/2006.